A mente & os protocolos da cultura digital (1)

Eu já tangenciei esse assunto duas vezes. Primeiro num post sobre uma entrevista do Contardo Calligaris e depois escrevendo sobre o livro dele também. Me sinto um poquito em dívida com a questão, então vou começar a explorá-lo de leve, mesmo não sabendo muito bem por onde seguir. Vamos partir do começo mais comum: conversas descompromissadas que eu tive com alguns amigos e parceiros de trocar idéia.

Um dos papos que me vem à cabeça rolou no ano passado, quando eu estava acompanhando o William em uma entrevista que ele estava dando para uma colega de mestrado. Não lembro bem o foco da tese dela, mas a entrevista consistia em tentar detectar nele as nuances de comportamento frente ao Facebook. Não apenas a edição mais conhecida que claramente fazemos, como selecionar bem as fotos, músicas, vídeos e os links ao construir e manter nosso perfil assim ou assado, mas também as escolhas que estão implícitas ao decidirmos fazer uma foto, ouvir um som ou ir a um determinado evento bem antes de adicionar isso ao nosso lifestream – por assim dizer.

Aí  brota um dos primeiros aspectos da influêcia da cultura digital em nosso comportamento: a quantidade imensa de material que temos que gerenciar. Seja produzida por nós (fotos de viagem, vídeos caseiros) ou não (mp3, filmes, seriados, games), essa quantidade absurda de produtos digitais vem fazendo do nosso “editor mental” um dos pilares mais marcantes da nossa identidade. Em outras palavras, estamos nos definindo menos pelo que ouvimos e compramos e fazemos, mas cada vez mais pelo “como” escolhemos e classificamos automaticamente nossas interações.

O ponto aqui é perceber, primeiro, como nossas metodologias implícitas de selecionar e organizar nossas interações digitais estão crescendo como parte da nossa personalidade. E, segundo e mais importante, como isso está determinando não somente padrões do nosso comportamento no ambiente digital, mas nosso comportamento como um todo.

Um exemplo bastante simples mas bastante significativo é o fato das pessoas como um todo estarem menos cuidadosas para tirar fotos. Há pouco tempo, as fotos de uma viagem precisavam caber em um determinado número de filmes – nem todo mundo podia arcar com dez filmes e ter 360 fotos de uma viagem de fim de semana e hoje qualquer um com uma câmera digital tosca tem 360 fotos de uma festa. Isso gera um comportamento mental diferente, uma relação de abundância e disponibilidade. No caso, é o device transferindo sua memória expandida (se comparando à câmera analógica) para o nosso jeito de pensar.

Da mesma forma como a memória da câmera expandida se mistura à nossa mente, uma série de outros aparelhos, softwares e suas interfaces estão exercendo uma influência bastante sutil mas muito poderosa sobre nosso olhar e nossas relações conosco, com os outros e com o mundo.

Algo que vou explorar no próximo post um pouco mais.

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14 pensamentos sobre “A mente & os protocolos da cultura digital (1)

  1. Cara, esse assunto de fazer mil fotos numa festa, o desleixo e abundância em fotografar… me fizeram pensar em abordar isso (desenvolvendo mais, claro) numa das minhas aulas de projeto em fotografia. Vamos falar sobre isso?

    Abs
    Raul.

  2. Cara, esse assunto de fazer mil fotos numa festa, o desleixo e abundância em fotografar… me fizeram pensar em abordar isso (desenvolvendo mais, claro) numa das minhas aulas de projeto em fotografia. Vamos falar sobre isso?

    Abs
    Raul.

  3. Este lance das fotos me impressiona, quanta informação gerada. E isto de alguma forma gera uma introspecção, ou mesmo uma ampliação do egoísmo ou egocentrismo, Pois com este monte de fotos cria-se uma espécie de muro onde só queremos ver e mostrar as nossas coisas, nossas visões, não temos saco de ver os tera bytes de informação dos outros.
    Penso também qual o impacto de um crash de disco, o que ocorre com a perda de milhões de informação, o ego vai por água abaixo ou inicia-se nova geração de material sem pensar no que foi perdido, afinal nunca esta geração teve tempo de ver, pois esta ocupada demais em gerar mais.

  4. Este lance das fotos me impressiona, quanta informação gerada. E isto de alguma forma gera uma introspecção, ou mesmo uma ampliação do egoísmo ou egocentrismo, Pois com este monte de fotos cria-se uma espécie de muro onde só queremos ver e mostrar as nossas coisas, nossas visões, não temos saco de ver os tera bytes de informação dos outros.
    Penso também qual o impacto de um crash de disco, o que ocorre com a perda de milhões de informação, o ego vai por água abaixo ou inicia-se nova geração de material sem pensar no que foi perdido, afinal nunca esta geração teve tempo de ver, pois esta ocupada demais em gerar mais.

  5. Cara, some a tudo isso outro fato: o resíduo digital que cada pessoa tem deixado. Tem gente com orkut desde os 6 anos. Esse é só um exemplo. Blogs, twitters, flickrs, etc, etc…
    Isso ta interferindo não só na maneira de selecionar as coisas. Mas na maneira como somos selecionados por quem nem imaginamos. Tenho certeza que pessoas tem sua rede social vasculhada não só por pretendentes ou ex-namoradas. Mas porra, por futuros chefes de trabalho, agentes de segurança e por ai vai…
    Os historiadores terão um puta trabalho daqui pra frente. De um lado tudo daqui pra frente esta registrado pra quem quiser ver. Mas até que ponto meu EU digital é meu EU analógico? Tenho certeza que no facebook eu sou mais bonito, legal ou talentoso.
    Estamos a um passo de fazer toda a sociedade a aceitar a esquizofrenia digital. Nome bonito ne?

  6. Cara, some a tudo isso outro fato: o resíduo digital que cada pessoa tem deixado. Tem gente com orkut desde os 6 anos. Esse é só um exemplo. Blogs, twitters, flickrs, etc, etc…
    Isso ta interferindo não só na maneira de selecionar as coisas. Mas na maneira como somos selecionados por quem nem imaginamos. Tenho certeza que pessoas tem sua rede social vasculhada não só por pretendentes ou ex-namoradas. Mas porra, por futuros chefes de trabalho, agentes de segurança e por ai vai…
    Os historiadores terão um puta trabalho daqui pra frente. De um lado tudo daqui pra frente esta registrado pra quem quiser ver. Mas até que ponto meu EU digital é meu EU analógico? Tenho certeza que no facebook eu sou mais bonito, legal ou talentoso.
    Estamos a um passo de fazer toda a sociedade a aceitar a esquizofrenia digital. Nome bonito ne?

  7. Peruche, uma questão: e as personalidades das quais temos relatos históricos, ou que conhecemos apenas por retratos pintados, será que eram exatamente daquela forma ou também “sofreram manipulação” para parecerem ser como gostariam de ser? acho que apenas as ferramentas são outras, potencializadas, mas voltadas para a mesma vontade humana de ser diferente do que é.

  8. Peruche, uma questão: e as personalidades das quais temos relatos históricos, ou que conhecemos apenas por retratos pintados, será que eram exatamente daquela forma ou também “sofreram manipulação” para parecerem ser como gostariam de ser? acho que apenas as ferramentas são outras, potencializadas, mas voltadas para a mesma vontade humana de ser diferente do que é.

  9. Mini, para mim, ao final do texto apenas uma palavra ficou piscando nas idéias: ciborgue. extensões do corpo para aumentar a capacidade humana. uma teoria antiga. mas é isso que são os gadgets. ou não?

  10. Mini, para mim, ao final do texto apenas uma palavra ficou piscando nas idéias: ciborgue. extensões do corpo para aumentar a capacidade humana. uma teoria antiga. mas é isso que são os gadgets. ou não?

  11. Raul: a gente é “migrante digital”. Entramos nessa onda pra falar com sotaque, não crescemo com isso. Embora eu tenda a pensar em desleixo, também acho importante a gente contrabalançar a nossa visão pra não cairmos num pensamento restritivo de tiozão. Sim, acho que vale um toque sobre seleção e edição. Mas também talvez a gente tenha o que aprender sobre relação com abundância. Eu fico nervoso com abundância de arquivos digitais e isso pode ser um obstáculo meu e não uma virtude. Acho que esse comentário vale também pro comentário do João.

    Peruche: na verdade acho que essa visão de “no Facebook sou mais bonito” também é visão de migrante digital. Quem cresce com essas coisas não vê a divisão entre on e off, vê o todo uma coisa só.

    Cris, acho que já nos tornamos ciborgues, já estamos integrados aos gadgets. Talvez de uma forma menos cool do que nos seriados, mas somos tão integrados com o celular quanto já o somos (há décadas) com os carros. Pensamos muita coisa em função da mente de motorista, ou seja, a interface do device carro já está dentro da nossa mente.

  12. Raul: a gente é “migrante digital”. Entramos nessa onda pra falar com sotaque, não crescemo com isso. Embora eu tenda a pensar em desleixo, também acho importante a gente contrabalançar a nossa visão pra não cairmos num pensamento restritivo de tiozão. Sim, acho que vale um toque sobre seleção e edição. Mas também talvez a gente tenha o que aprender sobre relação com abundância. Eu fico nervoso com abundância de arquivos digitais e isso pode ser um obstáculo meu e não uma virtude. Acho que esse comentário vale também pro comentário do João.

    Peruche: na verdade acho que essa visão de “no Facebook sou mais bonito” também é visão de migrante digital. Quem cresce com essas coisas não vê a divisão entre on e off, vê o todo uma coisa só.

    Cris, acho que já nos tornamos ciborgues, já estamos integrados aos gadgets. Talvez de uma forma menos cool do que nos seriados, mas somos tão integrados com o celular quanto já o somos (há décadas) com os carros. Pensamos muita coisa em função da mente de motorista, ou seja, a interface do device carro já está dentro da nossa mente.

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