As desire lines nas agências

Esse lance de desire lines é uma mão na roda pra explicar uma pá de coisas. Minha última coluna da +Soma foi com uma metáfora de desire lines e relações pessoais. E aqui na agência, essa semana, usei o conceito pra explicar o que eu considero a melhor forma de implantar processos relacionados à inovação.

Apesar de nunca ter estudado formalmente o assunto, não ter MBA e não conhecer teorias relacionadas a processos, me coube nos últimos 15 meses ajudar de forma bastante ativa na implantação de uma nova cultura através de um novo departamento aqui na agência. Nesse tempo todo, eu ganhei mais alguns cabelos brancos, perdi algumas noites de sono, tive umas crises gástricas – e isso tudo, vamos deixar bem claro, é uma MERDA, destestaria fazer apologia da loucura que é trabalhar nesse ritmo de agência mais do que seis, digo, oito horas por dia.

Mas enfim, ao menos nesse trajeto eu aprendi muito (sobre o novo momento da publicidade, sobre mim, sobre os outros, sobre pessoas em geral). Tive o privilégio de viver no limbo por esse tempo, sem ter uma função e processos muito bem definidos (pontos para o meu chefe que sacou que o lance é começar beta), flutuando nos mais diversos projetos e transitando por departamentos muito diferentes, tratando com pessoas de diversos backgrounds, construindo (poucos) cases interessantes que foram pra rua, criando (muitas) possibilidades que não deram em nada, angariando (alguma) simpatia e tomando (alguma) porrada.

Bom, a coisa mais valiosa que eu aprendi nisso tudo (entre zilhões) foi que a melhor forma de estabelecer uma nova cultura em uma agência (ou locais semelhantes) é respeitar as desire lines criadas pelas pessoas. Pra quem não sabe, as desire lines são os caminhos alternativos que as pessoas fazem em parques e praças, buscando atalhos ou simplesmente uma caminhada mais agradável que não havia sido detectada pela pessoa que projetou a calçada.

Em toda empresa existem desire lines. Às vezes são caminhos improdutivos mas na maior parte dos casos são atalhos inteligentíssimos ou então vias muito mais interessantes do que aquelas que estão pavimentadas. É pelas desire lines corporativas que circulam as informações mais ricas e por onde de fato acontecem os projetos. É por onde você anda de pé no chão ou enlameando os tênis, sem tantos pudores.

As desire lines corporativas não invalidam a necessidade de calçadas. Isso eu também aprendi: essa coisa de “ame o caos” é muito bonita em palestra de gringo (na verdade tudo uns puta control freak) mas extremamente estressante e contraproducente se mal aplicada em uma estrutura mais formal.

Não é possível uma agência de maior porte querer se comportar como hotshop (pequenos estúdios com práticas mais livres e foco maior em criatividade). É uma idéia absurda e muito frustrante pra todo mundo (embora bastante popular). Quem quer trabalhar (ou liderar) uma hotshop, deveria urgente tentar montar uma (pra ver o que é bom pra tosse) em vez de tentar implantar uma cultura dessas dentro de uma estrutura que não está preparada para tanto.

Então a meu ver o ideal é manter as calçadas e usá-las, mas sem desprezar ou matar o espaço das desire lines. Isso é muito mais fácil falar do que fazer porque as desire lines tem uma natureza anárquica, colaborativa e anti-institucional. Elas são móveis, surgem e se desfazem ao longo dos meses. Algumas que eram muito úteis podem se tornar um estorvo depois de alguns meses, como uma trilha que fica TÃO enlameada que é impossível passar por ela. Mas, diferentes das calçadas erradas, as desire lines erradas morrem por si só porque não precisam ser quebradas a martelo. É só parar de passar por ali e deixar a natureza fazer seu trabalho.

***

Imagens: daqui.

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4 pensamentos sobre “As desire lines nas agências

  1. Mini, se tiver a chance leia o livro Critical Mass, do Philip Ball. É um livro onde ele tenta mostrar a física e a matemática por trás de todas as coisas. Ele dedica algumas páginas sobre as desire lines, com fórmulas e modelos matematicos, mas de uma maneira bem simples que é fácil de entender.

    Abraço

  2. mini, maravilhoso esse raciocínio das desire lines, isso se aplica a tantas coisas! eu sempre me senti esmagando a grama alheia, agora tenho um argumento técnico. beijos.

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