Woody Allen em Porto Alegre

A Zero Hora cometeu um de seus gauchismos mais interessantes no último sábado. Três páginas do Segundo Caderno foram dedicadas a imaginar como seria um filme do Woody Allen se ele viesse filmar aqui. É sabido que ultimamente o diretor novaiorquino vem produzindo em cidades como Londres ou Barcelona graças ao incentivo de produtores ou governos desses locais. Por isso, o diretor, roteirista e ex-Replicantes Carlos Gerbase, a escritora Cinthia Moscovitch e a escritora Claudia Tajes foram convidados pelo nosso querido jornal local a dar sua versão portoalegrense do fato. É só clicar nos nomes que a internet te leva pros respectivos textos.

Eu, de minha parte, passei o fim de semana pensando, então, em como seria o meu filme do Woody Allen em Porto Alegre. Seria assim…

Noah Flemming é um escritor novaiorquino em fim de carreira. Seus livros raivosos e libertários foram quitutes valorizados nos anos 70 e até a metade dos anos 80. Mas, a partir daí, tudo que ele produziu se tornou irrelevante. Diferente de seu público habitual, Flemming não amadureceu e manteve a mesma verve adolescente até os 60 anos. Por mais 20 anos não houve problema, pois ele nunca deu grande peso à bajulação do público e os direitos autorais de seus livros e das adaptações (teatro, cinema, TV) sustentaram sua rotina simples (acordar, escrever, passear, beber, jantar fora, assistir TV e dormir com muitas mulheres).

Mas quando os contratos começaram a expirar, o escritor se viu com uma série de dívidas incrementadas com as pensões de suas três ex-mulheres. A saída foi aceitar todo e qualquer bico que surgisse, fosse de escritor ou não. Uma das fontes de remuneração mais consistentes de Flemming era a doação sistemática de esperma a um banco de um laboratório que ficava feliz em pagar um bônus extra pelos espermatozóides de um intelectual renomado ainda que semi-esquecido. Dessa forma, a vida seguia com algumas dificuldades mas sem grandes sobressaltos.

Problema mesmo foi quando ele descobriu em um médico que uma série de ataques depressivos que vinha lhe acometendo tinham uma origem clara: seus orgasmos. Cada vez que atingia o orgasmo, fosse na cama com uma de suas frequentes companhias, fosse na doação de esperma, Flemming sofria uma severa depressão aguda que durava exatas 24 horas. Para um homem que vivia psicologicamente e financeiramente de ejaculações, a vida começava a se tornar um pequeno inferno.

Sem poder abrir mão do dinheiro do laboratório e com medo de perder suas companheiras, Flemming passou a viver um dia deprimente atrás do outo enquanto buscava uma solução. Nenhum médico de nenhuma área oficial ou alternativa foi de ajuda. Contrariando toda sua mentalidade cética, a resposta veio em um documentário sobre a Amazônia que passou de madrugada na TV e que mostrava um curandeiro capaz de resolver qualquer problema sexual com a baba de sapo. Descrente porém desesperado, Noah Flemming, intelectual que nunca havia tirado os pés de Manhattan, comprou um pacote turístico (incluindo trechos locais pela VARIG) que o levaria até a floresta amazônica pra resolver o único obstáculo intransponível da sua vida.

Foi uma viagem triste. Primeiro porque Flemming tivera que deixar porções extra de esperma no laboratório para poder bancá-la. Segundo, porque quando chegou em Guarulhos, a VARIG estava às portas de falir. Na confusão, uma atendente trocou por engano sua passagem para Porto Velho por uma para Porto Alegre. Dezoito horas depois de sair do aeroporto Kennedy, Flemming desembarcou em uma cidade fria, úmida e sem nenhum traço de floresta por perto. Que espécie de Brasil era aquele?

Ele não entendeu nada. Foi reclamar no balcão da Varig, mas a companhia praticamente não existia mais. Um atendente compreensivo lhe arrumou um voucher para ele passar uns dias em Porto Alegre até que conseguisse que lhe mandassem pra Porto Velho. Desesperado, sem falar português, pegou um táxi para o Sheraton, no Moinhos de Vento (bairro de classe média alta que flutua entre o agradável e o pretensioso). Se a língua e o destino errado preocupavam Flemming, ao menos algo lhe fazia bem: sem precisar doar esperma e encontrar suas namoradas, ele não precisava ejacular nem atender às ligações de suas ex-mulheres.

À medida em que os dias passavam, enquanto ele esperava uma solução da Varig, ele tinha seus dias mais tranquilos e felizes em um bom tempo. Nos primeiros dias, apenas passeou a pé pelas imediações do hotel, conhecendo belas praças, olhando as lindas mulheres e tomando café enquanto fingia ler jornais em português. Depois, se aventurou pelo Museu Iberê Camargo. No terceiro dia, até aceitou a sugestão da concierge e foi a uma churrascaria, onde pôde experimentar um pouco da selvageria brasileira com aquele monte de carne espetada sendo trazida de forma intensa à mesa. Talvez, pensava, não precisava mesmo de baba de sapo de curandeiro, mas simplesmente um pouco de férias e de excessos latinos.

A tranquilidade foi interrompida por um encontro casual no corredor do hotel. Ao ajudar uma mulher a abrir a porta do seu quarto, Flemming se viu atraído por uma conterrânea. A dra. Amy Fitzpatrick se apresentou como uma cardiologista novaiorquina participando de um trabalho no Instituto do Coração por tempo indeterminado. Estava ficando o primeiro mês no hotel, mas depois iria para um apartamento alugado por uma fundação e ficara feliz de encontrar alguém da sua cidade. À noite, os dois jantaram no Bar do Beto (outra sugestão da concierge), beberam uma cerveja que só tem no Rio Grande do Sul e resolveram caminhar na beira do Parque da Redenção às dez da noite, como gostavam de fazer no Central Park individualmente quando estavam na sua cidade. Quase foram roubados, não fosse a intervenção de um vendedor de cachorro quente que os advertiu minutos antes de serem abordados por assaltantes.

Já no hotel, Flemming resistiu bravamente às insistentes propostas de Amy para que os dois dormissem juntos. Sentindo-se solitária e sendo bastante ativa sexualmente, desde o jantar ela começara a fazer insinuações, mas com medo de cair novamente em depressão, ele se fez de salame e conseguiu escapar por pouco. No entanto, havia se afeiçoado por ela. Na semana seguinte, os dois passaram todo o tempo livre de Amy juntos. Conheceram a Zona Sul de Porto Alegre e visitaram o centro em um fim de semana. Foram ao Theatro São Pedro e comeram no Mercado Público. Pediram bauru por tele-entrega no hotel uma noite e em outra passearem pela Cidade Baixa (os dois tinham isso em comum, adoravam caminhar) e acabaram a noite tomando Polar e comendo xis no Cavanha’s. Nessa noite, bêbado no Cavanha’s, Flemming revelou sua história a Amy. Contou de seu problema e por que vinha resistinto às investidas da amiga, apesar de estar bastante interessado. Chocada, ela comentou com ele que sua pesquisa versava justamente sobre os efeitos do orgasmo no coração. Bêbado, ele acreditou e aceitou se submeter a um exame no Instituto do Coração.

No dia seguinte, tomado por uma ressaca portoalegrense, Flemming correu vinte minutos em uma esteira do Instituto do Coração e quase morreu. Passou o dia no hospital dormindo e no fim da tarde recebeu a notícia de Amy: seu problema havia sido resolvido com o desentupimento voluntário de uma artéria. Ela mostrou rapidamente os exames a ele, que não entendeu nada, mas ficou tão feliz que pulou da cama e a convidou de volta para o hotel, o que ela aceitou prontamente.

Na manhã seguinte, após uma noite de amor, Flemming acordou receoso. Abriu primeiro um olho, depois o outro. Olhou para Amy ao seu lado na cama e depois para o próprio corpo. Abriu uma fresta na janela e viu que o dia estava nublado, cinza. Ainda assim, sentia-se bem. Achou o cinza inspirador e a chuva que se anunciava como um bom sinal. Estava curado.

Antes de acordar, ainda percebeu uma folha dobrada que havia sido empurrada por baixo da porta do quarto. Era um bilhete da recepção, avisando que a companhia aérea havia resolvido a questão de sua passagem e que ele podia partir para Porto Velho no mesmo dia. Olhou para Amy e olhou para a carta em suas mãos.

Corta para dois meses adiante.

Amy e Flemming estão caminhando na beira do Rio Guaíba, olhando o Pôr-do-Sol com o Gazômetro às costas. Crianças brincam ao redor e Flemming está com cara de surpreso olhando para Amy. Fala de forma nervosa:

“Quer dizer que aquele exame era de outra pessoa? Nunca houve nada de errado comigo? Você simulou aquele teste? Os relaxantes musculares, tudo aquilo… você me manipulou? Eu não posso acreditar como caí nessa. Você vê a ironia disso tudo? Eu deixei de ir à Amazônia me consultar com um curandeiro duvidoso pra me colocar nas mãos de uma cientista e você…. você…. Amy… você é incrível…”

Os dois se abraçam com o Pôr-do-Sol às costas e o filme termina.

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13 pensamentos sobre “Woody Allen em Porto Alegre

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