O brasileiro e as novas mídias

Há pouco cheguei da Federasul onde rolou um debate sobre aquele bom e velho assunto: novas mídias, elas vieram pra ficar? Bem, não cabe aqui estender as questões do debate. Acho que todos aqui já sabemos que não dá mais ficar questionando novidade pra bancar o cowboy e nem abraçando novidade pra bancar o cowboy, mas sim oferecer algumas respostas práticas e bastante pontuais pra quem precisa resolver o que fazer com o seu orçamento de marketing de uma vez por todas. As generalizações, nesse caso, depõem contra tudo e contra todos.

Uma coisa que eu fiquei pensando no pós-debate é a quantidade delas, as generalizações, que somos meio que obrigados a fazer para tratar o assunto nesses âmbitos. Não é má intenção ou ignorância de ninguém. É realmente uma necessidade para se estabelecer certos diálogos. E aí, dê-lhe “o brasileiro está mais na internet”, ou “o brasileiro gosta muito de celular” ou então “o brasileiro passa mais tempo no Orkut que o resto do mundo” e por aí vai. Eu também falo essas coisas às vezes, não vou me fazer de louco.

Isso me remete direto àquelas matérias do Fantástico ou do Jornal Nacional que vão pela mesma linha: o “brasileiro está comendo mais feijão” ou “o brasileiro está comprando mais” ou “o brasileiro está pagando mais à vista” ou “o brasileiro está tomando mais remédio pra dormir” e por aí vai. Sempre que essas matérias passam, eu me pergunto: quem será esse brasileiro? Onde ele mora? Será que existe UM cara, o brasileiro, que a Globo vai lá e entrevista pra saber? O brasileiro um dia resolveu comprar DOIS sacos de feijão em vez de um, só porque vai ter feijoada, e o noticiário dá: “BRASILEIRO COMPRA MAIS FEIJÃO”. Deve ser um saco ser esse cara, porque ele não pode espirrar que lá vem: “BRASILEIRO ESPIRRA MAIS”.

Existem outras figuras míticas planificadas. A classe C (só pra você saber, a Classe C está acessando mais a internet, comprando mais e andando de avião), o jovem (multiconectado, assiste TV enquanto está no MSN e ouve iPod), a mulher moderna (multitarefa, desempenha diversos papéis, como mãe, executiva e esposa) e por aí vai…

Bom, quando o assunto é novas mídias, é a mesma coisa. Pra efeito de debate, falamos do novo consumidor, que “está no poder”, que “gera conteúdo”, que consome múltiplos meios, mas a grande verdade, a verdade verdadosa, é que não existe esse novo consumidor. Não existe UM novo consumidor que faz as coisas de UM jeito, mas talvez algumas dezenas de formas como as pessoas estão montando (perceba o gerúndio, é um processo em andamento) a sua forma de consumir mídia e de se relacionar com marcas.

Aí também me lembro de um trecho do Convergence Culture do Henry Jenkins no qual ele fala daquela antiga fantasia da caixinha mágica. Lembra disso? Há anos que se vem buscando um gadget universal onde as pessoas vão poder ler emails, ver filmes, fazer ligações, jogar, guardar receitas, etc, etc, etc. Não é mentira que essas caixinhas mágicas vem surgindo, cada vez mais baratas e incríveis, mas também precisamos admitir, como diz o Jenkins, que a maior parte das pessoas tem umas cinco caixinhas ao seu redor (celular, computador, DVD, console de game, som) e que a preferência por UMA caixinha é uma questão mais de comportamento individual (pessoas que gostam de UMA caixinha) do que de solução tecnológica (conseguimos enfiar tudo dentro de uma caixinha!!!). As pessoas, no geral, não estão atrás de UMA caixinha, mas montando sua coleção de caixinhas de acordo com o que precisam.

Enfim… a real a real, que poucos gostam de admitir, é que não podemos falar do novo consumidor. Não existe o novo consumidor. O novo consumidor é uma figura de linguagem. E figura de linguagem não paga contas. Pra quem acha isso um problema, não é preciso se preocupar. Se não existe o novo consumidor, existem inúmeras ferramentas (tecnológicas E conceituais) pra você olhar para a massa disforme e  sem identidade e tirar soluções viáveis, rentáveis e úteis para todos (agências, marca e consumidores).

De qualquer forma, fica a pergunta: será que o publicitário está generalizando mais?

Anúncios

9 pensamentos sobre “O brasileiro e as novas mídias

  1. Eu acho que generalizar é só o velho hábito humano de tentar rotular as novidades para melhor entendê-las. E também, o velho hábito de tentar embalar o peixe para melhor vendê-lo. (Nos dois casos, são facilitadores e compreensão e discurso.) Existem três ou quatro tipos (espécies) de bacalhau, mas a grande maioria das pessoas pensa que compra sempre o mesmo bacalhau.

  2. Eu acho que generalizar é só o velho hábito humano de tentar rotular as novidades para melhor entendê-las. E também, o velho hábito de tentar embalar o peixe para melhor vendê-lo. (Nos dois casos, são facilitadores e compreensão e discurso.) Existem três ou quatro tipos (espécies) de bacalhau, mas a grande maioria das pessoas pensa que compra sempre o mesmo bacalhau.

  3. Tudo se resume em saber filtrar. É bom haver rótulos para nos guiar, de certa forma acaba sendo válido isso. O ruim é pegar este tipo de generalização e tomar como um dogma.

    Mas que tem gente surtando com Twitter + Blogs + Orkut + Facebook + etc… Isso tem.

  4. Pingback: Singularidades e complexidades | ernestodiniz.com

  5. Pingback: Singularidades e complexidades | ernestodiniz.com

  6. Muito bom seu texto. Essas generalizações são realmente cansativas e não passam, muitas vezes, da repetição de um discurso que foi, um dia, novo. As pessoas parecem só reproduzir, sem contudo, identificar novas possibilidades dentro do cenário dado.

  7. Muito bom seu texto. Essas generalizações são realmente cansativas e não passam, muitas vezes, da repetição de um discurso que foi, um dia, novo. As pessoas parecem só reproduzir, sem contudo, identificar novas possibilidades dentro do cenário dado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s