Debate

Então na quarta rolou o debate sobre “Mercado” no projeto Palavras – Poesia de Rua, como eu tinha dito. Rodrigo Brandão do Mamelo Soundsystem, o Jean da Alvo Produtora Cultura, o DJ Martins, a Fabiana do Instituto Trocando Idéia e eu – mas na real a platéia praticamente fazia parte da mesa e foi bom pra conhecer mais gente, tipo o W Negro e o PX, entre outras pessoas.

Teoricamente o direcionamento do papo era a dificuldade de distribuição no meio independente, mas quando se fala de cultura independente a coisa sempre cai na questão da “autenticidade” e da suposta cooptação pelo dinheiro… o lado bom é que das últimas vezes em que eu li/assisti/participei de alguma conversa onde isso surgiu, mais vozes vinham defendendo uma visão menos militante e mais aberta, aprendendo a lidar com a questão de forma menos católica apostólica romana culpada. Então eu nem vou perder tempo com esse ponto.

Distribuição, então.

É curioso ver como, no caso da distribuição, o teor das reflexões são muito próximos às intermináveis dúvidas que o mercado publicitário tem a respeito do “estado das coisas”. Foi meio deja vù pra mim, um deja vù bastante sutil, não muito explícito.

A real é que, no fim das contas, tanto na publicidade quanto na música, todo mundo está preocupado com a dificuldade de disseminar conteúdo em um cenário de total dispersão.

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A grande distorção na questão musical é confundir distribuição de CD (suporte) com a distribuição da música. São duas coisas diferentes e o que foi abalado nos últimos anos não foi a música mas a distribuição do suporte físico como conhecíamos (leia-se CEDÊ NA LOJA). Mas, respeito: não vamos confundir distribuição de suporte com distribuição de música.

Provavelmente nunca se ouviu tanta música quanto hoje e está se configurando um cenário de incrível ebulição. A única diferença é que o terceiro mundo ainda não encontrou um modelo de distribuição universal com remuneração adequada. Tentativas existem: Cd-R pirata, CD-R queimado em casa, compartilhamento de arquivo via P2P, pen drive, mp3 player, streaming… a música circula. O dinheiro é que está meio confuso nessa história toda. Não sabe pra que lado ir. E acaba não indo a lugar nenhum.

O primeiro mundo se agarrou no modelo de remuneração por download, totalmente amparado no fato cabal de que gringo tem mais grana. Então a questão não é a Apple ou o iPod ou a tecnologia ou o download a 1 dólar. A questão é o amplo acesso à banda larga. Pra não falar do hábito que os gringos tem de serem mais certinhos e gostarem de pagar pelas coisas.

Vai dizer: não é muito a nossa pilha.

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(Aviso: não vou perder tempo com as iniciativas nacionais de oferecer dowload pago. É limitado, caro, total nadaver.)

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Curva 90 graus.

Toda vez que eu vou tocar em algum lugar cai na minha mão um ou dois CDs de alguma banda nova. Não vou mentir: a maior parte deles acaba ficando no case da guitarra, eu esqueço lá. Acabo escutando a banda no Myspace. O CD funciona como um cartão de visitas e não tanto como um suporte pro som, pq dificilmente ando com CD por aí.

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Na segunda retrasada, o Dary do Terminal Guadalupe me lançou um pacotinho esquisito. Uma caixinha de madeira toda cheia das chinfras, um logo impresso no capricho, você abria e dentro tinha… uma pen drive! Com música, som e texto da banda, o último discos dos caras todo lá pra tu passar e repassar. E ainda ganha uma pen drive na boa. É caro? É caro. É original? Não 100%, outros tão fazendo por aí. Mas foi um lance muito interessante. Porque diferente dos CDs que eu recebo, eu saí mostrando a caixinha por aí pra todo mundo, algumas pessoas pegaram o pen drive e rapidamente copiaram o conteúdo pros seus computadores, coisa q não costuma acontecer com os CDs. Isso é mudança de hábito.

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Então todo mundo tem que abandonar o CD e investir no mercado das pen drives. A questão é experimentar, tentar, não se fechar.

Acho que os caminhos possíveis todos acabam se resumindo a dois eixos.

1. Facilitar a circulação: permtir que a música seja espalhada e tentar derrubar o máximo de impedimentos pra que isso aconteça. Isso não significa ELIMINAR a remuneração. Se isso significa, talvez, rever a forma de remuneração. Invente o seu jeito. Você ganha dinheiro com CD? Vai nessa. Com direito autoral? Beleza. Com show? É isso. Com camiseta e adesivo? Tudo bem. Toca de graça, joga os mp3 na rede e depois vende palestra sobre as viagens da sua banda? Ó aí.

2. Ampliar a profundidade de experiência: uma sugestão que eu dei no debate, vinda de várias experiências que eu já vi por aí é pegar a grana que você investiria em suporte (prensagem de uma grande quantidade de CDs) e investir em outras formas de interação com seu público, seja alguns shows com atrações especiais, seja uma puta página na internet cheia de chinfras, seja um game, seja uma série de vídeos no YouTube. O que isso tem a ver com música? Tudo. Música nunca foi só música, sempre veio agregada a estilo e artes visuais. É o tipo de cosia que envolve as pessoas. Se a música for boa então, nossa. Se não for boa, você pode pelo menos descobrir que tem outros talentos.

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Na publicidade, o problema é o mesmo. Se confunde muito o suporte com a mensagem. Ainda se acha que o comercial de 30″ e o anúncio é que são a publicidade – quando na verdade a publicidade é o conteúdo ou a interação. E aí é que a indústria se sente ameaçada. Porque confunde o suporte com o conteúdo. Quer dizer… não confunde, mas fica apavorada porque o modelo de remuneração – como na indústria musical – está atrelado ao suporte e não ao que importa: o conteúdo.

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Mas isso é papo pra outro dia.

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Bom fim de semana.

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