O início, o fim e o meio

A onda não é nova, mas agora parece estar chegando a algum tipo de tipping point: bandas fazendo shows (e turnês) para tocar discos inteiros, geralmente clássicos da sua própria discografia. O que o De Falla (de forma relevante e bem sucedida) fez aqui em Porto Alegre duas semanas atrás vem de uma linhagem interessante que atravessa diversas estirpes do rock. Basta dar uma googleada pra descobrir que já tivemos o Pixies tocando o Dolittle (inclusive no SWU aqui no Brasil), o Weezer tocando o Pinkerton, o Queens fazendo shows especiais do álbum de estréia, o Motley Crüe tocando o Dr. Feelgood, o Nine Inch Nails tocando o Downward Spiral, o Cracker fazendo o Kerosene Heat, o Melvins mandando o Houdini, o Primal Scream viajando com o Scremadelica e o Sonic Youth desenferrujando o Daydream Nation (que, na verdade, nunca enferrujou). Isso é só um aperitivo, claro. Continuando a pesquisa, a lista não termina.

O ponto é: pra que isso? O caminho mais raso pra responder à questão é culpar uma indústria da música perdida, que está experimentando todas as opções de venda e conexão com os fãs. Isso nos levaria, então, às famosas turnês caça-níqueis. Mas… se não nos contentarmos com a explicação mais simplista e militante, precisamos cavar um pouco mais. E descobrimos que, na cultura pop, a física quântica venceu: hoje, é possível você viver simultaneamente em duas, três, quatro épocas diferentes ao mesmo tempo sem que isso seja mal visto como era nos anos 90. Logo, se hoje tudo pode e tudo é de hoje, seria natural resgatar álbuns clássicos em sua totalidade.

Mas aí também a resposta está incompleta. O resgate de um clássico recente não é o mais importante (apesar de ser curioso). O ÂMAGO da história é o formato álbum, AQUELA COISA COM INÍCIO, MEIO E FIM que foi despedaçada e jogadas em pastinhas com o advento do mp3. Início, meio e fim são três elementos absolutamente estranhos à cultura digital, cujo fluxo de conteúdo sempre tende a um indigesto infinito.

Pois bem. Esses dias, comentei na Oi FM que uma das grandes vantagens  dos livros e revistas tradicionais em relação às suas versões interativas (e experimentais) em tablets e e-readers é o fato dos meios impressos terem INÍCIO, MEIO E FIM. Preste atenção: mesmo os recordes de venda de e-books da Amazon são baseados em obras digitais que emulam o conceito clássico de livro, com INÍCIO, MEIO E FIM. O Flipboard, aplicativo popular entre os usuários de iPad, também tenta formatar a enxurrada de conteúdo das redes sociais como uma revista com… INÍCIO, MEIO E FIM.

(Não adianta: o ser humano, todos sabemos, adora limites. Até pra poder ficar tirando onda de que quer vencê-los, transcendê-los.)

O conceito de álbum guarda essa semelhança com os livros e revistas impressos: ele seduz pela finitude. Mas ok. Mas então por que precisa ser tocado presencialmente? Por que o álbum ganha tanta exposição mais na sua forma ao vivo do que no seu formato em vinil, CD ou até mesmo digital? Ora: o que é mais finito (e, hoje, atraente) do que assistir a um SHOW de um álbum inteiro, com as músicas tocadas na ordem? O que é mais excitante do que um evento físico – porém intangível – que poderá não acontecer de novo e que não está sujeito nem a 1) ser despedaçado num shuffle qualquer 2) ser relegado ao limbo de uma pasta de MP3 que é poucas vezes visitada com tanta solenidade?

Tem algo que muita gente não entende – especialmente os envolvidos no lado mais comercial da tecnologia: a finitude, o estático, a desconexão, tudo isso são elementos fundamentais para a cultura digital – e para nossa sanidade coletiva.

É como quando passa aquele cara na rua carregando uma placa que diz O FIM ESTÁ PRÓXIMO. Se você pensa que o pessoal se apavora, você não está entendendo. O pessoal, hoje, grita OBA!

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5 pensamentos sobre “O início, o fim e o meio

  1. Ótima reflexão Gustavo, acho que você abordou os pontos certos. Eu tenho 23 anos, então nasci com os LPs, os tive, depois fitas, cds e a onda do MP3 e cia é natural pra mim. Então posso dizer de cadeira que nada substitui um álbum completo, com início, meio e fim. Uma música baixada no iTunes é só uma música a ser substituída por outra na playlist. O álbum fica. Recentemente fui ao show do Roger Waters aqui em Dublin (ele está fazendo o tour do The Wall). Sei que não é o Pink Floyd todo, mas é muito emocionante, experiência bem diferente de ouvir músicas de vários álbuns e épocas da carreira. Só que o outro lado também existe, o do lucro. Ele fez playback em várias músicas, pq está velho e não consegue cantar como antes (o bom nisso sempre foi o David). Eu não paguei menos por isso, sacou?

  2. Para variar o teu comentário eh pertinente e excelente.
    No caso de DeFalla, a chamada era DeFalla presta tributo ao primeiro disco, uma amiga questionou, tributo da própria banda?
    Vejo estes shows como se fossem um bônus, nao eh como um acústico ou turne.
    Também tem o lance, pelo menos eu e meus amigos fazíamos isto, de reunir os amigos para escutar um disco que alguém tinha conseguido.
    Também acho que tem um lance de distanciamento da banda em relação a obra, como se ela estivesse realmente prestando um tributo a algo que deixou de ser dela e passou a ser de todos.

  3. Excelente texto, Mini. Isso me lembrou também a história do Pink Floyd. Roger Waters, D. Gilmour e o N. Manson entraram um um processo na justiça contra sua gravadora, para impedir que suas músicas fossem vendidas separadamente no iTunes. Segundo, eles, o álbum foi concebido para ser uma obra completa, e as músicas só fazem sentido completo em conjunto. Outro ponto interessante sobre o conceito de álbum, outra história interessante é sobre o Black Sabbath (e muitas outras bandas também). Um dos maiores clássicos da banda surgiu em poucos minutos, de uma necessidade de completar o álbum, ou seja, ter as 8 músicas. A necessidade de preencher o álbum nos brindou com Paranoid. Será que essa música existiria sem esse tipo de problema?

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