O futuro de Mad Men

Se você não assiste Mad Men, aqui vai um resumo: o seriado é um novelão (bem bacana) que gira em torno da equipe de uma agência de publicidade nos anos 60. Maaaaas, a história da agência é apenas um recurso (bem pensado) pra falar dos problemas existenciais da classe média americana da época. Não é apenas a gênese da publicidade moderna que se vê, é também a gênese da maior parte dos males psíquicos que emplacaram nas últimas décadas (depressão, falta de pertencimento, ansiedades, desestruuração de um sistema vigente de status etc).

Uma das coisas mais interessantes do seriado (e que eles enfatizam claramente! são os pequenos hábitos cotidianos da época que caíram em desuso, como uma certa misoginia e, especialmente a tendência de beber e fumar a qualquer hora, o tempo todo. Não só publicitários estressados, mas donas de casas (inclusive grávidas) e médicos (que atendem grávidas) fumam e bebem numa quantidade impensável para os padrões médios atuais.

Não dá pra saber o quanto é verdade, mas dá pra ter uma idéia: eu trabalhei com algumas pessoas que viveram os anos 70 da publicidade brasileira e também lembro do status do álcool e do cigarro durante a minha infância. Eles eram, de fato, mais presentes fora de eventos sociais. O que antes era um comportamento comum hoje é algo quase alienígena, considerado fora da curva. Você olha alguns episódios e pensa (ao menos eu penso): “meu, o que é essa gente tosca?”

Pois o escritor de ficção científica William Gibson, em entrevista para o Boing Boing (que eu vi no Caos Ordenado), disse uma coisa que me lembrou justamente esse aspecto de Mad Men:

“Ao longo da minha vida, eu pude observar emergirem narrativas da história completamente diferentes. A história do que hoje é a Segunda Guerra e de como ela aconteceu é radicalmente diferente da história que me foi ensinada no colégio. Se você lê lê os Vitorianos escreverem sobre si mesmos, eles descrevem algo que nunca existiu. Os Vitorianos não pensavam sobre si mesmos como sexualmente reprimidos ou racistas. Eles não se viam como colonialistas. Eles se consideravam a jóia da coroa da criação.

Obviamente, nós poderíamos ser Vitorianos também.”

A partir dessa perspectiva, é curioso imaginar como seria a 55a temporada de Mad Men lá por 2051. Que comportamentos nossos hoje soarão toscos, retrógrados e excessivos? Que armadilhas sociais não conseguimos enxergar por estarem tão próximas de nossos olhos?

Não tenho muita certeza, mas acho que os episódios da 55a temporada de Mad Men:

– Se passariam em uma agência digital.
– Teriam como protagonista central um Diretor de Planejamento.
– Documentariam a chegada do Twitter e do Facebook.
– Mostrariam a decadência do atual modelo de agência digital.
– E também a frustração dos profissionais, que na verdade queriam todos ter sua própria startup de tecnologia.
– Deixariam claro como “era” exagerada a necessidade das pessoas de estarem conectadas 100% do tempo.
– Daria vergonha de ver como as pessoas “costumavam” ficar acessando emails durante reuniões
– Renderiam cenas hilárias sobre nosso entusiasmo com tablets e smarphones.
– Exporiam a nossa empáfia ao falarmos sobre comunicação digital como se realmente tivéssemos noção do que está acontecendo e o que estamos fazendo.

E por aí vai.

Não adianta: os sofisticados de hoje sempre serão os toscos de amanhã.

***
Mas e você? O que acha que hoje é levado na boa mas será tosco no futuro?

15 pensamentos sobre “O futuro de Mad Men

  1. Ah, esse post faz pensar tantas coisas, né.
    – Pode ser que mostraria o começo do fim da espontaneidade, do flerte, de puxar uma conversa com quem está ao lado da gente – já que as pessoas “ficavam” grudadas nos seus smartphones (em ônibus, salas de espera de aeroportos, médicos etc); mas, ao mesmo tempo, isso ia ressaltar um outro tipo de interação que “estava” começando. Outros modos de estar junto.
    – Talvez também ia enfatizar a nossa surpresa com a descoberta da possibilidade de saber onde outras pessoas estão (a geolocalização) – cenas ridículas de desconhecidos se procurando no shopping ou num restaurante, por exemplo, porque viram que está pessoa deu “check-in” no local.
    Talvez a 55a temporada mostre uma espécie de “laboratório” digital, por isso os excessos e as angústias nos usos. Bom é poder refletir sobre isso.
    Abraço!

  2. Ah, esse post faz pensar tantas coisas, né.
    – Pode ser que mostraria o começo do fim da espontaneidade, do flerte, de puxar uma conversa com quem está ao lado da gente – já que as pessoas “ficavam” grudadas nos seus smartphones (em ônibus, salas de espera de aeroportos, médicos etc); mas, ao mesmo tempo, isso ia ressaltar um outro tipo de interação que “estava” começando. Outros modos de estar junto.
    – Talvez também ia enfatizar a nossa surpresa com a descoberta da possibilidade de saber onde outras pessoas estão (a geolocalização) – cenas ridículas de desconhecidos se procurando no shopping ou num restaurante, por exemplo, porque viram que está pessoa deu “check-in” no local.
    Talvez a 55a temporada mostre uma espécie de “laboratório” digital, por isso os excessos e as angústias nos usos. Bom é poder refletir sobre isso.
    Abraço!

  3. Sem querer dar uma de blase’, acho tudo que estamos vivendo tosquissimo. Entendo que exista essa “necessidade” de coxexao e (a meu ver doentia) de exposicao. Nao, nao sou um velhinho ignorante, na verdade vivo disso, mas abomino certos aspectos da rede. Minhavida pessoal e’ pessoal. Tenho dois perfis no Facebook com 0 (zero) amigos, so’ para administar as fanpages de clientes. Pronto, falei. Sim, pelo cliche, devo ser um pessimo profissional. Nao, nao sou, garanto, mas devo manter o anonimato pelo bem da imagem dos clientes. (PS, e nem quero falar de Ipads e afins revolucionando a musica… Deus, a diferenca e’ so’ a tela tactil de vidro!) (PS2 Acho legal o Queremos, ai’ sim, agora, Pobre urbano, poupe-me, neh, me tira o tubo!)

  4. Sem querer dar uma de blase’, acho tudo que estamos vivendo tosquissimo. Entendo que exista essa “necessidade” de coxexao e (a meu ver doentia) de exposicao. Nao, nao sou um velhinho ignorante, na verdade vivo disso, mas abomino certos aspectos da rede. Minhavida pessoal e’ pessoal. Tenho dois perfis no Facebook com 0 (zero) amigos, so’ para administar as fanpages de clientes. Pronto, falei. Sim, pelo cliche, devo ser um pessimo profissional. Nao, nao sou, garanto, mas devo manter o anonimato pelo bem da imagem dos clientes. (PS, e nem quero falar de Ipads e afins revolucionando a musica… Deus, a diferenca e’ so’ a tela tactil de vidro!) (PS2 Acho legal o Queremos, ai’ sim, agora, Pobre urbano, poupe-me, neh, me tira o tubo!)

  5. No futuro irão falar sobre pessoas que trabalham todo o tempo, ao tomar chope com os amigos, ao namorar, ao viajar, sempre pensando em benefícios à carreira. Tempo em que somos profissionais, não pessoas. Isso pode até ter a ver com tecnologia, mas isso é só um detalhe técnico.

  6. No futuro irão falar sobre pessoas que trabalham todo o tempo, ao tomar chope com os amigos, ao namorar, ao viajar, sempre pensando em benefícios à carreira. Tempo em que somos profissionais, não pessoas. Isso pode até ter a ver com tecnologia, mas isso é só um detalhe técnico.

  7. não acho válido ver através do nosso viés “que gente tosca”, tem de ver pelo prisma daquela época.
    mais tarde acharão comportamentos de hoje ridículos, pífios.

  8. não acho válido ver através do nosso viés “que gente tosca”, tem de ver pelo prisma daquela época.
    mais tarde acharão comportamentos de hoje ridículos, pífios.

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