Matt Damon, educação e idéias vagas

Esse vídeo já andou circulando por aí, mas só agora consegui dar uma organizada nas idéias pra escrever sobre o que ele me provocou. Estava, na verdade, como esse post escrito na cabeça há um tempo. Mas como vocês – ainda bem – não tem como ler a minha mente, vamos colocar aqui.

Qual é a história: o Matt Damon, cuja mãe é professora, fez uma participação em um evento pró-educação chamado S.O.S (Save Our Schools) no início do ano nos Estados Unidos. Depois da fala dele, uma repórter o abordou e botou uma lenhazinha na fogueira, comparando a instabilidade do trabalho de ator (“você só se esforça porque não sabe se vai conseguir um emprego no filme seguinte”) com a estabilidade no emprego dos professores. Ela estava, como muitos fazem hoje no Brasil, associando diretamente estabilidade no emprego com incompetência.

O nosso amigo Jason Bourne não deixou por menos e respondeu o seguinte, traduzindo:

“Então você pensa que é a insegurança de não conseguir outro trabalho que me faz trabalhar duro? Eu QUERO ser um ator. Isso não é incentivo. Esse é o ponto. Veja só, você se baseia esse estilo de pensamento MBA, certo? Esse é o problema com a política de educação atualmente. Essa visão intrinsecamente paternalista de problemas que são muito mais complexos do que isso. É como dizer que um professor vai se tornar preguiçoso quando ele conseguir uma tenure (no sistema americano, quando um professor atinge uma posição em que não pode ser demitido sem justa causa). O que um professor quer é ensinar. Quero dizer… por que mais alguém iria aceitar um salário de merda pra trabalhar longas horas num emprego a menos que realmente amasse?”

Bom, aos comentários.

1) Não vou entrar no mérito das questões educacionais. Apesar de ser filho de professores e ter sentido em casa o efeito do descaso dos governos com a educação pública, não me sinto apto pra discutir esse assunto. Me falta conhecimento e também distanciamento objetivo.

2) Mas, por trabalhar com publicidade e mídia, tem uma coisa que eu entendo – ou ao menos acompanho: discursos superficiais e subjetivos que flutuam na cultura popular. E um deles que anda rondando o Brasil nos últimos anos é essa espécie de “mentalidade de MBA” como o Matt Damon colocou, que vem a ser o hábito de botar um filtro de “gestão econômico-administrativa” em tudo que é assunto. É aquele papo de “cortar e reduzir” ou o conceito etéreo de que todo mundo que trabalha no setor privado é mais competente do que quem trabalha no setor público – uma verdade independente de escrutínio e baseada apenas em comentários de mesa de bar e notícias da grande mídia.

3) O caso aqui não é discutir se a tal da “máquina pública” é ou não eficiente e sim como discursos clichê disformes viajam pela nossa cultura sem um mínimo de investigação mais profunda.

4) Um exemplo dessa massa disforme de opinião, é o uso frequente que vem sendo feito da palavra MERITOCRACIA pra descrever um sistema vagamente milagroso que resolveria todos os problemas do funcionalismo público. Em educação, a meritocracia significaria que os professores seriam premiados de acordo com índices controversos de aprovação e melhoria. A controvérsia é fácil de entender: se o incremento de números absolutos na economia já não garante bem estar sustentável e de fato universal, que dirá a melhoria de números na educação.

5) Trabalhar em publicidade tem uma benção (dentre outras): você vive um pouco de cada setor da economia, um pouco de cada empresa. E precisa estudar, conhecer os meandros pra não falar bobagem nos anúncios (embora de vez em quando role um Machado de Assis branco). Nos meus 18 anos de publicidade, tive a oportunidade de conhecer um pouco sobre bancos, governos, sistemas de comércio, redes de varejo, grupos de telecomunicações, fabricantes de calçados, revendas de automóveis, enfim, empresas de todos os tipos e tamanhos, nacionais e multinacionais. E em todas elas eu pude comprovar (às vezes na prática) que a TAL DA MERITOCRACIA CORPORATIVA NÃO GARANTE MUITA COISA NÃO.

6) É claro que se você comparar uma repartição pública com uma empresa, a empresa sempre vai parecer mais eficiente. Mas isso não significa, em hipótese alguma, que o sistema meritocrático natural das empresas seja perfeito. Pra começar, ELE SERVE PRA GERAR LUCRO E PERPETUAR AS EMPRESAS e não necessariamente para contribuir para um projeto social – e isso faz toda a diferença. Tudo bem que se traduza alguns conceitos de gestão para a esfera pública, mas País não é empresa e cidadão não é cliente. São relações completamente diferentes.

7) Assim como a meritocracia é pródiga em gerar bons resultados no mundo corporativo, ela também é boa para criar bandos de pessoas que se tornam ases da meritocracia, especialistas em subir escalas de mérito, às vezes às custas de valores humanos e de colegas. E embora eu seja a favor de temperar UM POUCO o plano de carreira dos professores com um pouco de meritocracia, a última coisa que eu acho que seria saudável para a educação é um bando de professor carreirista.

8) E tem um outro aspecto que é o seguinte: a esmagadora maioria das pessoas (eu me incluo neste seleto grupo) não tem o conhecimento necessário pra avaliar a educação com profundidade. Uma coisa (válida) é se revoltar com falta de professores, profissionais relapsos e escolas caindo aos pedaços, e depois traduzir isso em indignação emocionada. Outra coisa (bem diferente) é achar que o produto verbal dessa indignação é uma solução estruturada que pode ser aplicada.

9) Pra finalizar, vamos reconhecer: a maior parte de nós não sabe propriamente o que reivindicar em termos de meios (queremos esta metodologia ou aquela), apenas em termos de resultados (quero meus filhos/sobrinhos/colegas cidadãos bem educados). Nessa confusão, acaba-se replicando sem pensar essa mentalidade MERITOCRÁTICA que paira na cultura popular – essa mistura malformada de vocabulário corporativo americano com a cantilena de raiz da força e da esperança brasileira.

Axé, Eike Batista!

Anúncios

12 pensamentos sobre “Matt Damon, educação e idéias vagas

  1. Eu prefiro o sistema de vouchers educacionais, onde o governo investe na DEMANDA (aluno) ao invés de investir na OFERTA (escola). A Suécia fez uma Reforma Educacional em 1992 que implantou este sistema e agora vários países da Europa estão querendo copiar. Bélgica e Dinamarca têm sistemas similares.

  2. Eu prefiro o sistema de vouchers educacionais, onde o governo investe na DEMANDA (aluno) ao invés de investir na OFERTA (escola). A Suécia fez uma Reforma Educacional em 1992 que implantou este sistema e agora vários países da Europa estão querendo copiar. Bélgica e Dinamarca têm sistemas similares.

  3. Ótima reflexão!
    E o vídeo mostra o quão superficial é o pensamento do americano com relação a alguns temas. Mas eles, ao menos pensam alguma coisa, enxergam mais rapidamente o problema. Enquanto nós aqui, basta olhar para a greve em MG.

  4. Eu vim aqui comentar que não restou espaço para comentar. Me identifiquei principalmente com a questão da profissão do publicitário que compartilhamos.

    Parabéns, Mini. Se todo blogueiro tivesse a sua clareza a internet seria um lugar melhor.

  5. Eu vim aqui comentar que não restou espaço para comentar. Me identifiquei principalmente com a questão da profissão do publicitário que compartilhamos.

    Parabéns, Mini. Se todo blogueiro tivesse a sua clareza a internet seria um lugar melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s