Paul em Poa

Histórico, lendário, imperdível, arrebatador, incendiário, encontro de gerações… os clichês abundam em tempos de Paul McCartney em Porto Alegre, mas tudo é desculpável porque, vamos combinar, ele foi um dos que inventou todos esses clichês. Não só os clichês que a gente usa até hoje pra descrever fenômenos pop, mas também clichês que nós usamos à exaustão (sem exauri-los) pra nos divertir, pra nos confortar, pra nos entender e até pra fazer negócios.

O impacto do show de Paul McCartney em Porto Alegre vai muito além dos corações acelerados dos fãs mais exaltados e também transcende as inúmeras expressões materiais de carinho e gratidão (tanto as pessoais quanto as institucionais) que o ex-Beatle (existe ex-Beatle??) recebeu. Na verdade, à medida em que o show vai ficando pra trás na memória, lentamente, tenho cada vez mais certeza: não nos é possível entender o impacto e todas suas ramificações que um show desses tem uma cidade como Porto Alegre.

Não se trata aqui de veneração cega ou de atribuição de deidade a uma pessoa tão especial. Na verdade, vamos contextualizar: até sexta-feira eu nem ia no show. Mongol que sou, achei que não seria uma perda tão grande, ninguém morre por não ir a um show. Mas, como os ingressos começaram a pipocar na internet nos últimos dias, intuitivamente acabei comprando o meu e evitei a tempo a falta grave.

Não é preciso chover no molhado quanto aos predicados do show: o set list bem equilibrado, a banda incrível e o homem fazendo jus à lenda. Por isso,  vou me focar em escrever um pouco sobre outros aspectos que não estão sendo comentados com tanta intensidade. A começar pela desmistificação da lenda.

Não que Paul, como eu disse, não faça jus à aura mística que se cria em torno dele (lembrem-se que até morto ele esteve), mas é curioso ver que em três horas de show ele leva o público às alturas com os dois pés bem fincados no chão. O rock é um companheiro tinhoso: mexe com você, desestrutura, mas ao mesmo tempo pode colocar as pessoas num transe fantasioso de eterna adolescência, numa acomodação velada. O que se viu ontem, pelo contrário, foi um espetáculo que contém com todas as nuances dessa eterna contradição, o encontro da energia primal com a maturidade e seus resultados impressionantes.

Do domínio da energia primal, vimos um senhor de seus 68 anos tocar durante 3 horas sem pestanejar, sem tomar um gole d’água (até o bis, pelo menos, conforme prometido ao Zeca Camargo…), sem falhar a voz. Engana-se quem pensa que essa é uma característica dos deuses. Ela é dos homens, especialmente dos homens que encaram palcos há mais de 50 anos e que começaram a vida de trabalhador do pop batendo ponto em exaustivas jornadas de trabalho nos bares de Hamburgo.

Talvez dessa verve de operário do entretenimento também venha de uma profunda compreensão das suas responsabilidades e papéis. Paul não resmungou, não fez discurso político, não fingiu ser o messias nem se dobrou ao peso da sua majestade. Em cima do palco, mais uma vez, estava o  homem, ladeado por uma estrutura financeira e física de milhões de dólares e guarnecido por um repertório de inigualável apelo. Ele fez, então, o que mandava sua responsabilidade e não sua vontade (embora talvez as duas se mesclem): divertiu o público, fez todo mundo cantar junto, dançar e se emocionar, como os melhores entertainers de arena fazem, entregando o que há de melhor em si, o melhor que é possível de acordo com as condições. E as condições eram excelentes.

Não podemos esquecer que um show dessa magnitude tem outra capacidade de alcance com os recursos contemporâneos. Um som cristalino e perfeito (o operador de som deveria ser condecorado pela Rainha também), além de telões de alta definição possibilitaram a todos no estádio terem acesso aos olhares, os sussurros e os salamaleques não apenas de Paul, mas também de toda sua corte. Agora entendo o problema dos Beatles nos anos 60, quanto tentavam fazer shows em estádios e as músicas eram sobrepostas pela histeria das fãs. Com os recursos tecnológicos de hoje, não haveria esse problema e talvez a história da música fosse outra. Então, não vamos ser hipócritas: música é alma, é coração, é energia, mas uma boa fortuna em tecnologia e estrutura também tem seu papel na construção de um show tão envolvente pra tanta gente.

Eu fui em poucos megashows e esse do Paul foi sem dúvida o maior em todos os aspectos: o de mais público (a visão de cima do anel superior do Beira Rio era extasiante, ainda mais com o sol de pondo), o de melhor som, o de melhor repertório… Mas acima de todos os superlativos, pairou o tempo todo na minha mente uma única idéia, uma idéia simples. Eu me lembrava do Butch Vig, produtor do segundo disco do Nirvana, comentando do poder de fogo da banda. Não recordo bem os termos e as palavras, mas falava da simplicidade da formação em relação ao impacto. Guardadas as devidas proporções, esse era meu sentimento no coração ontem. A beleza de uma configuração tão simples – músicas de três minutos, em grande parte tocadas com duas guitarras, baixo, bateria e teclado  – conjurar momentos tão grandiosos.

Como diz outro produtor clássico dos anos 90, Conrad Uno: “You dont need too much. All you need is some mics and maybe some bad reverb.” E, claro, com um adicional que Paul não cantou mas deixou no ar: “All you need is love”.

***

Fotos: a primeira eu roubei da Zero Hora, é do Mauro Vieira. As outras duas são do meu celular.

***

Leiam nos comentários críticas à estrutura local do show no que diz respeito a organização de filas, bebidas e banheiros. Não vivi isso porque cheguei em cima da hora e não saí do meu lugar, mas tem bastante gente reclamando.

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9 pensamentos sobre “Paul em Poa

  1. Excelente percepção do Show, mas cabe aqui uma avaliação da infraestrutura que deixou demais a desejar. Era um Deus nos acuda nas filas de entra, uma total falta de respeito com quem comprou ingressos a preços bem salgados ( sem avaliar o mérito de que o show valia), mas não teve a menor atenção da organização. Os “homens de preto e óculos escuros só estavam lá para constar, pq ajudar o público que é bom….E a turma de coletinho verde, onde estava escrito organização, era a mais desinformada e desorganizada de todas, um horror. Ou vi frases tipo: “ah, entra em qualquer fila, tá uma bagunça mesmo.” Gente, a minha esperança é que ainda faltam 3 anos para a Copa e até lá alguém terá que dar um jeito nisso. Porque a se julgar por ontem, foi uma total falta de profissionalismo na organização da arena do show. O banho de competência que a equipe do Paul deu, divergia totalmente do que se via antes de entrar no estádio e, mesmo, dentro dele. Faltou bebida, comida, sobrou um anel azul de banheiros químicos para que, mesmo, se ninguém tinha acesso à qualquer tipo de bebida? Quiosques de bebida e comida mal localizados e sem qualquer estrutura para o tipo de evento que, todos sabiam, iria levar milhares de pessoas ao Beira Rio. Foi uma vergonha. Turistas de váris cidades do Brasil e de países vizinhos estavam lá e nosso cartão de boas vindas ficou devendo competência. Uma vergonha! Graças a Deus a overdose de beleza e competência da equipe do Paul, que montou um show competentíssimo, vai limpar essa marca de total amadorismo nosso. Ave, Paul!

  2. Pingback: Paul McCartney em Porto Alegre

  3. Que texto bacana!

    Concordo também com os comentários sobre a estrutura. O show IMPECÁVEL fez com que todo mundo saísse de lá anestesiado e esquecesse dos problemas da organização. As filas de entrada e saída do estádio, os banheiros e os bares foram péssimos, não tem como comparar com outros shows grandes com estrutura ‘de verdade’.

  4. Esse show estabeleceu um novo “standard” de qualidade para o público de Porto Alegre. Quem vier tocar aqui será inevitavelmente comparado com Paul McCartney. Showzinhos de 1 hora e 20 minutos ? Vaias, na certa.
    O cara enfeitiçou a platéia mais heterogênea da história, seja sozinho com um violão, seja com a pirotecnia toda de “Live And Let Die”. Conseguiu a façanha de tornar suportável assistir a um show ao lado da “geração Orkut”, composta por pessoas que sequer olham para o artista, preocupadas que estão em tirar fotos de si mesmas pra postar na internet. Quanto às queixas da Mirian aqui em cima… ora… “infra-estrutura” ? Vai num show no Madison Square Garden e tenta tomar um refri, pra ver…. “all exits are final”…

  5. Pingback: O que fazer num domingo de primavera fim de tarde em Porto Alegre? « Agito com Balalau

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