Cosmos

Quando João estava alinhado com o cosmos, haviam lhe dito, tudo funcionava. Se ele não tinha dinheiro, aparecia. Ou desaparecia a preocupação que o perrengue gerava. Por isso, João pegou uns reais e foi até a casa de um amigo comprar o DVD do Cosmos que ele tinha. O pai do cara gravou todos os episódios. A voz do Sérgio Chapelein retumbava nas paredes de ótima acústica das lembranças de infância de João. Ele precisava daquilo.

“Quanto você quer no DVD?”
“Não vendo. Tá louco, João.”
“Então me faz uma cópia.”
“Não posso. Prometi ao meu pai no leito de morte.”

Quem viu muito Cosmos fala coisas como “no leito de morte”.

“Deixa de ser mané. Me faz uma cópia.”
“Não posso, já te disse. Qualé, João.”
“Qualé, nada. Não te custa. Te dou uma cimitarra.”
“Cimitarra o cacete. Fiz uma promessa. Promessa é dívida.”

Já “Promessa é dívida.” não tinha nada a ver com excesso de Cosmos.

“Tá, meu. Sujou na minha. Era isso, tchau.”
“Ô, João, não fica assim. Volta aqui. Deixa eu ver a cimitarra.”
“Deixa quieto.”

E João se foi. Pegou o ônibus circular e sem querer acompanhou a órbita de um satélite na trecosfera, muitos quilômetros acima da sua cabeça. O centro do satélite coincidia com o seu chacra coronário, aquele que fica no topo do crânio. Mas só por sete paradas. Depois disso, João desceu na frente do shopping e o satélite seguiu seu curso. Chinês, o satélite.

Os satélites chineses foram criados no início da década para controlar o tempo. Dezesseis foram lançados e nenhum deles cumpriu direito sua função. Pelo menos era o que diziam os jornais ocidentais. As autoridades de olhos puxados e pele levemente amarelada contavam outra versão. Diziam que os aparelhos funcionavam sim, pô, só que o pensamento ocidental não entendia a lógica deles. Um dia, um satélite chinês caiu sobre setenta vacas no Quênia. Fica difícil entender a lógica oriental desse jeito.

Mas João sacava isso tudo quando estava alinhado com o cosmos. Por isso, queria tanto o DVD.

“Ah, que se desfaça aquele DVD…”

Contornou o shopping e se embrenhou no mato. Lá, em certo ponto, o chacra coronário dele e o centro do satélite voltaram a se encontrar por breves instantes. Nesse ponto da história o bosque cai, derramando a paisagem em um barranco íngreme. Além, só uma cerca, vaquinhas, coxilhas e o sol se pondo. João sentou na ponta do barranco e ficou olhando a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo.

Respirou aquilo tudo, trouxe junto com o ar pra dentro dele. E veio junto a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo, entrando pelo nariz, percorrendo a traquéia, chegando aos pulmões, enolvendo os brônquios e inebriando o cérebro. João vangloriou-se, sentiu-se vivo e feliz por ter a oportunidade de sentar uns minutos ali e apenas estar calmo daquele jeito. Daí expirou e, para sua surpresa, a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo não foram embora de dentro dele. Cabreiro, inspirou novamente e, dessa vez, pareceu vir apenas ar. A cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo continuaram lá, adiante. Mas a sensação boa, cerquícea, vaquícea, coxilhícea e solstícia permanecia dentro dele.

Na falta de algo mais elaborado, só conseguia pensar em palavrões de satisfação. Então levantou, largou a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo e foi viver sua vida. Uma vaquinha mugiu ao
longe. A cimitarra ficou na grama, abandonada.

***

Cosmos saiu na Mais Soma #12. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.

Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

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2 pensamentos sobre “Cosmos

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