Linha da vida

As moças devem saber, mas eu descobri há pouco: a Vivara lançou esse ano uma linha chamada LIFE. Que, na verdade, é mais do que uma simples linha, é uma espécie de editor/agregador de significados de vida muito mais eficiente do que algumas ferramentas digitais. Viajei demais? Acho que não. Vejamos.

A idéia é bem simples (e comercialmente inteligente): você compra uma pulseira ou colar e vai acumulando berloques que, sugere-se, tenham a ver com a sua história de vida. Arrumou um namorado novo? Bota um coração. Casou e foi passar a lua de mel em Paris? Bota uma Torre Eiffel. Ficou grávida? Bota um bebezinho. E por aí vai. Claro que dá pra usar como mero enfeite, mas a graça está justamente em compor a pulseira pra contar uma história. E com um brinde semiótico: é a linha da vida, em um círculo.

No fundo, é o que o Facebook gostaria que a gente fizesse na sua Timeline. Só que o Facebook, apesar de dar sua ferramenta de graça, é muito mais arrogante e pretensioso. Uma timeline em forma de pulseira (em que pesem aí questões monetárias e sociais) é infinitamente mais lúdica e fiel a uma história de vida do que uma timeline da forma como o Facebook sugere.

Porque a edição, no caso da pulseira, está muito mais na sua mão (sem trocadilhos) e é muito mais simbólica, não é tão estatística e forçada como a timeline digital no estilo Facebook (ou dos fracassados lifeblogs). Nesse último caso, além de partir do antipático pressuposto (ou, pior, da aspiração comercial) de que o que vale da sua vida passa pelo Feice, uma Timeline bacana e fiel dependeria de um usuário que domina perfeitamente as complexas configurações de privacidade. É comum, também, que usuários menos aplicados acabem deixando que configurações padrão façam as escolhas por eles.

Claro, pode-se considerar que uma Timeline do Feice fragmentada, produzida por enganos e baixa intimidade com as configurações técnicas, acabe dando um resultado tão legítimo quanto um diário escrito à mão, cheio de rasuras, imperfeições e lacunas. Mas, de alguma forma, me parece que os lapsos derivados do não entendimento completo de uma ferramenta digital resultam em um produto final menos autêntico. Rasuras aparecem, gritam, enquanto que configurações erradas frequentemente se misturam às postagens corretas, tornam-se postagens corretas.

Outro problema é que, por mais dados que uma pessoa gere ao interagir com os diversos aplicativos que atravessam seu cotidiano, mesmo que isso seja coletado e classificado de forma matematicamente perfeita, ainda estamos falando de fragmentos reunidos dentro de um condomínio fechado – enquanto a vida segue mais rica lá fora (não só fora da internet, mas, antes disso, fora do Facebook, no resto da internet).

Viver e dar sentido à vida, alguns defendem, é narrar e editar a própria história o tempo todo. Sempre fomos, de certa forma, sujeitos às (e impulsionados pelas) limitações das ferramentas da nossa época. Pode ser que no futuro dominemos as configurações de uma timeline digital da mesma forma como dominamos já a fala, a escrita, o recorte, a colagem e a confeção de pulseiras. Mas enquanto isso não acontece, não custa nada investir um pouco de atenção e reflexão no que tentam nos empurrar como sendo a linha da nossa vida.

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2 pensamentos sobre “Linha da vida

  1. Cara, ainda não comprei a timeline do Facebook justamente pela questão de privacidade x postagens x conjunto de ações no mundo material.
    Como eu acredito na história de que nossa percepção determina a “verdade” dos acontecimentos e de que essa percepção muda à medida que nos distanciamos dos fatos, gosto da ideia de materializar meu registro pessoal.
    A pulseira com símbolos é bem legal, assim como cadernos de colagens e desenhos, mas minha opção é escrever cartas. Escrevo cartas para versões mais velhas de mim e as respondo quando chega a hora.
    O visual novo do Esquema ficou ótimo. Parabéns.

  2. Cara, ainda não comprei a timeline do Facebook justamente pela questão de privacidade x postagens x conjunto de ações no mundo material.
    Como eu acredito na história de que nossa percepção determina a “verdade” dos acontecimentos e de que essa percepção muda à medida que nos distanciamos dos fatos, gosto da ideia de materializar meu registro pessoal.
    A pulseira com símbolos é bem legal, assim como cadernos de colagens e desenhos, mas minha opção é escrever cartas. Escrevo cartas para versões mais velhas de mim e as respondo quando chega a hora.
    O visual novo do Esquema ficou ótimo. Parabéns.

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