2008 pra 2009: o adeus do internauta

O ano de 2008 foi emblemático para a internet no Brasil (como serão os próximos dez) e os sintomas mais claros disso se refletiram em um meio bastante tradicional: a televisão. Nunca a internet como universo foi tão comentada nos telejornais e programas semanais da TV aberta, ainda (por enquanto…) um bom termômetro e principal referência quando se fala em comunicação de massa no país.

Em especial, o Fantástico fechou 2008 com aquele quadro das lan houses num esforço meio atrasado em relação a essa (não tão) nova cultura. Colocar a Regina Casé para apresentar as reportagens deixou claro o que está acontecendo. A apresentadora é reconhecidamente a emissária do canal aos confins “exóticos” da cultura popular, acumulando os papéis de tradutora engajada e peixe de fora curioso. Na busca por um suposto “internauta popular”, descobrimos a agonia da figura do “internauta”, aquele ser esquisito que vive para a tecnologia e cujo acesso a internet se dá apenas para acessar a internet. O que não foi dito é que o “internauta popular” – que acessa a rede exclusivamente em lan houses ou por conexão discada – também está com os dias contados. Mas por quê?

Porque, além do barateamento dos computadores promovido nos últimos dois anos à base de incentivo fiscal e crédito a rodo nas grandes redes de varejo, outro fator que precisa ser levado em consideração nesse processo é desesperada batalha das empresas de telecomunicação para vender seus combos de telefone fixo + banda larga ou telefone fixo + TV a cabo + banda larga e por aí vai. Em 2008, a NET lançou um desses pacotes por cerca de 39 reais, um pouco mais que 10% do salário mínimo. Por essas e por outras, o acesso à banda larga vem crescendo de forma consistente: em junho de 2008 havia 10 milhões desse tipo de acesso no país, um número 48% superior ao registrado no mesmo mês de 2007 segundo estudo encomendado pela Cisco Systems.

Assim, ainda que o orçamento familiar seja mais apertado durante 2009, a internet em 2008 se tornou um item básico que não só serve como apoio na educação dos filhos (um dos motivos mais citados em pesquisas populares) como também provê serviços e incrementa o acesso ao entretenimento. Pelo preço de duas ou três entradas de cinema, todos os filmes, músicas, games, seriados e notícias do mundo estão ali, ao alcance de qualquer um que tenha 50 reais mensais e um filho de 14 anos, este ser esfomeado e sem o menor compromisso com os protocolos tradicionais de direitos autorais. E tem mais: horas no MSN ou Orkut não custam quase nada comparado aos minutos ou SMS de celular.

Falando nele, o Orkut se firma como o SBT da internet brasileira: tosco, porém simpático e extremamente popular. A entrada do Facebook e do MySpace em território nacional não afetou em nada a notoriedade da rede social do Google. Pelo contrário, apenas acelerou a abertura da plataforma de aplicativos e seu conseqüente entranhamento na cultura brasileira. A vastidão de expressões sociais nas comunidades e perfis do Orkut não encontra paralelo em nenhuma outra mídia digital. Fotos reveladoras, perfis confessionais, comunidades bizarras, discografias completas, conversas irrelevantes, a profusão de aplicativos úteis e inúteis: é o termo “rede social” elevado à última potência por um país especialista em socializar. Orkut Büyükkökten não tem a noção exata disso, porque, de forma totalmente involuntária, se tornou o nosso Silvio Santos digital.

Enfim. A internet como assunto está deixando de se tornar pauta de tecnologia e lentamente passando para a retranca “Geral”. Então não estranhe se ao longo dos próximos anos, uma queda em uma rede de banda larga disputar espaço com notícias sobre falta de luz no jornal, digo, na comunidade do Orkut do bairro. E se no meio do caminho você tropeçar em um corpo, não tenha dúvidas: é o seu velho amigo, o conceito de “internauta”, estendido no chão sem vida.

***

O 2008 pra 2009 continua no Trabalho Sujo, Urbe e Mau Humor. Amanhã eu dou o link do próximo post.

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6 pensamentos sobre “2008 pra 2009: o adeus do internauta

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  3. Quando eu lançar meu livro de citações (a la Duailibi), juro que irei publicar a seguinte parte deste post “Orkut é o SBT da internet brasileira: tosco, porém simpático e extremamente popular”.

  4. Quando eu lançar meu livro de citações (a la Duailibi), juro que irei publicar a seguinte parte deste post “Orkut é o SBT da internet brasileira: tosco, porém simpático e extremamente popular”.

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