Era uma vez uma careta

Era uma vez uma careta. Uma careta de mau humor que comprou uma barraca e foi acampar porque havia lido em uma revista semanal que é preciso combater o stress com um pouco de contato com a natureza.

A compra da barraca ocorreu sem maiores incidentes, ainda que a careta não tenha conseguido se conectar com o vendedor, aquela coisa coração a coração. Na verdade, é possível que aquela venda, mesmo tendo gerado uma boa comissão, tenha estragado o dia do vendedor por causa do mau humor da careta.

Torcemos, então, para que ele chegue em casa e não desconte em ninguém.

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Na estrada, a careta pensou muito na vida, frisando ainda mais os lábios, que se cruzavam um sobre o outro, em um ângulo oposto ao caos das sobrancelhas, formando uma bizarra escultura, ainda mais se levarmos em consideração as maçãs da face desconjuntadas e oprimidas. Não era algo bonito de se ver, mas ao menos era algo iluminado pelo pôr-do-sol da autoestrada e refrescado pela brisa do fim de tarde que já trazia um gosto almiscarado de verão.

Nem a careta e nem eu sabemos o que é almiscarado, mas o gosto estava lá.

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Acampar era coisa nova na vida da careta e ela não teve que se esforçar para refletir seu estado de espírito enquanto combatia com sofreguidão o processo de montar a barraca. Após tudo arranjado, a careta sentou sob as estrelas e assistiu TV no celular. Estava passando a primeira parte de 2001 – Uma Odisséia no Espaço e havia muitos macacos presentes.

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A noite não era mais quieta no mato, apenas que os ruídos tinham uma outra qualidade. Grilos, corujas, as folhas ao vento, cobras, aranhas, pirarucus, piaçavas e pirlimpinpins conversavam sem dar trégua à careta. Ainda assim, ela dormiu e sonhou com comerciais de celular.

Após anos de comerciais de celular na TV, um dia veremos TV no celular.

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Sonhou que batia com o dedinho do pé na quina de uma mesa. Sonhou que era maio. Sonhou que o vendedor de barracas brigava com a mulher. Acordou mal no meio da noite.

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Pela manhã, a careta levantou e resolveu organizar a barraca como se fosse um bairro de Tokyo, daqueles arrumadinhos. Jogou fora tudo que não queria mais e sobraram apenas suas roupas mais básicas, uma camiseta Hering, um tênis de futebol de salão e uma calça jeans Wrangler. Vestiu como quem se cobre de mantos sagrados e caminhou dois quilômetros até o mar.

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Apesar da proximidade com o verão, estava frio. A careta cerimonialmente abriu mão da camiseta, do tênis e da calça e entrou no oceano Atlântico. Seus músculos se contraíram com a baixa temperatura e ela sentiu o sal dissolvendo sua personalidade.

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Se experimentado diretamente, o sal provoca caretas. Mas dissolvido em grandes quantidades de água, tem a propriedade de absorver as vibrações ruins e tirar grandes pesos das costas. A careta pensou nos navegadores do passado e imaginou se sua proximidade com o mar evitava o stress nas travessias épicas de um continente a outro.

Enquanto lembrava de Pedro Álvares Cabral, os traços da careta foram amolecendo. Primeiro as sobrancelhas se alinharam, depois os frisos da testa sumiram, as bochechas relaxaram pela primeira vez na vida, os lábios se despediram e os olhos ganharam um brilho nunca dantes visto.

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Sobrancelhas, testa, bochechas, olhos e lábios começaram a se afastar, boiando para longe uns dos outros e se concretizou ali um dos grandes medos da careta. Longe da cidade, deixando para trás uma barraca montada e seu set de roupas básicas, ela deixou de existir. Na vaga criada por sua inexistência, houve por um instante a experiência do espaço aberto e livre, o último resquício da sua vida como careta. Então, no imediato instante seguinte, até mesmo essa experiência se dissolveu e ficou apenas o suísh suísh das ondas lambendo a areia, tentando alcançar as roupas da careta por pura diversão, a mais pura e limpa diversão.

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