Viana Moog tenta esconder o jogo, mas não consegue

“Anote aí antes de escutar o primeiro disco dos caras recém lançado: a Viana Moog tenta a todo custo esconder seu jogo mas não tem jeito. Vertiplano, a faixa número quarto, traz repetições contundentes do que parece, numa primeira análise, ser o objetivo da banda: “tudo que eu quero é acordar de ressaca com você”. Nesse texto que você está lendo, meu intento é explicar duas coisas. Primeira: por que é quase possível acreditar nessa proposta. Segunda: por que, na verdade a Vianna Moog não quer, de jeito nenhum, acordar de ressaca com você.

O engano inicial pode-se dar através da tempestade sônica empreendida pela banda e os poemas encardidos cuspidos pelo vocalista Cidade. Nascida à base de boemia, a Vianna Moog cresceu por conta de um inicial isolamento geográfico no Vale dos Sinos (RS) e altas doses de contracultura, uma mistura geralmente fértil e explosiva. Hoje, tendo amealhado um séqüito fiel na sua região, a banda prepara para capturar novos apaixonados com o lançamento do seu primeiro CD pela Plus Records. Produzido por Iuri Freiberger, “Viana Moog” condensa em 13 músicas a explosão geralmente pouco embalável do quinteto.

“Santo Estéreo”, “O Melhor do Espírito” e “Casa dos Gatos” vêm construídas à base de riffs básicos com dois recursos que poucos sabem usar sem soar chatos: a repetição martelada e a perversão do modelo intro-estrofe-refrão-estrofe-refrão-solo-final. As letras, curtas, gritadas, são basicamente intervenções vocais que dão pistas a respeito do que todo aquele caos quer dizer: “Rejeição uterina em lojas de peles líquidas”, “mate-me de um jeito sexy com teu bom mau humor”, tudo isso na “casa dos gatos” com a “alma trincada”. Da fissura da alma vertem as valiosas pepitas verbais escondidas sob camadas de sujeira sônica e espiritual.

A influência de gente como Sonic Youth e Frank Zappa aparece mais em músicas como a estranhamente dançante “Chagas Adesivas”, a hipnótica “Luxo Elétrico” e a angustiada “Striptease Revolver” enquanto a veia punk surge na acelerada “Twiggy”. Os poemas rotos seguem dizendo que “vou-me aos teus lábios cauterizá-los com conhaque e antiácidos”, que “eu tive nada, ela teve nada e no entanto ninguém teve tanto do oceano e seus danos” ou seja, todo mundo “nu até os pulsos”.

A palavra que me vem à mente para fechar questão quanto ao som da Viana (não que isso seja tão necessário) é a pior possível nessa altura do campeonato: tecelagem. Gosto de imaginar uma das mais criativas e intensas bandas do Rio Grando do Sul como um armazém repleto de teares. Em vez de fios, temos os dedilhados e os riffs de guitarra (faça uma audição inteira só escutando as guitarras), as batidas retas da bateria, os baixos diagonais e a voz desesperada. Em vez de tapetes, 13 canções com diferentes experiências de vida (um vocalista com pendor para a poesia boêmia), sonoridades (um baixista que se recusa a ser coadjuvante), referências (um guitarrista com background em rock progressivo e passagem pela Patrulha do Espaço) e visões (outro guitarrista que usa o ruído como forma de expressão).

Como explicar que tudo isso não se restringe ao mero convite para “acordar de ressaca com você”? Porque assistindo a um show ou ouvindo com a devida atenção ao disco da Viana, você vai encontrar uma característica rara em bandas com essas fontes de inspiração: riqueza e profundidade. Acordar de ressaca com você é muito pouco para quem se alimenta de tanto e tem tanto a oferecer.

Sem mais para o momento, subscrevo-me e assino embaixo do nome Viana Moog.”

***

Esse é o release que escrevi pra Viana, banda parceira com quem dividimos o baterista, o palco e casa na praia. Mas não é marketing de amizade: eu realmente adorei esse disco e várias músicas não me saem da cabeça.

Ah: a capa é do ex-batera, Mac.

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2 pensamentos sobre “Viana Moog tenta esconder o jogo, mas não consegue

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