Vida Artificial

Você deve ter lido ou ouvido a gritaria semana retrasada: o geneticista americano Craig Venter “criou vida artificial” ao produzir em laboratório o genoma de uma bactéria e depois fazendo ele funcionar dentro de uma outra bactéria pela primeira vez na história. Com isso, ele estabeleceu as bases de um futuro repleto de possibilidades, não apenas para a biologia mas também para o cinema de ação e os protestos católicos.

Duas coisas me chamaram a atenção no auê todo que se criou em torno desse marco da genética. A primeira é até natural nos tempos em que vivemos: a chamada dos noticiários nos induzia a tomar o potencial do feito pelo feito. A mensagem que ficava, especialmente se você assistia às reportagens da TV, a era a de que um cientista havia de fato criado vida totalmente sintética em laboratório. Só que lá no meio de algumas reportagens de revistas, mas muuuuuito discretamente, vinha alguns esclarecimentos a respeito das limitações do “ato divino”.

Por exemplo, não é que Venter tenha criado os genes de um DNA. Ele na verdade usou genes produzidos por laboratórios especializados nisso, uma atividade que existe desde os anos 70. Em segundo lugar, ele não inventou a sequência do nada, mas replicou a codificação do DNA já existente de uma bactéria. O grande feito de Venter, na verdade, foi conseguir sintetizar essa sequência de forma perfeita e inseri-la em um outro organismo vivo pra que ela funcionasse como DNA, permitindo a replicação celular. Então… bem… não é que não tenha sido um grande movimento pra genética, mas daí pra tingir a história com cores bíblicas é um pouco demais. Vocês vão me desculpar, mas uma coisa é injetar DNA sintético numa bactéria e outra bem diferente é criar vida. E não sou eu que estou dizendo isso.

O segundo ponto que passou meio despercebido no meio do tumulto foi o conceito de vida que está sendo vendido com esse tipo de abordagem. É verdade que até hoje pouca gente veio com respostas práticas satisfatórias, mas pensa bem: desde quando “vida” se resume à organização de ácidos? Como assim um cientista criou vida artificial mexendo uns genominhas? Empresas burocratas vem criando vida artificial há muitas décadas e com muito sucesso!

Não é preciso acreditar em alma ou em Deus pra questionar o conceito utilitarista de “vida” que se passa adiante quando se divulga a sintetização de DNA dessa forma. O conceito de vida é algo muito mais amplo e complexo e se, não fosse assim, o mundo seria muito mais livre de complicações, bem como de poesia e arte. Todo mundo querendo fugir de vida sintética, vida copiada, e o cara se vangloria de criar vida sintética… vai entender…

Não sei quantas pessoas realmente param pra pensar no peso que tem a palavra “vida” quando vem agregada de tanto papo científico. Não que a vida não tenha seu lado científico, matemático, biológico e genético. Mas se a gente vai deixar essa visão dominar o conceito de vida, vamos arrumar ainda mais complicação no lado não genético, não biológico, não matemático dela. Entende?

Bom, eu sei que acabei levando a conversa pra outro lado. Mas é isso aí, genética. Bem vinda ao papo de boteco. Daqui pra frente é só ladeira abaixo. Mas não se assuste. Qualquer dúvida, converse com o futebol. Ele tem décadas de prática pra instruir você em como se portar nessa nova situação.

Anúncios

10 pensamentos sobre “Vida Artificial

  1. Vida, no sentido filosófico da palavra, nao pode ser criada. Ela resulta entre tantas outras coisa, de um acúmulo de experiências e é algo que vai muito além do método científico. Dito isso, é importante lembrarmos da força do contexto. Quando estamos lendo uma notícia como essa, sobre o feito do Craig Venter, não podemos exigir que a palavra vida vá além daquilo que o método científico define como vida. Assim como quando ouvimos o sermão de um padre, ou uma dissertação filosófica, não podemos interpretar a palavra vida como referindo-se a um organismo vivo simplesmente.
    Sobre o fato em si, se o cara criou vida ou não criou vida, deixo para os cientistas determinarem. Acho que foi um passo, um avanço. E é assim que a ciência funciona, um passo por vez. A mídia aumentou, maquiou, distorceu e o deixou a coisa mais extraordinária e apelativa. Grande novidade.

  2. Vida, no sentido filosófico da palavra, nao pode ser criada. Ela resulta entre tantas outras coisa, de um acúmulo de experiências e é algo que vai muito além do método científico. Dito isso, é importante lembrarmos da força do contexto. Quando estamos lendo uma notícia como essa, sobre o feito do Craig Venter, não podemos exigir que a palavra vida vá além daquilo que o método científico define como vida. Assim como quando ouvimos o sermão de um padre, ou uma dissertação filosófica, não podemos interpretar a palavra vida como referindo-se a um organismo vivo simplesmente.
    Sobre o fato em si, se o cara criou vida ou não criou vida, deixo para os cientistas determinarem. Acho que foi um passo, um avanço. E é assim que a ciência funciona, um passo por vez. A mídia aumentou, maquiou, distorceu e o deixou a coisa mais extraordinária e apelativa. Grande novidade.

  3. Esse texto é bom para esclarecer o que realmente aconteceu, com certeza, principalmente para pessoas que não são da área. Afinal no artigo publicado na Science não há nada sobre “vida artificial”. Mas na hora que começou a escrever sobre Dawkins não foi mais legal.
    Aquela visão de vida não tem nada a ver com Dawkins ou seus “apóstolos”. Eles também não acham que a vida se resume a DNA.
    A verdade é simplesmente que a mídia exagerou demais e resolveu dar uma visão sensacionalista à coisa.
    Além disso o experimento foi feito em uma bactéria. Não tem nada a ver com leveduras (fungos).
    Não me interprete mal, eu adoro ler esse tipo de coisa. É sempre bom para exercitar a minha capacidade de defender argumentos assim como aprender novos pontos de vista.

  4. Esse texto é bom para esclarecer o que realmente aconteceu, com certeza, principalmente para pessoas que não são da área. Afinal no artigo publicado na Science não há nada sobre “vida artificial”. Mas na hora que começou a escrever sobre Dawkins não foi mais legal.
    Aquela visão de vida não tem nada a ver com Dawkins ou seus “apóstolos”. Eles também não acham que a vida se resume a DNA.
    A verdade é simplesmente que a mídia exagerou demais e resolveu dar uma visão sensacionalista à coisa.
    Além disso o experimento foi feito em uma bactéria. Não tem nada a ver com leveduras (fungos).
    Não me interprete mal, eu adoro ler esse tipo de coisa. É sempre bom para exercitar a minha capacidade de defender argumentos assim como aprender novos pontos de vista.

  5. Luisa, você tem razão. No fim das contas, eu é que exagerei com o termo dos apóstolos de Dawkins. Tanto que reescrevi e o retirei do post.

    Quando à questão da levedura, também faltou um esclarecimento maior. As leveduras foram usadas em um estágio intermediário na construção do DNA final, que, sim acabou sendo inserido em uma bactéria.

    Valeu pelo comentário que me fez corrigir isso.

  6. Luisa, você tem razão. No fim das contas, eu é que exagerei com o termo dos apóstolos de Dawkins. Tanto que reescrevi e o retirei do post.

    Quando à questão da levedura, também faltou um esclarecimento maior. As leveduras foram usadas em um estágio intermediário na construção do DNA final, que, sim acabou sendo inserido em uma bactéria.

    Valeu pelo comentário que me fez corrigir isso.

  7. Sinceramente nao acredito que alguem conseguira clonar um dia um ser humano com as mesmas caracteristicas , sem mudar absolutamente nada , o jeito que fomos criados , somente o criador sera capaz de criar

  8. Sinceramente nao acredito que alguem conseguira clonar um dia um ser humano com as mesmas caracteristicas , sem mudar absolutamente nada , o jeito que fomos criados , somente o criador sera capaz de criar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s