O underground da espiritualidade

Caminho espiritual é um assunto complicado. Pra começar, é um pouco como a noção de “bom senso”: cada um tem o seu. Em segundo lugar, muita gente tem aversão a termos como “caminho espiritual” ou “espiritualidade” porque lembram de péssimas experiências religiosas de infância, geralmente mais ligadas a protocolos sociais do que propriamente a uma busca sua, genuína e de coração. E, por último, falar de caminho espiritual também traz junto conceitos difusos e errôneos como passividade lacônica (“hoje não fiz nada o dia todo, fiquei bem zen”), idealismo ingênuo ou relações bastante superficiais com coisas como maconha e ácidos meia boca.

Pra efeito de você ir adiante nesse post, vamos tentar fazer um acordo que vale ao menos aqui no Conector: caminho espiritual não é aquela missa de domingo que você ia quando criança e nem tampouco as lajotas se liquefazendo depois que você tomou aquele AC no carnaval. Também não vale aquela discussão sobre Matrix ou aquela super ficha que caiu quando você resolveu TODOS seu problemas depois de ficar olhando o mar de cima do Morro da Guarita em Torres por duas horas.

O caminho espiritual de que vou falar aqui, combinemos, tá mais pra 1) quando a gente procura resolver nossas questões mais profundas olhando pra dentro e não pra fora, e 2) faz isso de forma mais ou menos constante, como parte do dia-a-dia e não apenas como uma experiência de fim de semana ou como um tipo de férias da vida comum.

Bom, se você mais ou menos concorda com esse postulado e o acha simpático, vamos lá: é sobre isso que fala Jack Kornfield em “Depois do Êxstase, Lave a Roupa Suja”. Reconhecido professor de meditação nos Estados Unidos, Kornfield entrevistou dezenas de outros mestres e contemplativos do budismo, hinduísmo, judaísmo, sufismo e outros ismos pra falar dos descaminhos, acostamentos, desvios, obstáculos, enfim, do “Lado B” da busca pelo fio da meada da mente e do coração humanos.

São cerca de 250 páginas com centenas de depoimentos costurados pelo texto simples e direto de Kornfield. Grande parte das histórias traz revelações íntimas, algumas pesadas, como problemas com a família, períodos de vida depressivos, cisões em comunidades espirituais, desprezo ao corpo, entre tantos quebra-molas que aparecem e que, como os relatos insistem em ratificar, devem ser trazidos para o caminho em vez de serem tratados como anomalias. Parágrafo após parágrafo, essa parece brotar como a grande mensagem de “Depois do Êxtase…”: o caminho espiritual é um caminho de inclusão dos obstáculos, de desenvolver a habilidade de lidar, dançar com eles e não de eliminá-los. Como diz Kornfield a certa altura, “não existe aposentadoria iluminada”.

A busca por respostas internas, segundo vários depoimentos, pode até passar por experiências de êxtase ou de transcendência (seja lá o que isso significa). Mas ficar preso a uma dessas experiências, sublinha-se repetidamente, pode trazer mais apego e mais dificuldades em vez da tão almejada liberdade. Na essência dos caminhos espirituais genuínos está uma mente aberta e inclusiva. Diz um mestre entrevistado:

“Sob vários aspectos, a transformação espiritual das décadas passadas é diferente do que eu havia imaginado. Sou ainda a mesma pessoa esquisita, com o mesmo estilo e maneira de ser. Por fora, não sou aquela pessoa incrivelmente transformada e iluminada que eu queria ser. Mas por dentro a transformação é grande. (…) Minha vida era como uma garagem entulhada, onde eu ficava trombando com os móveis e me julgando. E agora parece que eu mudei para um hangar que está sempre com as portas abertas. Tenho as mesmas coisas, mas elas não me limitam mais como antes.”

Essas não são apenas idéias de religiosos. Além de pessoas ligadas a caminhos espirituais formais, Konrfield se vale de constantes citações de outros buscadores, como escritores (Walt Withman, Alice Walker, Rainer Maria Rilke, TS Elliot), ativistas (Martin Luther King, As Mães da Praça de Maio) e outras referências célebres (Anne Frank, Carl Sagan, Joseh Campbell). O mosaico pode parecer indigesto e um tanto quanto new age, mas funciona para abrir um pouco o escopo de experiências e mostrar que, por mais diferentes que sejam as trilhas, os calos nos pés são comuns a todos os caminhantes. Não existe ninguém especial. Todos são especiais.

Conclusão da história: o mundano e o espiritual não são excludentes. E, provavelmente, talvez não sejam nem mesmo duas coisas separadas. Ou, como diz o poeta beat, pai e professor zen Gary Snider:

“Todos nós aprendemos com o mesmo professor – a realidade… pôr as crianças na perua escolar todas as manhãs é tão difícil quanto cantar os sutras no salão do Buda nas manhãs frias. Uma coisa não é melhor que a outra, as duas podem ser aborrecidas e ambas têm a virtuosa qualidade da repetição. A repetição e seus bons resultados transformam as atividades da vida no caminho.”

***

Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey, da biografia da monja inglesa Tenzin Palmo e das memórias do ex-monge búlgaro Nikolai Grozni.

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7 pensamentos sobre “O underground da espiritualidade

  1. Sou um leitor recente dos seus textos. E justamente estas abordagens que me interessaram. E só sei dizer uma coisa, é um assunto inquietante. Por mais que se tente abandonar, ele não nos abandona.
    Talvez não abandone, justamente por isso mesmo. Nossa rotina diária é nossa diária aprendizagem

  2. Valeu, Gustavo.
    Gosto muito de todos os textos espiritualistas que vc posta aqui.
    Quando puder, dê uma olhada nos livros Sabedoria Radical, de Wes Scoop Nisker, e Tratado do Desespero e da Beatitude, do Sponville. Este último tô lendo agora, é filosofia ocidental e com muita referência à oriental. Acho que muita questão sobre o “ser e não ser” ficou bem explicado. Folheia lá. Vai parecer ridículo isso, mas lê sobre átomo no wikipédia e lê entre as pags 45 e 49 do livro =)

  3. Comprei dois desses livros que você sugeriu, Gustavo. Depois do Êxtase, que não chegou, e Turtle Feet, que estou adorando. O tema, por si só, já é interessante. Mas o texto do Grozni ajuda muito, não? Muito bem escrito, o livrinho. O trecho do ônibus lotado, quando ele ele estabelece aquela relação algo esdrúxula entre o médico das hemorróidas e o ritual de cremação foi uma das coisas mais cômicas (e belas) que eu já li nos últimos tempos. Quanto ao tema mesmo, também me interesso por essa relação conflituosa entre oriente e ocidente. Gosto de gente que conseguiu se embrenhar justo no meio do caminho entre esses dois extremos. Tem um trecho em que o Grozni fala, em outras palavras, que o mal dos ocidentais é levar tudo muito a sério. Parece óbvio, falando assim. Mas faz um puta sentido. Adorei, enfim. Pena que o Street Zen está esgotado (pelo menos na Cultura). Fiquei interessadão nesse também. Abraços.

  4. Bela, talvez na Amazon você encontro o Street Zen. Vale muito a pena ir atrás!

    O texto do Grozni eu acho que às vezes é ótimo (como na cena que você descreveu), mas tem umas passagens que eu achei meio longas. Mas, no frigir dos ovos, eu curti o livro!

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