Minhas impressões sobre o Kindle

Apesar de falar diariamente na Oi FM (e escrever eventualmente aqui) sobre Cultura Digtal, não sou um cara dado a sair comprando gadgets sem construir um bom motivo racional pra isso. O Kindle, é preciso dizer, foi hábil em derrubar algumas dessas minhas barreiras, porque foi o primeiro aparelho que eu comprei por impulso, sem saber seu realmente precisaria dele (não preciso), se ele iria ser de fato útil (ele é) e se eu iria adotá-lo no meu cotidiano (adotei). Foi uma compra por impulso engraçada, porque demorou alguns meses de pesquisa e questionamentos pra se consumar.

E não é sem motivo. Como eletrodoméstico, os e-readers ainda são controversos, de assimilação bem mais difícil do que outros brinquedinhos, como tablets e smartphones. Dois motivos oferecem colocam a compra de um e-reader em dúvida: em primeiro lugar, o ecossistema em torno deles (as lojas, os livros, etc) não está estabelecido, não é de fácil acesso; em segundo lugar, o seu equivalente analógico, o livro, é um suporte muito mais poderoso em utilidade, ecossistema e simbologia do que o CD ou o telefone fixo, digamos.

Como gadget cool comprado por impulso, pra mostrar pros outros, o Kindle também tem sérias limitações. Ele certamente impressiona algumas pessoas por toda a aura que um e-reader carrega, mas em almoços de família ele não rende mais do que dez minutos de conversa. Se você quer ser o assunto da festa, não compre um Kindle. Compre um iPad ou um iPhone. Os principais fatores para o tédio que o Kindle gera ao seu redor também podem ser resumidos em duas características. Pra começar, a tela dele não é colorida, não emite luz e não é touch. Se você tocar nela, o máximo que acontece é sujar com a gordura do seu dedo intrometido. Além disso, o Kindle (ao menos o menorzinho, de tela de 6 polegadas) não serve pra nada – além de comprar e ler livros da Amazon. (O que já tá de bom tamanho, como vou comentar a seguir.)

Ok, versão mais recente do Kindle vem sim com um browser experimental que permite você acessar a internet via 3G ou wi-fi. Mas são poucos os motivos pra usar esse browser experimental: ou o livro que você está lendo está muito chato, ou você está numa situação de emergência internética longe de um celular com 3G, de um computador ou de uma lanhouse, ou então você é um nerd nostálgico que gosta de relembrar os velhos tempos de acessar a internet discada em monitores monocromáticos – e sem mouse.

Numa era em que os aparelhos são vendidos por sua capacidade de executar múltiplas tarefas, a grande virtude do Kindle é ser excelente no que se propõe. Como eu disse e faço questão de repetir, o Kindle é bom – na verdade, ótimo – numa única coisa. Ele é um e-reader, um leitor de livros digitais, com um corpo, um ecossistema e uma tela desenvolvidos especialmente para isso. A tela, grande estrela do Kindle, não emite luz. Portanto, diferente de um display de tablet ou notebook, ela não cansa os olhos e não briga com a luz do sol. Na verdade, a tela do Kindle reflete a luz do sol de um jeito muito parecido com o papel.


Trabalho da Lucy Knisley à venda em PDF e que deu pra ler bem no Kindle.

Falando em papel, ele faz falta? Faz um pouco de falta sim. Embora o conforto visual de leitura seja excelente (em menos de 5 minutos de leitura eu já havia esquecido que estava lendo num Kindle), há alguns aspectos lúdicos que ficam de fora da experiência de um e-reader. O primeiro deles é folhear. Folhear é parte do nosso processo de interação com um livro. Fazer as páginas zunirem, como num flip book, pra encontrar uma passagem específica, está aí um pequeno prazer que nos é subtraído no Kindle. O acesso a páginas determinadas é meio exato, entediante, depende de navegar num menu bem tosquinho. Folhear como esporte, simplesmente pra interagir a esmo com o livro através das mãos, também está fora de cogitação.

Outro aspecto negativo é a reduzida escolha de fontes. Pra quem admira tipografia e design de livros, a experiência de ler num Kindle é um pouco norte-coreana. Todos os livros vem na mesma fonte, com a opção de tirar a serifa ou de condensá-la. Você também pode aumentar  ou reduzir o entrelinhas e o número de palavras por linha, bem como o tamanho da fonte (bom para momentos de sono). Mas aí a coisa já começa a complicar, porque, respeitemos o trabalho dos bons designers: pouca gente domina o bom uso desse tipo de self-service. Nesse sentido, ler vários livros em sequência no Kindle é como entrar num fluxo constante. É como ler o mesmo livro, diagramado da mesma forma. A capa, o design interno, o tamanho e o peso não diferenciam uma experiência de leitura da outra. Isso não é propriamente um problema, mas torna a função toda diferente.

Bom, voltando à questão da utilidade. A rigor, você não precisa ler SÓ livros da Amazon no Kindle. É possível carregar o bichinho  com uma série de outros formatos que podem tanto ir direto pra dentro dele (TXT, PDF) ou passar por algum tipo de conversor. Mas aí ele já vira um gadget para fuçadores, pra quem não se importa de passar algumas horas encontrando programas e arquivos, conectando cabos, debruçando em cima de tutoriais, fazendo conversões.

Tem também os jornais e revistas que você pode assinar (no Brasil, usando um endereço americano na sua conta da Amazon e dando preferência para o download por wi-fi pra não pagar uma extorsiva taxa pra uso do 3G em assinaturas). Mas vai por mim: ler jornal no Kindle (o pequenininho) não faz muito sentido, a menos que seja por necessidade ou absoluta paixão pelo conteúdo na sua mão e não no computador. A subtração do folheamento no caso de jornais fica ainda mais radical. Lendo alguns jornais no Kindle descobri o quanto a leitura de um jornal físico ainda é agradável e insuperável. Pra não falar que a oferta de publicações brasileiras é ridídula: só o Globo e a Zero Hora estão disponíveis pra assinar no Kindle.

Uma coisa engraçada: o primeiro livro que eu comprei no Kindle foi por acidente. Eu estava browseando o site da Amazon e já tinha colocado na minha wishlist uma biografia do Allen Ginsberg. Mas não estava certo sobre comprá-la e por isso apenas navegava na página testando alguns comandos quando, de repente, surgiu algo como YOU JUST BOUGHT I CELEBRATE MYSELF. Bom, menos mal que tava um preço razoável (11 dólares) e eu queria o livro. Sua versão física tem mais de 700 páginas e pesa mais de um quilo, o que o torna um péssimo livro para viagens ou para leitura na cama – não no Kindle, já que ele pesa apenas 250 gramas, um quarto do livro físico. Considerando-se que eu o carreguei com mais umas duas dúzias de outros livros em PDF, TXT e outro no formato da Amazon, ler em viagens se torna muito mais prático, ainda que menos lúdico.

Veredicto final: pra quem lê em inglês e compra na Amazon, o Kindle DX 6″ vale super a pena. Eu estou curtindo, embora sinta falta do “lado design” do livro físico. Dizem por aí que o grandão é ótimo pra ler jornais e artigos científicos em PDF. (Consulte a opinião de especialistas, eu sou apenas um usuário metido.) A experiência de leitura do meu Kindle DX 6″ é ótima, tanto em termos visuais quanto ergonômicos (dá pra ler na cama sem cansar a mão). O preço também sai bem em conta, especialmente se você conseguir trazer você mesmo em vez de importar. Dentro desses limites, sou um usuário extremamente satisfeito.

Mas é preciso ter consciência de que o Kindle, como quase tudo hoje em dia, é um aparelho de transição. Dá a impressão de que os próximos serão muito melhores, especialmente em algumas questões de navegação (meio medonha). Ele também ainda demanda um envolvimento considerável de quem quer aprender a mexer com ele. Nesse sentido, o livro como objeto no-plug-just-play ainda é imbatível. Quanto ao browser… eu deixaria ele meia boca como é. No momento em que o Kindle tiver um bom browser, ninguém mais vai ler, todo mundo vai ficar no Twitter.

Dito isto, o Kindle é um gadget corajoso, porque ele mexe com uma série de códigos culturais ligados à leitura. Não é só o fato de botar uns livros ali dentro e sair lendo. Tem toda a questão de entrar em livrarias, tomar um café em livrarias, browsear as estantes de livrarias, sair de livrarias com sacolas, dizer aos seus amigos que você foi em livrarias, marcar encontros em livrarias. Qual é o lugar de um e-reader dentro desse ecossistema? Como ele (o ecossistema, não o e-reader) vai absorver e se moldar em torno dos leitores de livros digitais? Não é uma resposta fácil e talvez ela nem exista ainda. Provavelmente será construída ao longo dos próximos anos à medida em que formos usando os e-readers.

Talvez os e-readers, bem como os tablets, não sejam pra todo mundo e pra toda hora. Essa é a minha aposta. Talvez tenhamos um público para os e-readers. Não necessariamente um público nerd, apaixonado por tecnologia, mas um público que precise da portabilidade e conectividade de um e-reader. Àqueles cuja portabilidade e conectividade não seja a principal marca da experiência de leitura, bom, talvez a estes o e-reader não apele tanto por um bom tempo.

***

As fotos eu fiz toscamente no celular.
O cartum é do Arnaldo Branco.

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20 pensamentos sobre “Minhas impressões sobre o Kindle

  1. Mini,

    Buscar dentro do livro pra mim é uma das melhores coisas, além das vantagens que tu citaste. É absolutamente sensacional. Outra coisa muito boa é o dicionário instantâneo: só botar o cursor em cima duma palavra e pronto. A questão das notas também é bem útil, formando um repositório bastante organizado e interessante com o passar do tempo.

    Agora, o lance do jornal eu discordo, mas daí é minha experiência particular. Acho um absurdo as pilhas de papel que se acumulam com uma semana de recebimento de jornal em casa. Fora isso, é muito melhor ler o jornal à mesa do café num dispositivo fino e leve, que caiba bem entre um prato e um copo de suco 🙂 Sem contar também a possibilidade de buscar conteúdo por palavras-chave em edições passadas, o que é uma jóia.

    Se tu não usou ainda, recomendo o Instapaper: http://www.instapaper.com/

    Salve qualquer desses milhares de artigos interessantes que aparecem em twitters e facebooks da vida, baixe no Kindle e leia descansadamente no sofá ou qualquer outro lugar melhor que uma tela de computador. Recomendo fortemente.

    Abraço,

    Bruno

  2. Mini,

    Buscar dentro do livro pra mim é uma das melhores coisas, além das vantagens que tu citaste. É absolutamente sensacional. Outra coisa muito boa é o dicionário instantâneo: só botar o cursor em cima duma palavra e pronto. A questão das notas também é bem útil, formando um repositório bastante organizado e interessante com o passar do tempo.

    Agora, o lance do jornal eu discordo, mas daí é minha experiência particular. Acho um absurdo as pilhas de papel que se acumulam com uma semana de recebimento de jornal em casa. Fora isso, é muito melhor ler o jornal à mesa do café num dispositivo fino e leve, que caiba bem entre um prato e um copo de suco 🙂 Sem contar também a possibilidade de buscar conteúdo por palavras-chave em edições passadas, o que é uma jóia.

    Se tu não usou ainda, recomendo o Instapaper: http://www.instapaper.com/

    Salve qualquer desses milhares de artigos interessantes que aparecem em twitters e facebooks da vida, baixe no Kindle e leia descansadamente no sofá ou qualquer outro lugar melhor que uma tela de computador. Recomendo fortemente.

    Abraço,

    Bruno

  3. Gustavo,

    Eu estou namorando um desses faz tempo, a única coisa que me impede é o fato de nao pode assinar ou comprar tudo do Brasil (ou com endereço do Brasil)… Se eu colocar um enredeço dos EUA como primário, eu vou precisar comprovar de alguma forma ou é tranquilo?

  4. Gustavo,

    Eu estou namorando um desses faz tempo, a única coisa que me impede é o fato de nao pode assinar ou comprar tudo do Brasil (ou com endereço do Brasil)… Se eu colocar um enredeço dos EUA como primário, eu vou precisar comprovar de alguma forma ou é tranquilo?

  5. Pingback: Twitter Trackbacks for Minhas impressões sobre o Kindle - Conector - OESQUEMA [oesquema.com.br] on Topsy.com

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  7. Opa, como ficam as imagens dentro de um livro ou artigo cientifico em PDF? Você pode alterar o tamanho delas? Dar zoom assim como as letras?

    Obrigado.

  8. Opa, como ficam as imagens dentro de um livro ou artigo cientifico em PDF? Você pode alterar o tamanho delas? Dar zoom assim como as letras?

    Obrigado.

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