Jeffrey Brown

Numa rápida folheada, o que mais chama a atenção em um livro do Jeffrey Brown são aspectos que provavelmente vão afastar a maior parte das pessoas. Afinal, estamos falando de 1) quadrinhos 2) autobiográficos 3) desenhados toscamente, uma combinação que não fica em pé na sua estante ou na sua memória a menos que 1) o cara seja muito bom contador de histórias e 2) os desenhos toscos sejam mera fachada.

Esse é o golpe ao contrário de Jeffrey Brown que, de fato, me enganou direitinho. Não fosse minha mulher, que nem é fã de quadrinhos mas que teve a sensibilidade de comprar dois livretos dele, eu não teria ultrapassado esse esquisito pedágio estético e não teria tido 3 das leituras mais bacanas dos últimos tempos.

Vamos começar por Clumsy, primeiro livro publicado por Brown e também o primeiro que eu li dele. Curiosamente, também é o tipo de livro do qual eu fujo: cansei de quadrinhos sobre caras desajeitados (uma das traduções pra clumsy) e suas desventuras sentimentais. Mas, por algum motivo, Clumsy me prendeu do início ao fim e nem tanto porque eu queria saber o fim da história (o rompimento da relação de Brown com uma namorada à distância, anunciado logo de cara) nem tampouco porque eu precisasse ir até o fim para terminar a narrativa (Clumsy é uma coleção de pequenas cenas cotidianas).

O grande atrativo do Clumsy (e, na verdade, também dos outros dois livros dele que eu li) é a sensibilidade de Brown pra escolher a dedo que momentos da vida privada rendem uma cena interessante. Em uma época em que o escangalhamento da privacidade é regra, se torna ainda mais difícil criar narrativas a partir de momentos privados, já que muita gente passou a acreditar que todo momento privado fosse naturalmente uma narrativa. É aí que entra o treinamento exaustivo a que o autor se submeteu.

Em Funny Misshapen Body, Brown deixa de focar apenas sua vida sentimental pra nos entregar fartas e bem servidas sequências de sua formação. Lá descobrimos que ele se alimentou durante anos de uma dieta consistente de quadrinhos, começando com os super heróis mas passando, mais adiante, para a seara das graphic novels independentes. Nomes como Chris Ware e Daniel Clowes são frequentemente citados e, no caso de Ware, ele mesmo é personagem de algumas historietas deste volume: o respeitado autor de Jimmy Corrigan é quem dá o primeiro empurrão na carreira de quadrinista de Brown, orientando o rapaz a investir na autopublicação de Clumsy depois de repetidas rejeições editoriais.

Isso é bacana: após acompanharmos o autor em momentos de sua infância, da vida na escola, da escolha pela educação formal em arte (tô dizendo que esses desenhos toscos são só pra nos enganar…), pelos seus clássicos subempregos de Geração X e até por alguns relacionamentos, o livro termina com a história da concepção e publicação de Clumsy, o primeiro livro. Algum ciclo certamente se fecha aí.

O título Funny Misshapen Body é inspirado em grande parte na doença crônica de intestinos que acompanha Brown num bom pedaço da sua vida até então. Essa passagem é ao mesmo tempo exercício e prova do talento do cartunista: transformar um episódio médico de intestinos em algo a ser acompanhado exige mais do que meia dúzia de câmeras escondidas e uma audiência adestrada no mundo dos reality shows. É preciso, de fato, ter o olhar detalhista que revela (ou induz) as nuances escondidas no cotidiano mais intragável. Não estamos falando de um mero relato, mas quase de um trabalho de escultura, de retirar os excessos e deixar o essencial, tanto em termos verbais quanto visuais.

Little Things pende mais para Body do que para Clumsy. Continuam, aqui e ali, as aventuras sentimentais, mas está mais para uma coleção de fatias (como diz o subtítulo) da vida cotidiana. Apesar de ser mais do mesmo, é um pouco como Ramones: se você curte o jeito como ele resolve as coisas no papel (que não deixa de ser meio Ramones, à base do 1-2-3-4), não é enjoativo.

A história que fecha Little Things, assim como em Body, também é simbólica. Deixando pra trás os rolos de relacionamento, as doenças crônicas, as viagens de acampamento e a vida de gerente de loja de CD pra dar as primeiras pinceladas da paternidade. De novo, o tema de concepção fecha um volume do autor. Não sei dizer se esse padrão se repete no resto da obra, mas assim que eu for voltando aos livros de Brown, o que pretendo fazer aos poucos, vou contando pra vocês.

Deixo aqui, então, mais essa indicação dessa tecla que tenho insistido em bater: quadrinhos de não-ficção. Em temos de investigação endêmica da vida alheia, como já disse, por meio de reality shows e redes sociais, é bacana ver uma abordagem que se insere nesse traço forte da cultura contemporânea conseguindo fugir da vulgaridade. Ou seja, não precisamos negar nossa inserção no zetgeist, no espírito do tempo, e nem precisamos chafurdar na superficialidade.

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Algumas notas finais.

A produção de Brown é relativamente grande. Não deixe de dar uma olhada na página dedicada a ele na Amazon ou, se preferir, compre direto nas editoras. O site do autor tem os links.

Ele inclusive já publicou material de ficção e humor, fora do escopo das próprias memórias. Mas esses, confesso, ainda não conheço.

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Cheguei no trabalho do Jeffrey Brown de um jeito muito bacana e meio do avesso. Em outubro, eu e minha mulher estávamos em Montreal (ainda sai um post sobre a cidade) quando encontramos por acaso (juro) a loja da Drawn & Quaterly, uma das mais importantes editoras de quadrinhos independentes do mundo, uma espécie de Fantagraphics menorzinha e canadense. Lamentavelmente, me esqueci de tirar uma foto na frente da loja.

Bem, na primeira esbarrada com a D&Q, fizemos uma visita rápida pois nossa caminhada tinha outros objetivos e também tinha tanta coisa pra comprar que fiquei meio tonto e não gosto de comprar nada logo de cara. Alguns dias depois, voltamos lá dedicados a explorar a loja de fato e saímos com duas sacolas de material muito bom. Foi lá que comprei, por exemplo, o French Milk e o New Orleans After the Deluge, já comentados aqui.

Minha mulher, que não é tão fã de quadrinhos, também fez seu pequeno rancho e levou dois pequenos livros do Jeffrey Brown, além de um outro álbum bacana que ainda não li e que certamente será comentado aqui em breve. Devo a ela a descoberta. É como se eu, inapto para o mundo gourmet, tivesse apresentado um bom restaurante a ela, que domina os prazeres da mesa.

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Se você também curte quadrinhos, explore a categoria LIVROS do blog. Eu não faço distinção entre livros “escritos” e livros “desenhados”. Pra mim é tudo LIVROS.

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2 pensamentos sobre “Jeffrey Brown

  1. Pois é, e se o cara ainda é influenciado pela Daniel Claws, então deve ter coisa boa aí… tmb incluído na minha lista… Na real, vou é correr agora atrás dos comics do Do androids dream of electric sheep, adaptção do romance do pk dick. Parece ser du caralho…

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