Pensando ConCulture #5: Jenkins no Maximídia

Diferente de 2007, esse ano assisti ao Maximídia pela transmissão via satélite que rola aqui em Porto Alegre mesmo. A distância não atrapalhou em nada a verborragia e o despejo de referências nerd de Jenkins, mas a tradução simultânea deu uma esfriada na história toda, já que a voz da (boa) tradutora foi mixada direto em cima da voz do cientista de mídia do MIT. Mas, enfim…

Como é o jeito dos americanos, basicamente Jenkins tratou de discorrer sobre o conteúdo de seu livro que está sendo lançado no Brasil. No entanto, as comparações com palestrantes falcatruas páram por aí. Vê-se claramente no olhar e na forma como o americano trata do assunto que não estamos diante de um ornitólogo falando de pássaros e sim de um integrante da quadrilha.

O fã confesso de cultura pop começou colocando a visão errônea que muita gente tem da tal web 2.0: “Você faz todo o conteúdo e eu ganho todo o dinheiro”. Pra contrapôr essa visão, Jenkins mostrou claramente  que as relações em um mundo no qual o conteúdo é cada vez mais distribuído de forma não linear tem mais áreas cinzas do que pretas e brancas. Ícones de palestras do gênero como Lost, iPhone e Heroes foram misturados a um conhecimento profundo de fenômenos mais específicos como games e animes. Desses últimos, Jenkins extraiu uma idéia que oferece uma perspectiva esclarecedora.

Antes de gerar milhões de dólares em negócios altamente lucrativos para diversas indústrias, o anime foi uma poderosa subcultura com revistas e vídeos de VHS sendo copiados e contrabandeados por todo o mundo nas mãos de fãs extremamente ativos. Embora alguns possam argumentar que isso foi pirataria, Jenkins chama esse tipo de iniciativa como a “tropa de choque” de produtos culturais. Em outras palavras, se hoje corporações ganham milhões com derivados de produtos japoneses (e ganham), é porque há muito tempo os fãs mais ardorosos estabeleceram as bases desse gosto no tecido social de seus países. Gostei muito disso. É óbvio, mas nunca alguém tinha explicado de forma tão clara.

Mas o grande assunto da palestra foi mesmo a convergência e, por consequência, o tal do transmedia storytelling. O moderador Luis Fernando Vieira, diretor de mídia da Africa, começou fazendo uma ceninha pedindo autógrafo mas depois largou uma pergunta simples e interessante: qual a diferença entre cross-media, integração e transmedia storytelling? Jenkins primeiro respondeu algo que também eu acho: esses são termos intercambiáveis. Muitas vezes as pessoas ficam discutindo os termos certos quando na verdade estão falando da mesma coisa. Depois explicou que o que ele chama de transmedia storytelling se caracteriza pela expansão de um conteúdo em diversas plataformas e não sua mera repetição. Ok?

Mais dois tópicos interessantes.

Um foi a eterna tecla que precisa ser batida em relação às comunidades que surgem em tornos de marcas. O conselho de Jenkins para isso é que as marcas prestem mais atenção nas comunidades que formam à revelia dos seus planos de marketing e não que fiquem tentando criar e fortalecer comunidades formais.

O outro foi a notícia de que o C3 (Convergence Culture Consortium) está arrumando parceiros e clientes no Brasil. A cultura pop do Brasil, com sua vastidão e funcionamento tão livres, são um prato cheio para estudos de mídia comparada. Qual é o potencial de transmedia storytelling em nosso produto cultural de maior sucesso, as novelas? E o que vai acontecer com as milhares de celebridades regionais que estão começando a ter exposição nacional com YouTube? Pra onde, afinal de contas, vai o Orkut?

Se eu fosse americano, realmente corria rapidinho pro Brasil pra aprender o que é cultura livre, mashup e criação colaborativa.

***

PS: as duas imagens acima eu achei digitando CONVERGENCE no Google Image. A primeira foi usada por Jenkins na palestra pra mostrar a sua visão de convergência: as coisas precisam fazer sentido, mas não serem idênticas…

Anúncios

4 pensamentos sobre “Pensando ConCulture #5: Jenkins no Maximídia

  1. Nesse Natal eu quero de presente um feed RSS de todo conteúdo do O ESQUEMA integrado, sem que eu tenha que consumí-los em embalagens diferentes. Afinal, qual a proposta de juntar tudo? Mas claro, que mantenham os feed individuais para quem assim prefere. Abraço.

  2. A única coisa que me incomoda na escola MIT de pensamento e n]ão dar os devidos créditos, falar como se tudo fosse idéia própria.
    Isso que o Jenkins coloca sobre os animes, que a pirataria criou a indústria e blá, blá, blá… é idéia que o Takashi Murakami publicou no seu manifesto Superflat. Vale a busca.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s