Fun Home

Alison é uma menina crescendo no interior da Pensilvânia, em uma cidadezinha conservadora. Seu pai, Bruce, professor de inglês, é apaixonado por Scott Fitzgerald, decoração e envolve os três filhos em tudo que diz respeito a cuidar da casa vitoriana, de pendurar cortinas e lustrar candelabros a cortar a grama e fechar janelas por causa de uma devastadora tempestade que se aproxima. A mãe, contrariada, não tem forças para intervir e se refugia em sua tese de mestrado bem como em sua carreira de atriz amadora de teatro. Bruce é distante. Dá mais atenção à reforma da casa do que aos filhos. Alison resigna-se e segue sua vida. Vai descobrindo-se lésbica. Ao saber, sua mãe conta que seu pai é gay. Pouco tempo depois, Bruce se suicida. Não que uma coisa tenha a ver com a outra.

Pensa bem. Bruce e Alison. Que prato incrível para um melodrama rasgado e previsível. Mas, para nossa sorte, não é o que acontece. Fun Home – Uma Tragédia em Família, desvia do dramalhão mexicano e se mostra um mergulho disciplinado e corajoso de Alison Bechdel nas águas profundas de suas relações familiares. A coragem da autora, cuja reputação vem da série de tiras lésbicas Dykes To Watch Out For, não se deve simplesmente por abrir publicamente suas feridas (com uma duvidosa anuência de sua mãe), mas sim da capacidade de explorá-las de forma dedicada e generosa, sem cair um quadrinho sequer no sarcasmo fácil ou na confissão pura e óbvia.

Durante sete anos, Bechdel trabalhou arduamente no projeto de seu álbum, revisitando seus antigos diários (alguns escritos em um período de transtorno obsessivo compulsivo), utilizando fotos de álbuns de família como referência para seus desenhos, confeccionando mapas geográficos para entendermos melhor a história, reproduzindo capas de jornais e cartas à mão e, acima de tudo, demonstrando uma empatia comovente para com a figura controversa de seu pai.

Em termos narrativos, Alison se valeu de um catatau de referências literárias (não gratuitas, mas devido às paixões intelectuais de família Bechdel) que vai de Marcel Proust a James Joyce. Entremeada de citações mas sem prejuízo para o espectador iletrado (grupo no qual me incluo), a rede de lembranças é explorada de forma não linear, com saltos para frente ou para trás que não trazem qualquer obstáculo à compreensão da história por um motivo muito simples: é assim que a nossa memória funciona.

Em termos visuais, Alison declaradamente se filia à tradição de Robert Crumb e Hergè (e eu ainda adiciono Will Eisner e também lembra o Laerte!), mestres em retratar quadros realistas com ares cartunescos, o que significa transpor a riqueza de detalhes do “mundo real” para traços firmes e de proporções levemente arredondadas. Uma escolha interessante, pois traz leveza e ingenuidade a uma história de contornos muitas vezes mórbidos. É irônico, porém bonito, que fique mais fácil enxergar a face humana dos personagens quando eles parecem ter saído de antigos desenhos animados.

No caminho disso tudo, ainda temos amostras incrivelmente ricas da cultura de classe média americana dos anos 60 e 70, tanto no âmbito interiorano como nos primeiros espasmos da cultura gay novaiorquina. É possível investigar cada quadrinho em busca de signos estéticos que numa passada de olho servem apenas para temperar a história.

Em resumo, Fun Home é uma maravilhosa história (uma experiência, na verdade) de reconstrução de identidade a partir da investigação de lembranças, sensações, sentimentos e pensamentos. Em grande parte das resenhas que você encontrar na internet, as memórias de Alison Bechdel são reduzidas à questão da homossexualidade, dela e de seu pai. Mas Fun Home transcende esse aspecto, mostrando-se um abrangente compêndio sobre os retorcidos laços que ligam as famílias e as reentrâncias que nem sempre precisam ser totalmente iluminadas para serem aceitas.

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