Ginsberg

Assim como comentei sobre Gay Talese, não sou leitor da obra do Allen Ginsberg. Tenho lá em casa dois volumes de poesia das antigas edições da L&PM (Uivo e A Queda da América), ambos fruto dos apetitosos balaios da Feira do Livro do final da década de 80. Mas eles foram apenas semi-lidos, ou lidos mais no folhear descompromissado. O que realmente li, com gosto, nessa mesma época, foi o Cartas do Yage, a desbocada e interessantíssima troca de missivas entre Ginsberg e William Burroughs contando das experiências deste último com ayahuasca e garotos latinos na Amazônia colombiana e peruana.

De forma que: não sou exatamente um especialista. Não tenho muito contexto literário para oferecer ao comentar I Celebrate Myself, o obeso compêndio do arquivista e bibliógrafo particular de Ginsberg, Bill Morgan, que acabei de ler. Mas posso – e quero – dividir impressões bem particulares sobre o empreendimento de passar 700 páginas acompanhado as anotações e lembranças pessoais do homem que deu liga à geração beat.

Na verdade, o grande barato de qualquer biografia do Ginsberg (e há várias por aí) é que a história dele se mistura com uma série de conceitos recentes da história americana – e, claro, mundial. A saber: o surgimento e consolidação da contracultura, o nascer da juventude como segmento social (e comercial…), a luta pelos direitos civis, o encontro da cultura oriental com a ocidental e, finalmente, a idéia do indivíduo como um ser cosmopolita, em permanente trânsito físico e conceitual.

Para usar um termo bem contemporâneo, dá pra dizer que Ginsberg era o “conector” descrito no Tipping Point do Malcom Gladwell: o sujeito realmente móvel, que tem como superpoder a capacidade de viajar por diferentes estratos da sociedade e assim ir polinizando pensamentos avançados, que ainda não contam não com as condições ideais de se estabelecerem no comportamento médio. Essa ausência de CNTP para a disseminação de causas nunca foi problema para ele. Em cicunstâncias adversas, sua melhor ferramenta era simplesmente atravessar – cantando mantras, destilando poesia inovadora e tocando pratinhos hare krishna – fronteiras políticas, culturais e sociais.

Peter Orlosvky e Ginsberg: amigos, amantes, co-dependentes até o fim.

Ainda assim, para quem tem – ou tinha, como eu – a idéia de um homem cônscio do seu lugar no mundo, certo de suas convicções e livre de quaisquer amarras, o livro é surpreendente. Das suas notas particulares, organizadas ano a ano por Morgan, brota uma pessoa cronicamente insegura e egocêntrica, muitas vezes atormentada a um nível que chega a provocar compaixão. Allen, com o perdão do trocadilho, passou metade da vida sentindo-se um alien e a outra metade tentando convencer o mundo – e a si mesmo – que talvez essa seja a condição humana. Um bando de aliens convivendo no mesmo planeta – que bela imagem.

A batalha por liberdade foi sempre em mão dupla. O vetor que emanava para fora de sua personalidade apontava para políticos, governantes, leis, regras sociais, figuras conservadoras.O vetor que apontava para dentro revolvia suas próprias barreiras internas e seus intermináveis dilemas, que o acompanharam até a morte. É curioso, além de instrutivo, que um dos grandes porta-vozes da liberdade tenha sido, durante toda sua existência, refém da vaidade, do sexo, da carência afetiva, enfim, da necessidade de afirmação que todo ser humano carrega consigo em alguma medida.

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Turminha que se meteu em tremendas confusões em Tangier, Africa, 1961: Peter Orlovsky, Burroughs, Ginsberg, Corso, Paul Bowles e outros serelepes.

Essa conturbada bagagem psíquica serviu também de combustível para realizar não só sua potencialidade criativa, mas também a dos amigos ou daqueles que ele considerava dignos de reconhecimento. Com frequência, Ginsberg abdicou de dinheiro, energia e tempo próprios pra financiar outros poetas e escritores que orbitavam em seu entorno. “Na verdade, todo o fenômeno da Geração Beat poderia ser visto como um grupo de escritores que tinham pouco em comum estilisticamente mas que eram unidos pela amizade com Allen Ginsberg.” diz o autor da biografia. Foi assim até o fim de uma vida marcada pela falta de recursos financeiros, geralmente consequência de inúmeros investimentos em subvenções culturais, aluguéis, drogas, comida e até mesmo propriedades imobiliárias utilizadas por artistas dos mais diversos calibres. Muitos foram os que viveram, mesmo que por um pequeno período, sustentados por Ginsberg.

Ao fim da longa leitura, fica clara a complexidade da história e da personalidade de uma das mais marcantes figuras do século XX. Ginsberg foi um humanista, mas tinha tendências misóginas. Foi ativista social de tons individualistas e dono de uma espiritualidade que andava de mãos dadas com o hedonismo. Abraçou as contradições do regime cubano e do governo sandinista na Nicarágua enquanto combatia o conservadorismo americano. Enfim, ele personificou com maestria todas as incoerências da sociedade do século passado.


Snyder & Ginsberg & 1 flecha vermelha (o antigo TAG) apontando pra alguém que não conheço

A melhor forma de passar a régua na história de Allen Ginsberg talvez seja um pensamento do companheiro Gary Snyder quando viajaram juntos pela India em 1962. Segundo Bill Morgan, “Gary foi esperto o suficiente pra perceber que o mais importante na India era o fato de que mesmo os falsos homens sagrados eram, de fato, sagrados, e havia algo a aprender de cada um deles.”

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3 pensamentos sobre “Ginsberg

  1. rolou uma identificação aqui:

    “Para usar um termo bem contemporâneo, dá pra dizer que Ginsberg era o “conector” descrito no Tipping Point do Malcom Gladwell: o sujeito realmente móvel, que tem como superpoder a capacidade de viajar por diferentes estratos da sociedade e assim ir polinizando pensamentos avançados, que ainda não contam não com as condições ideais de se estabelecerem no comportamento médio. Essa ausência de CNTP para a disseminação de causas nunca foi problema para ele. Em cicunstâncias adversas, sua melhor ferramenta era simplesmente atravessar – cantando mantras, destilando poesia inovadora e tocando pratinhos hare krishna – fronteiras políticas, culturais e sociais.”

    me sinto assim, às vezes. Transitando pelos ambientes, conversando e conhecendo as pessoas e descobrindo que todas elas são exatamente iguais em suas diferenças. Um outro nome que eu dou pra isso é ‘camaleão social.’

  2. Rola dizer que também me sinto assim as vezes?

    Creio que o que chama atenção em Ginsberg seja justamente essa capacidade de ser amálgama de retratar essas “igualdades nas diferenças”, como o ariel citou acima.

    Achei interessante, tanto essas sensações de transitar sem um norte e polinizar ideias em circulos fora de onde partem [não só polinizar, mas dispersar, usando os termos das aullas de Ecologia de Populações. hehehe], de dar liga, mas ao mesmo tempo sentir-se inseguro de seu proprio poder.

    Será uma característica mais comuns do que imaginamos ser?

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