Mobilidade

Há algum tempo eu desprezaria textos como o abaixo porque na real quase ninguém tem dinheiro para comprar isso no Brasil. Mas hoje lembro que há cerca de 4 anos, meu ex-chefe chegou todo feliz pois havia comprado um DVD “de barbada” por 900 reais de um amigo e eu pensei “Nunca vou ter um DVD”. Anos depois, comprei o meu DVD por 500 e hoje é possível adquiri-lo por 10 vezes de 25 reais na véspera de natal, uma combinação explosiva mesmo para famílias que tenham sua renda de tipo dois ou três salários mínimos. Ou seja, daqui um tempo o descrito abaixo vai ser uma realidade como a TV em praticamente todos os lares ou como os quase 88 milhões de celulares nas mãos de brasileiro (obviamente cerca de 70 milhões são pré-pagos). Então vale sempre prestar atenção nas novas relações sociais e mesmo pessoais que surgem com novos equipamentos:

“Levado a um novo lugar por uma TV na palma da mão
David Carr – NYT

Na noite da última terça-feira, eu entrei na fila para pegar o ônibus para voltar para casa. Mais à frente na fila eu viu uma vizinha -uma mulher inteligente e engraçada com quem eu adoraria dividir a desagradável viagem.

Mas me esquivei, correndo para o fundo do ônibus porque a primeira temporada da série de mistério e aventura “Lost” estava aguardando no meu iPod. Claire estava prestes a dar à luz e John Locke, o sábio da série, vinha agindo de forma estranha. A série portátil significava que minha volta para casa, que eu sempre odiava com a força de 10 mil sóis, tinha se tornado um momento um pouco dedicado a mim mesmo.Muito se falou de quão idiota era a Apple acreditar que pessoas assistiriam televisão em uma tela de 2,5 polegadas. Mas os consumidores fizeram o download de três milhões de programas de vídeo no iTunes desde que o novo video iPod chegou ao mercado em outubro. Como isto é possível?O novo iPod é um meio viciante por si só. Suas limitações -a experiência de assistir que exige fone de ouvido e uma tela handheld- criam um grau de intimidade que remonta a infância da televisão, quando o objeto luminoso era tão maravilhoso que estimulava uma fantasia silenciosa.Você agora assiste cores vistosas e imagens nítidas traduzidas em miniatura. A capacidade de realizar o download de programação da minha escolha me dá uma nova espécie de privacidade, recuperação de tempo, um terceiro local virtual entre o frenesi do local de trabalho e o lar cheio de atividade.

Mas eu me sinto um pouco sujo. Como uma pessoa do meio editorial, eu sempre achei que jornais e revistas eram a mídia portátil suprema -eu até mesmo aprendi uma forma particular de dobrar o jornal para lê-lo sem perturbar meu companheiro de assento no metrô ao virar a página. E se estou vivendo em um pequeno mundo próprio, isto não está colaborando para minha conexão com o mundo à minha volta.Muitas vezes no trem ou no ônibus, antes do novo iPod, eu repassava coisas em minha cabeça – realmente pensando em vez do processamento de dados que faço ao longo do dia e da noite. Minha viagem no transporte coletivo se transformou de uma parte do dia comunal e ocasionalmente meditativa a um momento em que olho para um controle remoto de televisão que por acaso contém uma imagem inserida nele.Ainda assim, eu faço a troca. “Lost” sempre soou como uma série que eu gostaria, mas como pai de três com um emprego que exige longas horas e uma doa dose de transporte coletivo, assistir programação de TV em uma hora determinada nunca funcionava. O trem “Lost” partiu sem que eu conseguisse embarcar.Com o novo iPod, eu pude começar do início da série e a assistir “Lost” quando quisesse. Cada episódio dura em média 44 minutos, cerca da duração da minha viagem. Assistir “Lost” no ônibus ao lado de um homem gordo comendo amendoim é uma experiência profundamente satisfatória. Adeus gordo comendo amendoim. Olá Claire e John Locke. (É um bônus o homem não conseguir ver a imagem de lado, por mais que tente.)

Assim é como terminamos sozinhos juntos. Nós compartilhamos o espaço do café, mas estamos todos concentrados em nossos laptops com conexão sem fio. O metrô é uma sinfonia de silêncio de fones de ouvido enquanto a viagem da família se tornou um momento para as crianças assistirem DVD no banco traseiro da minivan. O papo do cafezinho, o nexo de conversa sobre o programa da noite anterior, poderá silenciar à medida que criamos ambientes de mídia personalizados, díspares.Ao descartar a chance de sentar ao lado da minha vizinha no ônibus, eu perdi toda sorte de fofocas e intrigas. E aquela revista “New Yorker” na minha bolsa, com o artigo sobre a criação de Osama Bin Laden? Ela ainda está lá, assim como o novo livro de Joan Didion, “The Year of Magical Thinking”. Assim como aqueles mp3 dos Concretes que baixei tão empolgadamente quando comprei o iPod há um mês.Há outros reveses para o vídeo portátil, personalizado. “Lost” é um programa com uma subtrama cheia de pistas visuais que não são perceptíveis em um iPod, e uma hora e meia de duração de bateria parece precisamente projetada para frustrar quem quer assistir a um filme. Mas como aparelho para assistir a um único episódio de uma série, sitcom ou novela, o video iPod parece concebido sob medida.Eu realmente assisto muito pouca televisão em casa. Entre os telefonemas, tanto em aparelho fixo e celular, lição de casa das crianças e outras necessidades, e uma conexão sem fio de banda larga que me mantém ligado ao trabalho, a TV freqüentemente acaba se tornando uma peça silenciosa da mobília.

O iPod, por outro lado, é carregado, programado e usado quase que diariamente. Eu perdi minha parada do ônibus porque o video iPod é uma experiência altamente envolvente. O ato de espiar para uma pequena tela handheld com fone de ouvido exclui o restante do mundo – ainda mais do que a experiência de escutar música.Eu sou uma anomalia, um maluco superestimulado e trabalhando em excesso necessitando de alívio digital olhando para uma curiosidade? A Apple não pensa assim. Lembre que a loja iTunes da empresa começou em 2003 com apenas 200 mil músicas e agora conta com mais de 2 milhões, e os consumidores já realizaram 500 milhões de downloads a 99 centavos de dólar cada.Há cinco programas da rede “ABC”, ou de sua dona, a Disney, disponíveis pela Apple. E a “NBC Universal” seguiu oferecendo 11 séries novas e clássicas -incluindo “Law & Order” e “The Office”- para download. (Há também 2 mil videoclipes disponíveis, mas eu tenho um pouco de consciência sobre ficar sentado no ônibus com Shakira girando na palma da minha mão.)Ainda assim, que tipo de idiota pagaria por programas que são exibidos gratuitamente? Eu estou pagando a chamada taxa de conveniência.

Eu poderia ir ao BitTorrent ou algum outro onde conteúdo de vídeo está disponível para quem quiser, mas não estou interessado nas piruetas morais e tecnológicas exigidas para obter programação gratuita -eu acho que o termo técnico, legal, é “roubada”- para meu iPod. Em vez disso, eu me tornei um presente que é dado continuamente à Apple. A empresa tem meu cartão de crédito e continuarei gastando US$ 1,99 por episódio para descobrir o que acontecerá na segunda temporada de “Lost”. Quando ela terminar, eu provavelmente darei uma chance para “Monk”.A Apple está trabalhando na próxima versão do iPod, que poderá envolver a ampliação da largura do aparelho vertical, para uma imagem horizontal, maior. E agora que já há um precedente -a Apple convenceu as emissoras a abandonarem um modelo de negócios de meio século- a oferta de programas apenas aumentará.Até lá, me procure no ônibus. Só não tente conversar comigo.”

Não sou exatamente um tecnófilo, mas lá vai. Esses dias estava conversando com uma pessoa e era bem o tipo de primeira questão que surge com um novo aparelho: quem vai querer ver coisas desse tamanho? Quem vai querer andar por aí com seus seriados? Alguém além dos mal acostumados americanos? Bom, novamente lembro dos celulares e de como no mundo todo eles transformaram qualquer lugar, da rua a um restaurante, em uma cabine telefônica sem paredes.

Em alguns anos muitas das questões técnicas estarão resolvidas ou nós estaremos acostumados a novos formatos. Quem reclama hoje em dia que as capas de CD são muito pequenas? Em breve não haverá nem mesmo mais capas de CDs. A grande maioria dos jovens se relaciona com a parte visual da míusica através dos clips ou dos telões nos shows, das fotos nas revistas, etc. A capa, é provável, vai deixar de ter este papel (sem trocadilhos). Da mesma forma, os vídeos portáteis vão encontrar seu espaço e seu meio de uso, com todas as implicações que isso tem.

Outra. Que os portáteis isolam, sabemos desde o surgimento do walkman e não há muito por que lutar com isso. Mais uma vez: o isolamento e a criação de mundos paralelos não foram inventados pela mobilidade. Qualquer um que já tenha se refugiado em seus devaneios durante uma reunião chatíssima sabe disso. A imaginação continua sendo o portátil mais eficiente, discreto e polivalente e fãs de quadrinhos ou livros devem concordar que não há algo que coloque você MAIS dentro de uma bolha do que uma boa leitura.

Ou seja, assim como a mobilidade não criou os mundos internos, a tecnologia não inventou a mobilidade. Outro dia, ouvi uma pesquisadora se mostrar abisamada com a possibilidade dos garotos levarem vídeos pornô para o banheiro no tal iPod vídeo e na hora a primeira coisa que me ocorreu foi “Ei, isso sempre foi feito com revistas, não é algo tão maluco assim, só muda a mídia e talvez a qualidade da, er… diversão”.

Minha principal experiência com tecnologia móvel é um Creative Zen de 5GB e, rapaz, realmente muda sua relação com música ter tanto conteúdo disponível num lugar tão pequeno. O mero fato de viajar e circular sem um trambolho que é (ou que virou na minha concepção) o discman e o case de CDs já faz a diferença. Além do que, dá menos vontade de ir à loja de CDs e mais vontade de ter um site decente do qual baixar bons discos oficialmente. Ano passado, isso era tudo novidade, mas agora já começamos a ver mp3 players nos camelôs – estes que infelizmente fazem o papel de inserir as novidades tecnológicas nas mãos da galera por aqui.

Outra rápida experiência de mobilidade: por 3 semanas fui dono de um Palm III antigo junto com um tecladinho GoType, que convertia o Palm numa mini-máquiina de escrever – não digo laptop porque o Palm IIIé tão antigo que só servia mesmo pra escrever – e sem acentos. A princípio, a idéia de poder escrever onde eu bem entendesse, como na beira da piscina de um sítio, como fiz, pareceu tentadora e libertadora. Por outro lado, depois que perdi algumas horas na beira da piscina escrevendo, mudei um pouco de idéia. A mobilidade às vezes pode prender você, porque você não fica esperando mais para escrever quando estiver à frente do seu desktop. Falo por mim, mas quantas pessoas não acabam fazendo MAIS coisas por conta da mobilidade? Enfim, isso tudo leva um novo jeito de enxergar as coisas.

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