É possível controlar o esquecimento?

Matéria no Link dessa semana levanta uma lebre interessantíssima: fica mais difícl esquecer em tempos de hiper-documentação digital? O jornalista Rafael Cabral conversou com especialistas e entusiastas do assunto pra encontrar correntes diferentes de pensamento.

O professor de Harvard (perceba que ao escrever DE HARVARD, eu deixo o post mais sério e crível) Viktor Mayer-Schönberger acredita que nossas informações não devem ser eternas, mas que a web dificulta o controle delas. Então, segundo o professor, precisamos criar mecanismos que possam apagar automaticamente o que não queremos ver eternizado, como se fixássemos prazos de validade para nossos traços digitais. Já o pesquisador da Microsoft Gordon Bell parece meio fanático por traduzir sua vida em dados e registros, postulando que o esquecimento é um bug do cérebro (ou da mente) e que se todos nós soubéssemos das nossas recordações em minúcias, nos conheceríamos melhor, seríamos pessoas melhores.

Embora eu seja mais simpático à fala de Mayer-Schönberger, acredito que ambas as linhas de pensamento se baseiam em um terreno frágil: a noção de que os meios digitais permitem que controlemos melhor a nossa vida.

No caso de Gordon Bell, a busca pelas rédeas é bastante extrema, parecendo ser baseada em inputs de informação exata. “Nesses oito anos, os dados apontam que ele visitou 221.173 sites, escreveu 156.041 textos, falou 2 mil vezes ao telefone e ouviu 7.139 músicas. Para gravar tudo o que faz, o pesquisador usa scanner, câmera, gravador, GPS, contador de passos, smartphone e um leitor eletrônico.” diz a matéria do Estadão. A meu ver, isso soa como uma espécie de politeísmo matemático e um tremendo de um reducionismo. Ignora-se a mais elementar regra da consolidação de informações: talvez mais importante que os dados em si é a forma como eles são processados. Em Blink, o Malcom Gladwell, do jeito dele, já deu a barbada de que mais informação nem sempre quer dizer mais compreensão. Pode significar simplesmente mais informação.

No caso de Mayer-Schönberger, fala-se de estipular prazo de validade para determinadas memórias. Isso, novamente, cria padrões exatos para processos que na mente não acontecem de forma tão cartesiana assim. Você pode até escolher quando uma foto sua vai sumir de vez da internet, mas não tem controle sobre quando aquele momento vai sumir da memória das outras pessoas presentes na cena e muito menos um controle absoluto sobre quando aquela cena vai sumir da sua memória.

Escrevo isso pensando se não estou falando bobagem, mas curti o que a matéria levantou. Embora muitos gostem de desprezar alguns protocolos da cultura digital, comparando com hábitos prévios (isso já existia, só que de outro jeito), a verdade é que estamos vivendo um momento de mudança profunda em uma série de práticas sociais que estão impactando não apenas a forma como lembramos, mas como estamos construindo as nossas lembranças.

De certo, até o momento, apenas sabemos que todas essas questões se originam na mente de cada um de nós, é ela que cria, é ela que absorve. Podemos, então, explorar os confins do mundo externo e criar também infinitos métodos de controle, armazenagem e classificação para nossas manifestações digitais. Mas o cerne do problema reside na mente e só vamos resolver isso olhando pra ela, pra dentro, conhecendo intimamente esse software ainda bastante inexplorado, ainda pouquíssimo conhecido da maioria.

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A ver com esse post: o trabalho de Katerina Seda que comentei num texto sobre a exposição Younger Than Jesus.

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