À Sombra da Liberdade

Ano passado fui convidado pra participar da concepção do Fórum da Liberdade 2011 como Consultor de Conteúdo. Evento já tradicional do pensamento liberal, o Fórum este ano resolveu ampliar o seu alcance de público e escopo, sabiamente cruzando a questão da liberdade com a cultura digital. Entre os palestrantes, estão Marcelo Tas, Marcelo Madureira, Lobão, Pedro Dória,o Romero Rodrigues do Buscapé, o Rony Rodrigues da Box 1824 entre outras figuras ligadas ao mundo da mídia, economia e política.

Abaixo, um post que escrevi para o blog do evento.

***

No livro “Cartas a um Jovem Terapeuta”, o psicanalista Contardo Calligaris reuniu uma série de conselhos a aspirantes (ou curiosos) da área do tratamento psíquico. E, como faz parte do trabalho desses profissionais compreenderem o espírito do tempo em que vivemos, ele traz à tona um traço marcante da nossa era. Diz Contardo:

“A modernidade define o sujeito não por sua herança, mas por suas potencialidades. À primeira vista, é uma libertação, o passado não nos define mais com a mesma veemência, os anseios de mudança podem salvar o dia. De fato, a libertação é apenas aparente: o futuro projeta sobre o presente uma sombra tão escura quanto a que antigamente era projetada pelo passado.”

Discutir a liberdade na era digital passa obrigatoriamente por discutir essa sombra que o futuro projeta sobre nós – uma sombra formada em boa parte pela onipresença da tecnologia em nossas vidas. É cada vez mais comum discutir na mesa de bar ou ver no noticiário da TV rumores sobre o próximo tablet, mas, até bem pouco tempo atrás, isso era assunto de publicações especializadas e técnicos que conversavam com jargão próprio. Hoje, a tecnologia tornou-se pop.

Os gadgets, que atraem o interesse de pessoas de todas as idades e classes sociais, estão compondo uma poderosa simbologia que está moldando nossa forma de ver e atuar no mundo. Essa é a ideia de sombra que estou roubando de Calligaris: o videogame do futuro, o celular do futuro, a casa do futuro, o carro do futuro, embora ainda não existam de fato, embora sejam “do futuro”, estão exercendo uma influência tão grande em nossas vidas quanto exerciam antes as tradições familiares e os dogmas religiosos.

Por serem cheios de luzinhas coloridas e nos permitirem fazer coisas fantásticas (estacionar sem usar as mãos, jogarvideogame sem usar as mãos, talvez em breve usar as mãos sem usar as mãos), acabamos dando um desconto e não sentindo as sanções que eles nos impõem. Mas não deve ser fácil para nosso inconsciente ser confrontado tantas vezes e com tanta intensidade com ideias pré-concebidas – se você prestar atenção, as matérias são cada vez mais taxativas – de como viveremos.

Se lutamos tanto para nos libertarmos de antigas amarras do passado, dos dogmas, das tradições, das visões conservadoras, não podemos perder de vista que também teremos de ser cuidadosos com a ditadura do futuro pré-concebido. Ele é bonitinho, divertido e, sem dúvida, útil. Mas também pode ser ditatorial. Cabe a nós desfrutar de tudo que a tecnologia pode nos prover, sem deixar de perguntar constantemente o quanto estamos construindo o nosso futuro e o quanto estamos sendo construído por ele.

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Um pensamento sobre “À Sombra da Liberdade

  1. É verdade.
    Em “Inteligência Coletiva”, do Pierre Lévy, ele fala sobre a formação de quatro espaços antropológicos, e da formação da identidade em cada um deles.
    À medida que vamos nos ‘civilizando’ nossa persona é identificada por clãs (a família ou grupo o qual se pertence), pelo espaço territorial (tua nação, teu estado, tua cidade), pela atividade no mercado (tua profissão) e, hoje, pelo teu saber. Ou seja: com o tempo estamos desvinculando nossas identidades do ‘pertencer’ físico, algo que fomos, ou estivemos. Passado. E seguindo em direção ao que podemos ser, ou criar.

    Quanto às restrições, o Ted Kazcinsky(nome complicado) fala sobre isso no Unabomber muito bem. Ele ataca a tecnologia como principal restritora(fugiu a palavra) das nossas liberdades:

    http://pt.scribd.com/doc/16978771/A-Sociedade-Industrial-e-Seu-Futuro-Unabomber

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