Dedos

Lendo as notícias sobre o avanço dos jogos controlados com movimentos corporais na E3 e um post do Tiago Dória sobre uma nova interface de celular que dispensa o toque, percebi que os aparelhos digitais estão entrando em um novo ciclo e se afastando de suas raízes mais primitivas: os dedos. Ágeis, versáteis e sempre disponíveis por estarem ligados a uma parte do corpo que não sabemos onde colocar (as mãos), os dedos foram as estrelas da comunicação entre homens e máquinas durante décadas e agora parecem ganhar um pouco de descanso.

Lembrando: a palavra digital vem do latim digitus ou dedo, a parte do corpo que foi usada por centenas (milhares?) de anos pra fazer cálculos com quantidades finitas, como os números, também conhecidos como… dígitos. Digital, então, é um termo que surgiu com um viés matemático e migrou pra tecnologia porque todo hardware precisa de um software pra funcionar e todos os cálculos que sustentam a estrutura de um software usam essas quantidades discretas, não-contínuas, os dígitos. Por mais estranho que possa parecer, os dedos e a cultura digital estão intimamente ligados.

Numa perspectiva histórica, os dedos passaram de objetos de conta, a essência dos computadores, a periféricos humanos. Nessa segunda fase, eles permitiram que nossos corpos e as máquinas conversassem através da a intermediação dos teclados. Com o tempo, essa intermediação ficou mais sofisticada graças à introdução do mouse, dos dispositivos biométricos (aqueles que reconhecem nossas digitais) e, mais recentemente, com as telas touch. De uma forma ou outra, nossos dedos trabalharam duro e nunca foram reconhecidos de fato. Eles carregaram nas costas durante muito tempo a responsabilidade da conexão homem-máquina – enquanto o cérebro levava todo o crédito.

Talvez seja hora mesmo dos dedos gozarem um merecido descanso. Depois de tanta labuta, primeiro intelectual, fazendo contas, depois braçal, teclando furiosamente, os dedos finalmente vão poder se recostar em pequenas cadeirinhas de praia, tomando caipirinha e rindo das cenas ridículas que vamos protagonizar em frente aos sensores de movimento.

Dedos: muito obrigado por tudo. E aproveitem o espetáculo que está pra começar.

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2 pensamentos sobre “Dedos

  1. talvez tenham alguns paradigmas de interface e essa tá sendo a brincandeira, muitas vezes nem significa eficiencia mas sim graca em brincar de dar scroll dando tchau. Concordo que vai ser um bom espetaculo… ou tirando a ironia: simplesmente se meu neto usar melhor o passa-a-mao-que-funciona e me deixar pra tras catando milho, estarei velho; também é uma opção, mas prefiro a ironia.

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