Nevermind em 12 faixas

Smells Like a Teen Spirit

O Nevermind não foi um disco que eu escutei. Foi um disco que eu vivi. Porto Alegre, na época do Nevermind, teve sua própria versão da “cena de Seattle”, da “explosão do rock alternativo”, guardada as devidíssimas proporções. Não tinha internet, mp3, banda gringa da hora tocando na cidade e muito lugar pra tocar/sair. Mas tinha a Osvaldo Aranha e depois a Barros Cassal, ruas que reuniram centenas de bermudões e camisas xadrez nos fins de semana. Toda geração precisa de um som, uma roupa e um pólo geográfico. De um jeito ou de outro, tivemos aqui a nossa filial dessa história, como um posto americano avançado numa republiqueta tropical. É nesse contexto que o Nevermind aterissou na minha vida.

In Bloom

O Forastieri comentou que o Nevermind é um disco de fechamento de ciclo e não de abertura. Concordo e, de fato, as 12 faixas meio que consolidam as décadas anteriores. A melodia dos anos 60, o glam e a virulência dos 70, os excesso e experimentos dos 80, está tudo lá. Mesmo como seu inegável frescor, o álbum diz muito mais sobre as décadas prévias do que as que viriam a seguir.

Come As You Are

Embora o Nevermind seja lembrado como um representante do resgate do “do it yourself” punk, a verdadeira energia que permeava tudo era a atitude slacker do “tô nem aí”. E essa sim foi a grande mudança nos 20 anos do Nevermind. Enquanto a cultura digital tansformou o “do it yourself” em cultura popular, o “tô nem aí” foi meio esquecido. Hoje, todo alternativo é hiperativo e se jogar nas cordas, definitivamente, não pega bem. (Falo por experiência própria.)

Breed

De todos os efeitos colaterais que um disco desses causa, o pior é a horda de filhotes bastardos. A quantidade de sub-nirvana que apareceu na cola do trio original são ao mesmo tempo uma prova da importância e um legado pentelho. Silverchair, Bush e mais um bando de zé mané conseguiram a façanha de nos servir comida congelada requentada quando bastava fritar um ovo direito ou caprichar num sanduíche.

Lithium

O filósofo Zygmunt Bauman (agora a coisa ficou séria!!) diz que “A ambivalência, quando não é suportada, é detestada.”. Impossível ler essa frase e não lembrar de “I hate myself and i want to die” título emblemático de uma canção que Cobain queria usar pra nomear o sucessos do Nevermind, In Utero. O alcance popular do Nirvana (e de toda uma geração musical) exigiu uma energia pesada investida no dilema alternativo x mainstream. Era muito mau humor. Ia acabar dando no que deu.

(No fim das contas, tudo se resolveu ao longo dos anos 00, quando “banda que mistura rock e eletrônica” deixou de ser diferencial e Cristina Aguillera e Strokes puderam conviver numa boa na mesma faixa. Não dá pra dizer que foi energia desperdiçada, mas é meio irônico. Pra que tudo aquilo? Bom, como diz uma amiga minha, espernear faz parte da vida.)

Polly

Um verdadeiro presente para garotos ao redor do mundo: uma das músicas mais fáceis de se tocar no violão em toda a história do pop. Isso sim é OPEN SOURCE.

Territorial Pissing

E, de repente, uma banda de uns caipiras do interior do noroeste americano vai parar em camisetas de camelô no centrão de Porto Alegre. E, de repente, as camisas pretas já não são mais exclusividade dos metaleiros. E, de repente rock pesado também é coisa de gente sensível e deprimida. Não é pouca coisa.

Drain You

Em tempos de hard rock, funk metal, axé e tecnopop farofa, era bom ver a potência e o impacto da simplicidade. Três caras. Guitarra, baixo e bateria. Umas amarguras, umas boas melodias e muita distorção. Lembrar que faz-se milagre com pouco – e com os aspectos mais negros da mente humana – é algo que precisa de reforço periódico, faz parte dos ciclos culturais. Estamos precisando disso novamente…

Lounge Act

A música mais legal do disco.

Stay Away

As pessoas falam, falam, falam de internet e mp3, mas esquecem da Gol. Quando o Nirvana veio tocar no Brasil, passagem de avião tinha preços proibitivos e o jeito foi ir pra praia e deixar gravando no programa do videocassete. Uma felicidade: chegar em casa na segunda e perceber que a gravação tinha dado certo. Vi muito essa fita mas fiquei meio decepcionado: o Dave Grohl tocando de boné, o Cobain castanho e o Novoselic de cabelo curto. Cadê os caras dos clips? Cadê os caras do Nevermind?

On a Plain

O Nevermind pode não ser o melhor disco da sua época, nem o único, nem o mais importante musicalmente, nem o mais profundo. Mas ele foi um dos primeiros símbolos da velocidade e abrangência da nova cultura global. Um ponto destacado numa rede de eventos.

Há 20 anos, parecia que o Nevermind chegava pra simbolizar a resistência do underground, a dicotomia, a tensão. Hoje, fica mais claro que ele veio pra simbolizar a distensão, a mistura, a construção de pontes que, de fato, se consolidaram na cultura pop.

Something in The Way

Todo sistema que sofre uma sobrecarga precisa ser reiniciado. Então pra mim é isso: o Nevermind foi a sobrecarga (distorção, angústia, desespero) que resetou o sistema.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Nevermind em 12 faixas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s