Carta Aberta aos Anos 90

Queridos Anos 90

Já se vão aí quase dez anos desde a última vez que nos vimos. Lembro como se fosse ontem, nós dois sentados no meio fio de bermudão e camiseta do Chilli Peppers, bebendo vinho numa garrafa PET. Falamos mal de meio mundo, reclamamos bastante, conversamos sobre bandas desconhecidas e lembro que me passei no vinho. Dormi ali mesmo. E quando acordei, quase de manhã, você já tinha ido embora. Me deixou sozinho com uma garrafa PET vazia pra botar no lixo seco e uns CDs importados caríssimos do Green River e do Jesus Lizard pra devolver pra locadora.

Agora, sem mais nem menos, você me aparece de volta. Não nos encontramos ainda, mas sei que você anda por aí com seus amigos descolados em festas um pouco obscuras (bem como você gostava). Que ironia, agora elas são dedicadas inteiramente a você depois de tanta ciumeira e tanta falação por causa da atenção que seu irmão mais velho, anos 80, vinha recebendo. Outra coisa engraçada: agora você tem dinheiro pra ir a festas, quando na época ficava na rua, de fora dos shows, vivia pedindo pra entrar na lista – e agora todo mundo tem nome na lista, é só estar na comunidade do Orkut da festa.

O nome na “lista universal” é só uma das mudanças que você vai encontrar no seu retorno. Achei por bem avisar você que as coisas mudaram. Não que estejam muito diferentes, apenas se tornaram mais democráticas. As roupas que você usava, o som que você ouvia e os maneirismos cinematográficos que você curtia junto com um grupo seleto de chatos agora são de domínio universal. Camisetas de banda e de filmes, tão raras e caras naqueles tempos, hoje proliferam pela internet e até as lojas de departamento tem suas coleções voltadas ao rock. Você não pode reclamar: o mundo atual foi feito à sua imagem e semelhança. O indie venceu, muito embora só poderemos verificar as reais extensões desse fenômeno daqui umas cinco décadas.

Falando em internet, essa é outra que está bem diferente. Era uma garotinha tímida, reservada e meio lenta na época. Você não a reconheceria se a visse na rua: toda empiriquitada, cheia de penduricalhos e amiga de todo mundo. Conversa com todos, não dispensa ninguém, virou referência pra uma série de assuntos. Ser falado por ela agora tem mais poder do que ser falado pela “grande mídia”, que você tanto detestava. Pronto, pode parar de detestar, não tem mais serventia essa sua revolta. A internet resolveu essa sua implicância também. Ah, mais uma coisa: a internet perdeu aquele hábito irritante de interromper a conversa dos outros no meio, sempre caindo, aquela instável.

Preciso avisar você de outra coisa: as pessoas agora se misturam. Não é mais aquela coisa de cada um pro seu lado. Mais do que isso, as festas com pessoas misturadas tocam músicas misturadas também. Não só misturadas no mesmo set, mas na mesma música! Portanto, não estranhe se você encontrar no mesmo iPod (um tipo de walkman bem mais prático e com menos graves) Maria Bethânia, Racionais, Stones e Klaxons. Ah, você precisa conhecer os Klaxons. Eles inventaram um rótulo chamado New Rave, mas sobre isso precisamos conversar pessoalmente porque o assunto é complexo e de certa forma envolve até o Adriano que era do Butchers (tô falando que é complexo). Só fica um aviso: se você encontrar um flyer por aí falando de raves, não vá, não é o que você está pensando!

Meu, eu tenho tanta coisa pra contar, mas vou ficar por aqui porque senão a gente vira a noite nas reminiscências. Só quero avisar uma coisa a você: cuidado com essas festinhas e escolha bem as companhias pra andar a partir de agora. No início tudo parece bonito e maravilhoso, rever os amigos num clima de revival é sempre bom. Mas mais dia menos dia você vai acabar estressado correndo pra cima e pra baixo envolvido com gente mal intencionada e entretendo marmanjos mal resolvidos. E dado seu histórico com alguns dos seus amigos célebres da época, tipo o Cobain, acho que você não daria um bom terapeuta. Cuidado.

Abraços

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19 pensamentos sobre “Carta Aberta aos Anos 90

  1. Genial. Outro noite dessas, já na hora de ir embora de uns desses clubes da Rua Augusta, tocou Nirvana- Love Buzz e L7- Monster. Fiquei pensando se, com essa volta aos 90, não vou começar a ficar com bode disso tudo. Pensei que se fosse naquele época, como era, eu sairia pulando pro meio da roda rs Hoje, acho que fico com ciúmes, isso sim.

  2. Ótimo texto.

    Eu que sou mais amigo dos 80 entendo bem esta relação com as décadas. Os 80 pareci am mais primavera/verão – apesar do “darkismo”, já os 90 estavam para outono/inverno.
    Os 00 culturalmente ainda não captei, ta mais para o meio é a mensagem do que para o conteúdo.

  3. Mini, grande texto aliás grande não, ótimo. Sexta estava na Garibaldi me lembrando do antigo Elo que também morava por ali, grande lugar, belo final de anos 90.
    Clássico é no Juno quando o cara tenta convencer a Juno que os anos 90 foram muito melhores que os 70 e etc, concordo em genero, nro e grau.
    grande abraço.

  4. Pingback: Un poco más de Nueva York - Trabalho Sujo - OESQUEMA

  5. Excelente o texto. Me fez ver que não estou só ao achar que o revival aos 90’s já chegou – assim como o dos anos 80 chegou no final da década passada. Só não vejo nada de errado nisso, é o rumo natural. Meus últimos posts têm falado sobre isso, inclusive a festa “Insanos 90” que levou mais de 600 pessoas para a boate, aqui em Belém.

    Se der, chega lá: http://cartasuruguaias.blogspot.com/

  6. Mini, deveria ser usado nas aulas de redação pro pessoal entender como se faz um texto onde o leitor se identifica de cara. vou dar a sugestão poraqui. té.

  7. Muito bom, Mini. Pena que agora que a moda dos 90 parece ter pego de vez, a Back to the 90’s (festinha aqui do Rio que rola há anos só com músicas da época) esteja cada vez mais rara.

  8. Muito bem mandado.

    E, puxando a sardinha pra minha década, uma turnê caça-níqueis do Faith No More me parece um tanto mais empolgante que uma reunião do…. deixa eu ver…. Kon Kan?

  9. Pingback: Uma Noite de Amor e Música (Nick and Norah’s Infinite Playlist, 2008)

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