Oi, velocidade

Um dos clichês mais comuns que se ouve em elevadores e restaurantes a quilo é ouvir comentários sobre como “as coisas estão aceleradas”: o ano passa mais rápido, as crianças crescem mais rápido, os carros correm mais rápido, os computadores estão mais rápidos, os celulares ficam descartáveis mais rápido, as bandas surgem e somem mais rápido, as tendências brotam e se dissolvem mais rápido.

Pois é. Estamos correndo tanto que não é preciso nem mesmo correr para estar rápido. Mesmo quem está chapado na cama, vendo televisão e ouvindo vinil com um celular de 2005 que só manda e recebe mensagens, está correndo. Qualquer um que hoje fique parado no seu lugar está indo mais rápido do que seus antepassados recentes. Não tem jeito. Estamos dentro de um trem bala e ninguém ousaria puxar a cordinha do freio de emergência. Isso afetaria de modo irreversível o lançamento do próximo iPhone.

Existe uma série de explicações para esse fenômeno. Elas podem vir com o viés da economia, da tecnologia, da biologia, da física ou da história. Como eu não domino nenhuma dessas disciplinas e nem li Paul Virilio (considerado o filósofo da velocidade), tive que inventar minha própria tese.

A velocidade tonteia, mas também dá barato. Oferece uma sensação maior de suposta solidez dos nossos mundos interno e externo. É a vida feito flip-book: se continuarmos folheando rapidamente, poderemos ver nossa história se desenrolar. Se pararmos, só sobrarão desenhos estáticos em seqüência – uma série de fotogramas pintados à mão que, pausados, surgem com detalhes. Olhar esses detalhes é o ônus de estancar a velocidade. Mas é também o bônus. É possível enxergar os contornos, as pinceladas de cor, a textura do papel – veja você, se percebe até que havia papel envolvido na história.

É difícil tratar do assunto sem resvalar em um moralismo que leve à apologia da lentidão. A velocidade está aí e ponto final. Mas pelo menos, por uma questão de educação, a gente podia parar por um segundo, nem que seja pra olhar na cara dela e fazer o que não fizemos ainda: dar “oi”.

(clique nas imagens para obter os créditos)

***

Isso foi a coluna da +Soma número 6.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Oi, velocidade

  1. Pingback: Twitter Trackbacks for Oi, velocidade - Conector - OESQUEMA [oesquema.com.br] on Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s