Emoção Art.ficial 5.0

Semana passada estive na Bienal de Arte e Tecnologia no Itaú Cultural. A mostra, imperdível pra paulistas e turistas, vai até dia 5 de setembro e tem uma vantagem curiosa em relação a outras seleções do gênero: ela é enxuta e equilibrada. A arte digital é um campo vasto, que pode ser coberto na verdade pela intersecção de muitos segmentos (vídeoarte, robótica, intervenções urbanas, performance, bioarte, inteligência artificial, etc) onde a exata (ou propositalmente inexata) definição das fronteiras fica a cargo de cada curadoria.

O recorte pelo viés da emoção, no caso da Bienal do Itaú Cultural, é duplamente sacana. Primeiro, porque investe em uma dualidade fácil. No léxico popular, tecnologia é uma coisa “fria”, em contraste com as iniciativas “mais humanas”, que são “quentes”. Essa idéia está tão entranhada no nosso sistema de pensamento que chegamos a recortar uma parte do conhecimento e tacar-lhe um rótulo de “ciências humanas”, como se todo o resto acontecesse à nossa revelia.

No andar da carruagem, essa divisão chegou ao século XX transferindo pra todo e qualquer aparelho eletrônico a responsabilidade de carregar o lado frio e calculista dos habitantes do planeta Terra. Mas, no fundo, tudo aquilo que é feito de chips e telas acabou se transformando num dos melhores espelhos do que a humanidade tem de mais… humano. Explorações arqueológicas futuras nos atuais celulares vão corroborar facilmente esse ponto de vista.

Mas, se falar de emoção ao transitar no ambiente da tecnologia é meio que apertar o botão da polêmica fácil, também não deixa de ser uma escolha inteligente pra uma mostra que (espero) pretende ampliar o alcance de arte digital. Nesse ponto, a Emoção Art.ficial 5.0 equilibra bem obras interativas pop e de fácil acesso (como um robô que escaneia sua face e a desenha) com projetos bem mais conceituais.

Vou me focar aqui em três obras que pendem para o primeiro caso, mas que tem conteúdo suficiente pra render um mergulho mais profundo. O mainstream que se enraiza nos nichos mais bizarros – eis o que me interessa.

Vamos começar pelo Hysterical Machines, instalação do pesquisador Bill Vorn que espalha essas estruturas robóticas com formas levemente aracnídeas de maneira que você possa caminhar tranqüilamente entre elas. Quer dizer, tranquilamente em termos, porque assim que você chega perto das “criaturas”, sensores de movimento identificam sua presença e disparam reações espasmódicas e barulhentas. O conjunto funciona como um lembrete: máquinas, a princípio, não têm medo, não têm como ser histéricas. Mas podem, isso sim, emular o comportamento humano, devolver a nós, com uma performance externa, os nossos sentimentos e sensações mais espalhafatosos.

Andar no meio das Hysterical Machines é passear em um cenário de suspense, paranóia e reatividade. O fato disso acontecer através de objetos mecânicos e não com uma turba humana soa como mera arbitrariedade estética, um código dos nossos tempos.

Já os vídeos do Virtual Creatures Evolution são aparentemente mais discretos, menos físicos do que a maior parte das obras do Emoção Art.ficial. Mas nem por isso são menos impactantes. O projeto do Karl Sims, na verdade, não são os vídeos, mas sim o desenvolvimento de “animais virtuais” com formatos básicos de computação gráfica (blocos, principalmente) e habilidades rudimentares como pular, seguir um ponto, competir ou nadar. Esses rebanhos são criados e colocados em um ambiente digital às centenas, pra que lutem pela sua sobrevivência. Os mais fortes ou mais adaptáveis sobrevivem e passam linhas de código à geração seguinte, mais esperta e mais propensa à sobrevivência. Reconhece o script? Nem vou comentar esse daqui. O vídeo fala por si.

(Uma curiosidade: o Karl Sims é o criador da Gen Arts, empresa que desenvolveu softwares de efeitos especiais usados por grandes produções hollywoodianas. )

Outra obra bacana é o Robotarium do português Leonel Moura. Neste pequeno viveiro, cinco robozinhos se dedicam única e exclusivamente a exercer suas funções “naturais”: um é especialista em girar ao redor do próprio corpo, um segundo passa o tempo todo evitando os outros robôs através de sensores e por aí vai. O Leonel Moura entende do assunto: o Robotarium no Itau Cultural é uma versão pocket do Robotarium X, zôo de robôs que abriga mais de 40 robôs em grande parte movidos a energia solar.

Mais uma vez, o ponto aqui é construção de seres cibernéticos servindo de depósito pra um dos grandes dilemas filosóficos humanos: o que diabos eu tô fazendo aqui? Os robôs do Robotarium são organismos simples, de hábitos e objetivos mais simples ainda. E, diferente das criaturas do Karl Sims, não tem nem mesmo a possibilidade de evoluir. Levam uma vida pacata e relativamente harmônica, sem grandes ameaças ou entraves, mas também estão presos na tarefa de fazer o que foram criados pra fazer e ponto final. E aí? E nós?

Pois é, pois é. Visitando Emoção Art.ficiais com os olhos bem abertos, é possível perceber claramente que esse papo de frieza e exatidão que colaram na palavra tecnologia é fruto de um conceito torto que vem lesando a nossa percepção ao longo de mais de um século. E que reflete, no fundo, uma das características mais humanas que existem: o medo de olhar no espelho.

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Como eu falei, a Bienal vai até 5 de setembro. A relação completa das obras e o serviço você encontra no site oficial.

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As duas fotos do post foram solenemente roubadas do blog da Regina Azevedo.

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2 pensamentos sobre “Emoção Art.ficial 5.0

  1. eu fui e achei fantástico. bem melhor que o FILE, que estava rolando na mesma época. obras de arte tão inteligentes quanto interativas. Só faltou falar do braço mecânico que tirava uma foto sua e fazia seu retrato com uma caneta projetor. evento sensacional.

  2. eu fui e achei fantástico. bem melhor que o FILE, que estava rolando na mesma época. obras de arte tão inteligentes quanto interativas. Só faltou falar do braço mecânico que tirava uma foto sua e fazia seu retrato com uma caneta projetor. evento sensacional.

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