A Origem

O termo blockbuster tem uma linhagem curiosa. Segundo a Wikipedia, ele foi usado originalmente pra descrever um tipo de bomba usada pela Força Aérea Real britânica e capaz de destruir de uma só vez um quarteirão inteiro – um “block”. No mesmo verbete da Wikipedia, também é citado o uso para peças teatrais tão bem sucedidas que ofuscavam as atrações dos outros teatros do quarteirão. Finalmente, no meio do século passado, o termo começou a ser utilizado pra descrever filmes de bilheteria fora do comum, como E o Vento Levou ou e Ben Hur.

Mas aí, em 1975, o Tubarão do Steven Spielberg chegou ao público americano extrapolando não só a tela como as paredes dos cinemas. O filme é considerado o precursor do uso atual do termo blockbuster porque não se restringiu a fazer números espetaculares em dólares e público, mas também pela sua influência na estética e narrativa cinematográficas e também no marketing. Depois de Tubarão, muita coisa foi diferente.

Com o tempo, o termo blockbuster voltou a ser usado pra produções dotadas simplesmente de números grandiosos, com ênfase em orçamento, arrecadação, efeitos especiais e investimento de marketing. Talvez um dos piores representantes do gênero nos últimos anos tenha sido a franquia Transformers, que traduz bem seus investimentos em lucros, mas não tanto em influência na cultura pop. Um Transformers é diferente de uma franquia Matrix, por exemplo, na medida em que pouco adiciona ao cinema e à cultura pop que não seja dinheiro e ruído (não só sonoro, mas também estético).

A Origem, felizmente, pertence à categoria dos blockbusters que tem o que dizer e o que deixar pra todos nós. O filme parte de premissas metafísicas e filosóficas pra chegar onde boa parte do cinema americano gosta: na porrada e na correria. Mas o resultado de tanto sangue e suor não cai no vácuo ao colaborar para o resgate de um cinema de ação que respeita o cérebro da audiência e usa o cérebro do diretor. Anote aí: as sequências de ação e a temática de A Origem terão uma influência pesada na cultura pop nos próximos anos. Talvez não tanto quanto Matrix teve, mas eu cheguei a pensar nisso.

Caso você não saiba, A Origem conta a jornada de um ladrão de segredos que atua no inconsciente de suas vítimas. Seus contratantes são magnatas, o objeto dos roubos são segredos industriais e o palco da maior parte da ação são os sonhos dos personagens. Fosse um filme realmente indie (como talvez se esperasse desse tema nas mãos desse diretor) teríamos duas horas e meia de planos longos, muita conversa e profundos questionamentos existenciais. Como estamos falando de um futuro Tela Quente, trata-se de uma viagem vertiginosa mais próxima dos cerebrais filmes de ação de Paul Greengrass (como os dois últimos da franquia Bourne).

Se partirmos da sua premissa filosófica, A Origem soa como um filme pretensioso, mas é justamente a sua despretensão que funciona para nos deixar alguns legados. O primeiro é assinar embaixo da possibilidade do cinema de ação ser executado por cineastas meio fora da casinha e fazer sucesso. Ponto para Christopher Nolan. Segundo uma entrevista com o ator Joseh Gordon Levitt, o sucesso de The Dark Knight deu carta branca a Nolan pra que ele construísse A Origem do jeito que queria. E em vez de enveredar por um filme mais direcionado a audiências específicas como é Memento, o diretor conseguiu ser ainda mais pop do que em The Dark Knight, que é uma experiência sufocante e em certa medida quase deprimente.

É irônico: The Dark Knight é um filme pesado disfarçado de blockbuster de quadrinhos enquanto que A Origem é quase um filme de quadrinhos disfarçado de filme de ação supostamente metafísico. Está tudo lá: um protagonista meio anti-herói, uma equipe de renegados que é apresentada de forma clássica, cada um com seu contexto, papel no grupo e seu poder. Não falta nem o uniforme, porque embora os personagens não usem nada colante ou constrangedor, cada um tem seu figurino muito bem definido dentro das regras do cinema de ação dos últimos 20 anos – muito terno, muito blaser, muito preto, muito gel.

Em segundo lugar, A Origem bate o martelo definitivamente no uso do inconsciente ou da mente humana como palco de ação hollywoodiano. O tema não é novo. O Matias está compilando uma série de cenas de filmes que vem fazendo isso há décadas (não perca o especial de Origem no Trabalho Sujo) e não é difícil vermos o assunto sendo explorado pelo cinema indie nos últimos anos (pra ficar nos mais óbvios, vamos de Quero Ser John Malkovich, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança e Sinedoque Nova Yorque). Mas é em A Origem que o questionamento da natureza da realidade de forma visual (e não verbal ou reflexiva) ganha sua roupagem mais pop e abrangente no cinema contemporâneo, inclusive pelo viés de um filme de ação.

Resumo da história: nada como botar um blockbuster de ação nas mãos de um diretor fora da casinha que está tomando seus remedinhos. Todos – público, estúdios, cultura pop – ganhamos com isso.

***

Pra complementar, duas notas rápidas.

A Origem é um filme que fala muito sobre a cultura belicista americana. Olha só. Os caras descobrem um jeito de entrar em sonhos, navegar no inconsciente das pessoas e, pelo que aparece no filme, o único jeito de fazer isso não é com papo, com magia ou com malandragem. É com tiro, porrada e perseguição. Pra tu ver.

Outra coisa: esse papo todo de diretor com olhar bizarro que mete a mão em blockbuster me lembrou o Sam Raimi com os Homem Aranha. No segundo filme, o cara parece que não tomou seus remedinhos num dia e enfiou uma sequência de mais de dois minutos de horro dentro de um filme supostamente família. Raimi sendo Raimi dentro do Homem Aranha. Assim eu gosto.

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2 pensamentos sobre “A Origem

  1. Olá Ana, não sei se esta ativa ainda, mas seu post sobre o Panamá é muito interessante, gostaria de entrar em contato com vc para pedir-lhe algumas dicas.

  2. OI boa noite estarei indo esse mês a Cuba e ficarei dois dias no Panamá.
    Sabe me dizer se existe loja da oakley, em algum shopping no Panamá?

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