Pensando ConCulture#8: a essência do transmedia storytelling

Tem um frase do Woody Allen que eu adoro “Fiz um curso de leitura rápida e li “Guerra e Paz” em vinte minutos. Fala sobre a Rússia.” Dito isto, Mr. Allen me libera pra eu tentar resumir o capítulo 3 do Convergence Culture em apenas uma frase pinçada do próprio livro:

“Devido ao fato dos personagens serem pessoas reais cujas vidas transcendem os limites da série, os espectadores ficam com a sensação de que existe mais pra ser descoberto a respeito deles, o que fornece um incentivo a buscar informação adicional em diversos canais de mídia”.

Este trecho é a essência do que me interessou no capítulo inteiro. “Buyin Into American Idol”, na verdade, tem a intenção de fornecer um mergulho em profundidade na estrutura do product placement (o que aqui chamamos de merchandising) do reality show americano. A série é considerada um divisor de águas nessa disciplina, com cases de integração de marcas e trama com tamanha sinergia a ponto de diversos consumidores mais críticos questionarem a ética de tais ações.

Porém, enquanto pesquisa a relação entre as conversas de cafezinho sobre American Idol e as marcas que o patrocinam, Jenkins vai dando na paralela informações valiosasas sobre outro assunto: como funciona uma boa história que quer transcender o seu meio de nascença ou seu principal meio de difusão – o hoje famoso (talvez amanhã não) transmedia storytelling.

American Idol foi um reality show esperto, que se utilizou de tudo que era necessário para alavancar a audiência. Não aboliu a importância da transmissão massiva em televisão aberta ao mesmo tempo em que passou a jogar com novos e fundamentais recursos, como a votação por mensagem de texto*, os fóruns online e os sites de compartilhamento de vídeo.

Apesar disso tudo, a verdadeira mídia do transmedia storytelling não é o celular, a web ou a TV, mas a fofoca. Vamos lembrar um trecho da introdução do livro, no qual o modelo de mídia da historiadora Lisa Gitelman é citada: “Em um primeiro nível, um meio é a tecnologia que permite a comunicação. Em um segundo nível, um meio é um apanhado de protocolos ou de práticas sociais que crescem em torno daquela tecnologia”. Nesse sentido, a conversa sobre a vida alheia é um dos protocolos mais fortes que surgiu em torno dos reality shows. E é também a verdadeira “cola” que mantém unidos os pedaços dos universos criados em diversas mídias. A fofoca, na verdade, não é conteúdo: é meio por onde o conteúdo viaja e se expande de forma exponencial. Não vai existir obra em transmedia que não tenha um forte componente de socialização.

Eu sempre gosto de pensar no exemplo das novelas brasileiras. Embora elas não sejam transmedia por excelência (cadê o perfil dos personagens no Orkut adicionando amigos no “mundo real”? por que os personagens de Malhação não entram no MSN? Quando o Agostinho Carrara vai ter um blog sobre suas histórias do táxi? Por que não recebo SMS da Donatela?), as novelas no Brasil alimentam todo um universo editorial fora da tela que movimenta uma quantidade incrível do que Douglas Rushkoff chama de “social currency”: moeda social, feita de “assuntos”, utilizada cotidianamente pelas pessoas para comprarem atenção umas das outras.

Bom, o capítulo 3 de Convergence Culture é muito maior e mais rico que essas minhas rápidas anotações. O que eu tentei aqui foi só sublinhar o que me parece ser o elemento das boas histórias nesses tempos de transmedia (desculpa de novo, mas é a palavra do momento, calma que passa): utilizar o conteúdo – e não só os meios – para oferecer material de diálogo às pessoas. Se funciona com as revistas de fofoca de novela e com toda a mitologia do jornalismo esportivo, vai funcionar também com outras formas de ficção como a publicidade.

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Um pensamento sobre “Pensando ConCulture#8: a essência do transmedia storytelling

  1. Boa, tem coisa pra explorar mesmo. Os caras da Polar, o que fazem? Tem família, irmãos esquisitos?
    Eu sempre ficava pensando, o Indiana Jones, voltando de suas aventuras, encarando as dificuldades profissionais, o ambiente acadêmico avesso às suas atividades extracurriculares. Acho que pode ajudar ao desenvolvimento da história. No ultimo Indi, quem viu e não achou muito esquisito aquele filho, aqueles papos com a ex-mulher? Se tivesse um ambiente paralelo às histórias, em que se seguisse acompanhando a vida diária do Professor Indiana, quem sabe? Teria gente pra escrever, teria gente pra ler, nada muito bombástico, mas a cauda longa do conteúdo tá aí…

    Uma outra coisa, o que aconteceria se um grande estúdio contratasse alguém para SER um personagem durante, digamos, 5 anos? Um fotógrafo aventureiro, um broker, alguém que surgisse como personagem de uma série, ou filme, mas que ,transmediamente, incorporasse na própria vida as características do personagem e que fôssemos acompanhando.
    E se fizer isso num período curto, um verão, por exemplo. Não existem verões inesquecíveis? Então, pega a intensidade de situações de um jovem no litoral brasileiro, do rs até a Bahia, e…É isso?

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