Conector em Gotham – parte 3 de muitas

Acho que a coisa que você mais faz em Nova Iorque é perder atrações e barbadas. Por exemplo, nós perdemos o Hypnotic Brass Ensemble pra ir no Fred Wesley tocando com um clarinetista e um rapper judeus. Também perdi de ir na loja de instrumentos freqüentada pela galera do Sonic Youth. Pra não falar de uns dois ou três museus que perdemos de propósito porque não havia mais perna e cérebro disponível na casa.

Mas uma coisa eu fiz questão de não perder: qualquer show de stand up comedy que aparecesse pela frente.

Mitch Fatel: “oh my god”

Não sei como a coisa anda no seu mundo, mas no meu universo de amizade o stand up comedy anda em franca ascensão. Dois amigos meus se pilharam pra começar a escrever textos e ensaiar uma carreira underground de comediantes. Links de you tube voam de um lado para o outro. E, algo que merece um post à parte, o Brasil começa a ser invadido por esse hábito americano de fazer comédia em bar escudado apenas por um microfone e uma platéia alcoolizada.

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Bom, o fato é que calhou de estarmos parando a uma quadra de um dos principais clubes de comédia de Nova Iorque, o Stand Up NY (o link até dias atrás tava funcionando, hoje não está, vamos ver se vc dá sorte quando ler esse post). O Seinfeld e o Chris Rock já passaram por lá, só pra elencar alguns poucos nomes. Trechos de apresentação da volta do Seinfeld aos palcos no documentário Comedian, por sinal, se passam no Stand Up NY. Ou seja, um lugar cheio da mística.

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Fomos num sábado, dia de sessão tripla: os 7 comediantes da noite se apresentavam às 20h, às 22h e à meia-noite. Assim que uma sessão terminava, a platéia era enxotada gentilmente pra fora, o bar era limpo e a fila que esperava era acomodada rapidamente.

Fomos colocados em uma mesa junto com um casal mais novo de Long Island (uma ilha ao lado de Manhattan que contém alguns bairros de Nova Iorque e também uma região praiana). Ali já começou a comédia, porque, apesar de muito simpático, o casalzinho não era muito versado em geografia e pediu confirmação a respeito de suas suspeitas sobre o Brasil ser na América do Sul e do francês ser nossa língua oficial.

James Smith: “I make the posters”

Antes de tudo começar, rolou um certo nervosismo de nossa parte. Será que vamos entender o inglês? Será que vamos entender as piadas? Será que vai valer a fortuna que custa a brindadeira toda?

(20 dólares de entrada + 20 dólares de consumação + taxas + gorjetas = 100 dólares o casal)

No início, ainda tivemos nossas dúvidas. O mestre de cerimônias era bem engraçado. Mas os primeiros humoristas não muito. Cada set durava em média 20 minutos e uma mulher usou praticamente todo o seu tempo detonando seu filho recém nascido, falando das dificuldades da maternidade de um jeito meio mórbido. Outros dois caras eram tão rápidos que a gente não entendia nada. Ríamos de nervosos ou junto com as outras pessoas, só por rir.

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Na verdade, a platéia inteira ria de qualquer coisa que os caras falassem, o tempo todo. No início ainda pensamos que o problema era nosso entendimento do inglês, mas à medida em que o show foi indo adiante, percebemos que eles riem de tudo mesmo! De qualquer coisa! Talvez seja uma espécie de atitude de consumidor de primeiro mundo tipo “estou pagando por esse troço, então eu vou rir, ah eu vou rir muito!!”.

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Felizmente lá pela metade da sessão a coisa começou a melhorar, especialmente quando um australiano radicado em NYC chamado James Smith começou seu set desancando a cultura americana – o que fez as pessoas rirem ainda mais.

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Outra surpresa incrível foi um tal de Mitch Fatel. Foi o meu preferido da noite, não só pelo texto do cara, mas pelo personagem que ele encarna. Diferente de todos os outros comediantes, que baseiam suas apresentações em uma aura cool de esperteza e desprezo (por outros ou auto-desprezo), o Mitch Fatel constrói todo seu ato em cima de um personagem tímido, com movimentos discretos, um fiapo de voz mongol, sussurros bizarros e orgulho disso tudo.

O site do cara merece uma visita, especialmente por um texto que dá dicas de como se tornar um comediante

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Outro cara muito bom, mas que aí eu peguei na tv, num especial do Comedy Central, foi o George Lopez. Como o Russel Peters faz tudo em cima da sua ascendência indiana, grande parte do material do George Lopez é baseado nas peculiaridades da cultura mexicana dentro dos Estados Unidos. Em quarenta minutos de show que eu assisti, eu aprendi mais a respeito da America e dos mexicanos lá instalados do que talvez aprendesse em qualquer enciclopédia…

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Não tenho nada engraçado pra dizer no fim do post.

Talvez eu só devesse citar o Mitch Fatel: “oh my god…”

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