Multiplicando o olhar do outro

Pois então. Alguém me mandou esse texto do Russel Davies na Wired.

Na primeira metade do artigo, ele compara a internet com a visão do espelho do hotel (hotel bom, né) quando você se posta em frente a ele cansado de uma longa viagem: a soma daquela luzarada toda e daquele espelho enorme resultam em uma ridícula cara de pastel murcho que apanhou consideravelmente de algumas conexões, horas em aeroportos ou turnos na poltrona apertada. O espelho do hotel (hotel bom, né) depois de uma longa viagem, em suma, não mente de forma alguma.

Igualmente, diz Davies, a internet. E, no artigo, envereda por uma argumentação interessante que envolve algumas descobertas constrangedoras que podem nos acontecer na relação com meios digitais. Por exemplo: você toma todo o cuidado do mundo pra selecionar fotos e ângulos pro seu perfil no Orkut ou Facebook e um dia aparece uma foto sua todo troncho às duas da manhã no churrasco da firma no perfil de outra pessoa. E você é tagueado e foi-se por água abaixo sua inconsciente tentativa de branding pessoal lá no seu perfil. Outra. Você constrói seu Mii (seu avatar no Wii) tendo o poder de colocar o tamanho da barriga que quiser, mas então compra um Wii Fit, que calcula sua massa corporal e, sem o menor pudor, CORRIGE a sua circunferência de acordo com os cálculos do Fit. É a transparência das mídias digitais ultrapassando a furada cultura do Photoshop mental.

Apesar de não conhecer profundamente essa história, sei que a visualização mais ou menos decente de uma auto-imagem em larga escala é um fato recente para a humanidade. O protótipo do espelho moderno, feito com vidro, é do século 16, criado em Veneza, cidade famosa por sua expertise nessa área. É dessa época, portanto, o surgimento de uma visão mais acurada que uma pessoa poderia ter dela mesma, sem as tantas distorções que os espelhos anteriores promoviam, já que eram feitos de metais polidos. Ainda devemos considerar que demorou mais um bocado para que um simples espelho não fosse um artigo de luxo e não ficasse restrito à elite fedorenta (literalmente) do momento.

Talvez o passo seguinte na auto-visualização tenha sido a fotografia, que deu as caras na sua forma moderna no século 19, mas que só se popularizou de fato no século 20. Se formos falar de imagem em movimento, gravação em filme ou vídeo, também vamos falar de fenômenos recentes e extremamente restritos. Nem todo mundo teve grana para adquirir uma 16 milímetros ou mesmo uma câmera de VHS, equipamentos custosos, de manuseio peculiar, dedicada aos apaixonados por cinema, vídeo ou pais de família altamente interessados nesse tipo de registro, do tipo que faz coleção de fitas das férias.

Em outras palavras: como espécie, o ser humano não tem uma vasta experiência em se enxergar. Não somos exatamente especialistas nisso, certo?

Ok, vamos adiante.

De repente, vem o computador pessoal, as câmeras digitais em dez vezes de 35 pitombas e os celulares com câmera de grátez. E, na esteira, o Orkut e o YouTube. Pronto. Surge a hiper-auto-visualização. Não só nos enxergamos mais, como nos enxergamos em diversos ângulos, em movimento, com correção de cor, efeitos ou não, em diversos tamanhos de tela e as mais variadas resoluções (numa ironia cíclica, estamos nos vendo muitas vezes em pixels, como talvez as primeiras pessoas se viram em espelhos de metais polidos).

Quer queiramos ou não, na última década começamos a nos enxergar bem mais, ao menos quantitativamente falando. Como consequência, a intimidade com as câmeras (um termo até recentemente reservado às celebridades) e com a auto-visualização se espalharam de forma endêmica, sendo imposta aos que nasceram antes dos anos 80 e acolhida como protocolo do momento por quem nasceu depois.

À profusão de meios de produção de imagem (câmeras) somamos a multiplicação de meios de difusão (internet, celular, canais de televisão etc). E assim estamos exercendo uma das matemáticas mais interessantes dos últimos séculos ao multiplicar brutalmente o olhar do outro sobre nós.

Sim, porque se olhar no espelho (ou na vitrine ou na telinha) nada mais é do que simular o olhar de outrém, primeiro sobre nossa forma (corpo, roupas, trejeitos) e mais profundamente sobre nossos pensamentos, opiniões e crenças. Não tenho muito a contribuir para falar desse tema (o olhar do outro), porque realmente não pensei muito no assunto.

Só queria levar o texto até aqui e passar uma marca-texto sobre o fato de que estamos multiplicando o olhar do outro sobre nós, queiramos ou não, seja isso parte da nossa contemporaneidade ou não, achemos isso excessivo ou não. E ressaltar, também, que dessa forma talvez todas aquelas fantasias ou metáforas a respeito de estados políticos ou empresas com complexo de Big Brother, que tudo observam e tudo controlam, passam a se dissolver nos bilhões de “brothers” que habitam o planeta junto com a gente. Sem querer, somos nossos próprios big brothers. E aí dá pra relaxar. Não é preciso mais achar um único, onipotente e grande irmão culpado de nos observar. Talvez ele esteja deitado na cama ao nosso lado, talvez seja nosso vizinho de porta ou talvez ele seja aquele rosto levemente familiar no espelho.

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2 pensamentos sobre “Multiplicando o olhar do outro

  1. Sim, nós somos nosso único big brother (na concepção que tu citou). Não somos nada sem o outro, mas o outro não é nada para nós a não ser um espelho. Inalcansável.

  2. texto muito lúcido, Mini.
    isso é, sim, sintoma/resultado da sociedade contemporânea, pós, hiper-moderna…whatever.
    as facilidades tecnológicas/Internet permitem que cada um de nós seja um “canal” (de divulgação de infos, de exposição pessoal etc), o que potencializa uma cultura narcisita. e especialmente na Internet, hoje, nós só existimos pelo olhar do outro.As redes sociais são a prova disso porque quantificam quem somos pelo númerode “amigos”, followers, contatos etc.
    Não avalio isto de forma negativa porque as pessoas, de alguma forma, estão interagindo e mantendo laços sociais, como coloca Maffesoli.
    sem delongas, abração.

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