Conector entrevista: criadores do MECA Festival

O ano de 1994 foi emblemático para o pop global. Apesar de podermos considerá-lo teoricamente como parte da fase inicial dos anos 90, na prática ele representou uma espécie de morte prematura da cultura dessa época: se você não se lembra, foi o ano em que Kurt Cobain tirou a própria vida e terminou de assassinar qualquer possibilidade de inocência que havia orbitando em torno do grunge ou do tal “rock alternativo”.

Kurt não fez o trabalho sozinho. Nos meses em torno do seu suicídio, também picaram a mula o Charles Bukowski, o Mussum, o Mário Quintana e o Henry Mancini, pra não falar do silencioso e pouco comentado nascimento de Justin Bieber (1º de março de 1994). Mas, enfim, o fato é que pra quem curtia cinema, literatura, televisão e música, 1994 foi um ano de perda e ruptura. E não podemos nem dizer que não fomos avisados pra nos preparar, porque fomos. De um jeito bizarro, mas fomos, ao menos no Rio Grande do Sul.

Fomos avisados com um festival. Em janeiro ou fevereiro de 1994, aportou na Praia do Barco, entre Capão da Canoa e Capão Novo, o M2000 Summer Concerts, que também passou por Santos e Florianópolis. Se gaúcho acha esquisito quando alguém de outros estados vem passar férias no nosso bizarro e único litoral, o que dizer de um festival inteiro que tinha como headliner o Helmet em fase áurea de sua carreira? E mais, um festival gratuito, ao ar livre, cujo único preço pra assistir uma banda bacanuda como Helmet era passar antes pela Deborah Blando e pelo Fito Paes?

Sim. Há pouquíssimos registros no Google sobre isso (vale ler o do Eduardo Egs), mas a real é que no verão de 94 os indies gaudérios puderam assistir pertinho de casa, comendo crepe e tomando cachaça em garrafa pet, uma das bandas mais legais da época com sua formação quase clássica. Eu e outros dois membros fundadores dos Walverdes estávamos lá. Não só estávamos lá como batemos um papo (algumas pessoas descreveriam a interação de outra forma) com alguns caras do Helmet, entregamos nossa primeira demo (podríssima) e tivemos uma música dedicada a nós durante o show. Uma noite inacreditável para os frequentadores da Barros Cassal (a rua “alternativa” de Porto Alegre na época) e fãs de Lado B e Gás Total.

Depois disso, nunca mais tivemos nada do tipo no litoral gaúcho. Aquilo foi um erro de percurso da história, um desvio quase místico, e os Planeta Atlântida não contam porque nunca trouxeram uma banda fora do eixo tradicional no seu auge, como foi com o Helmet. Essa falha de San Andreas indie-mitológica está prestes a ser novamente suturada, 17 anos depois, por uma idéia aparentemente insana dos caras da Slash/Slash. A empresa é fundadora da revista/site/filosofiadevida Void e há anos trabalha com eventos e ações de experiência e conteúdo pra marcas como Claro, Adidas, Pepsi e Converse. Agora, deu na telha de fazer um festival meio indie num ponto nobre do litoral gaúcho, o M/E/C/A, que tem o Vampire Weekend e Two Door Cinema Club de headliners. Diante de tamanha esquisitice, eu quis entender qual era a dos caras e pra esclarecer qualé a disso tudo, trocamos alguns emails. O papo está reproduzido abaixo.

Conector: De onde saiu essa idéia de fazer o Meca?
Marco/Rodrigo: Decidimos criar alguns projetos próprios na Slash/Slash, onde a gente pudesse ter total autonomia e fizesse tudo como a gente realmente acredita, sem restrições. O que mais vem nos chamando a atenção é o crescimento dos festivais de música e como as pessoas estão cada vez mais abertas a escutar novas bandas e curtir diferentes estilos. Pra entender melhor isso e buscar mais referências, a gente participou de diversos festivais nesse ano, como o Coachella (EUA), o Sonar (ESP), o CMJ (EUA), e também o Planeta Terra, SWU, UMF e a maioria dos shows que rolaram aqui no Brasil. Também acompanhamos mais de 30 outros eventos que rolaram pelo mundo. Estudando mais sobre tudo isso, chegamos a conclusão de que o Rio Grande do Sul tem potencial para receber um evento num formato mais moderno, um festival inspirado no que rola de mais interessante no mundo. Mas surgiu uma questão: onde fazer o evento? Em Porto Alegre? Todo mundo sabe que fazer eventos em locais abertos em POA, hoje em dia, é muito complicado, teríamos que ir pra locais distantes com acesso difícil, como as fazendas onde rolam as raves. Então pensamos no litoral… Por que não no verão? Em Atlântida? A gente resolveria boa parte dos problemas que teríamos que enfrentar pra realizar o evento em POA. Além disso, nós já temos, desde 2004, um evento de beira de praia muito legal, o Surf & Music Festival, que rola no principal local de concentração do público jovem do litoral, a Plataforma de Atlântida. No verão passado, demos o primeiro passo para construção do novo projeto, trocando o nome para M/E/C/A/Land e transformando a programação do evento num mini festival com música, esportes e outras atividades rolando simultâneas. E nesse verão, vamos apresentar o projeto completo, o M/E/C/A/Festival.

Conector: Mas o litoral gaucho nunca foi indie ou hipster. Por que fazer um festival com esse por aqui em vez de um festival mais mainstream?
Marco/Rodrigo: A gente nunca faria um festival muito mainstream, não é o nosso perfil. O que a gente gosta é fazer projetos diferentes, experimentar coisas novas. Além isso, acreditamos que existe um movimento global que está se manifestando em diversos perfis de público, independente de localização geográfica, e que vai acontecer no sul também. Pra você ter uma ideia, fizemos uma pesquisa esse ano, com duas galeras bem distintas: um perfil mais moderninho e outro mais pop/mainstream. Identificamos que boa parte desse público mais pop, que frequenta clubs badalados, também escuta as bandinhas mais modernas quando está em casa ou no carro com os amigos. Algumas das músicas que mais bombam nas baladas de house hoje em dia são remixes das principais bandas que fazem a cabeça dessa turma mais moderna.

Conector: Que público vocês esperam atrair? Só sulistas?
Marco/Rodrigo: Acreditamos que existe potencial de realizar em Atlântida um evento “regional” que traga gente de SC, PR e até mesmo do Rio e São Paulo. Por ser na praia, numa região famosa, super bem frequentada, e num formato com festas e atividades rolando durante todo o final de semana, a gente acha que o evento ficou muito atrativo pra qualquer pessoa que esteja a fim de se divertir e curtir um finde com poucas horas de sono. Estamos monitorando a venda online e tem muita gente de outros estados que já compraram os ingressos do primeiro lote do M/E/C/A, que se esgotou em apenas 6 dias! A gente também tem recebido muito feedback de pessoas de outros estados se organizando para participar do festival e pedindo mais infos sobre transporte, hospedagem, etc. E isso é muito legal!

Conector: Vocês estão tendo algum apoio da cidade? A prefeitura está entendendo a importância do evento?
Marco/Rodrigo: Já temos, há sete anos, o apoio da Prefeitura pra realizar o evento na beira da praia. Em 2011, mais uma vez, vamos contar com o apoio do Secretário de Cultura e Meio Ambiente, Paulo Santana, e do Prefeito de Xangri-lá, Celso Barbosa, para viabilizar o M/E/C/A/Festival. Mas claro, em 2012, quando o festival crescer de verdade, vamos precisar de um apoio muito maior.

Conector: Quem foi responsável pela curadoria das bandas?
Marco/Rodrigo: Essa foi uma das partes mais difíceis. Teve vários fatores que influenciaram a escolha, como: aceitação do público, valor de cachê, disponibilidade, etc. Descobrimos que esse período é a época mais complicada do ano para realizar um festival no hemisfério sul. Muitas bandas aproveitam esses meses para gravar discos e tirar férias. Além disso, as principais produtoras de shows não tem o costume de investir em grandes atrações no verão. Isso fez com que a gente tivesse que “bancar” a tour das duas principais atrações que a gente queria pro M/E/C/A: a Vampire Weekend e a Two Door Cinema Club. Por exemplo, não “pegamos carona” com nenhuma tour que já estava vindo para outras datas aqui na América Latina, diminuindo muito nossas opções e aumentando muito o nosso custo.

Conector: O que vocês não querem que aconteça de jeito nenhum?
Marco/Rodrigo: A nossa maior preocupação, nessa primeira edição do festival, é mudar a percepção que as pessoas têm de que grandes eventos no Brasil são uma roubada. O que a gente não quer que aconteça de jeito nenhum é que o público saia do festival com a impressão de desorganização e insegurança.

Conector: E como vocês estão se preparando para evitar problemas históricos de festivais como filas, problemas em banheiros e falta de opção em alimentação?
Marco/Rodrigo: Temos uma super preocupação com esse ponto e a estrutura vai ser um dos nossos principais focos nessa edição. Estudamos muito, em todos esses eventos que estivemos esse ano, essa questão de estrutura. Desde posicionamento de palco, área vip, qualidade do som, entrada e saída, até a quantidade de bares e banheiros. Além disso, já temos um local que está preparado pra receber uma quantidade significativa de pessoas. Mas claro que vamos ter limitações e que, inevitavelmente, não sairá tudo como a gente gostaria. Estamos bem cientes do desafio e prontos pra entregar uma experiência super legal, em todos os sentidos, pra quem for no M/E/C/A.

Conector: Tem alguma vantagem que podemos ter sobre os festivais gringos?
Marco/Rodrigo: Ainda temos muito o que aprender com os festivais gringos. Mas tem dois pontos que achamos que o M/E/C/A/Festival em Atlântida vai ser imbatível: gente bonita e animação.

Conector: Dos festivais que vocês visitaram, como seria a mistura perfeita?
Marco/Rodrigo: O clima californiano do Coachella, o desprendimento do público e o line up interminável do Glastonbury, e a vibe “loucurinha” do Sonar.

***

Toda e qualquer informação sobre M/E/C/A. O primeiro lote de ingressos já esgotou. Mais adiante eu vou sortear alguns por aqui. Você também pode seguir o @MECAFESTIVAL no Twitter.

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4 pensamentos sobre “Conector entrevista: criadores do MECA Festival

  1. Grande Mini! Também fui testemunha auricular dessa história.
    Fui nesse xou do Helmet mas me lembro vagamente…hehehe. Saí de Cidreira e voltei no dia seguinte by bus.
    Nâo eram os 90’s que eram bons, era a gente que tinha 20 anos!!!

  2. eu estive nesse show… foi umas das coisas mais loucas que eu e meus amigos fizemos… saímos de Poa a pé… só com uma cueca e uma camiseta reserva e a escova de dente tipo trip e nem um dinheiro… pegamos umas quatro caronas diferentes e a última nos deixou dentro do festival… ainda bem que não tinha que pagar ingresso… senão íamos ficar de fora…. o show do helmet foi algo… mas o que eu nunca vou esquecer foi a gatinha que eu fiquei… me transformou em roqueiro, grunge contestador em “o último gaúcho romântico”… só lembro que ela se chamava camila e morava por lá mesmo… hmmm abraços…

  3. eu estive nesse show… foi umas das coisas mais loucas que eu e meus amigos fizemos… saímos de Poa a pé… só com uma cueca e uma camiseta reserva e a escova de dente tipo trip e nem um dinheiro… pegamos umas quatro caronas diferentes e a última nos deixou dentro do festival… ainda bem que não tinha que pagar ingresso… senão íamos ficar de fora…. o show do helmet foi algo… mas o que eu nunca vou esquecer foi a gatinha que eu fiquei… me transformou em roqueiro, grunge contestador em “o último gaúcho romântico”… só lembro que ela se chamava camila e morava por lá mesmo… hmmm abraços…

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