Julgamentos

A telinha acima é o documentário “Judgment Day: Intelligent Design on Trial”, que tem inteirinho pra assistir no YouTube (em inglês). Ele cobre, com entrevistas e dramatizações, o conflito que se instalou em uma pequena cidade da Pensilvânia ali por 2004 por conta de uma ação polêmica: a tentativa de embutir o ensino do criacionismo nas aulas de ciência da escola local. O caso, como toda boa história americana, foi parar na justiça.

Ensinar criacionismo como ciência é proibido pela constituição dos Estados Unidos, mas há anos movimentos criacionistas tentam empurrar a sua visão da origem das espécies disfarçando-a de uma suposta teoria científica chamada “Design Inteligente”. O que o filme conta é justamente os detalhes de como se desmontou, peça por peça, a noção de que “Design Inteligente” é algo próximo de uma teoria científica.

Fora de discussões de mesa de bar, não é um assunto fácil. Não dá pra tomar uma decisão judicial com base no “dãã, nada a ver, isso aí não existe, é ÓBVIO que não existe.” Mas o documentário encaminha o raciocínio pra nós, que estamos assistindo, dando rápidas noções de evolucionismo, criacionismo e americanismos. Embora claramente defensor do pensamento científico clássico (o que gerou reclamação dos criacionistas sobre a falta de isenção) , o filme tem umavisão razoável da situação como um todo.

Aproveite enquanto está facinho no YouTube: “Judgment Day” é imperdível e talvez obrigatório numa época de avanço assustador de bancadas ditas “religiosas” no nosso Congresso.

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Diga-se de passagem: apesar de me envolver com o filme e o sugerir como peça importante de reflexão para um fenômeno cultural que estamos vivendo no Brasil, não sou um desses fundamentalistas do pensamento científico. Costumo acompanhar as entrevistas de dois grandes advogados do ateísmo ativo, o Christopher Hitchens e o Richard Dawkins, mas não tenho nenhuma vontade se ser colocado no mesmo balaio deles.

Nesse ponto, tendo a concordar mais com a entrevista do Alain de Botton para o Caderno Cultura da Zero Hora (que, por sinal, anda bem bacana): existe uma multidão silenciosa que não se alinha com os extremos – sejam teístas ou ateístas. É uma imensa área cinzenta que reúne, acredito, algum pessoal disposto a compor diferentes visões, abrindo mão da abordagem mais agressiva e buscando promover uma cultura de paz e compaixão sem necessariamente vincular o Estado a tradições específicas.

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Na verdade, cheguei a esse filme por indicação do professor Charles Watson no terceiro módulo do seu falado Workshop de Processo Criativo. Ele costuma usar, no curso, um trecho do “Judgement Day” em que um cientista explica o funcionamento do mecanismo evolucionário pra derrubar um argumento dos criacionistas. É mais ou menos o seguinte.

Uma das defesas do “design inteligente” se baseia no estudo de uma bactéria que tem uma organela de propulsão tão complexa que, segundo eles, “não poderia ter evoluído de algo mais simples”. Logo, só pode ter sido desenhado por um “designer inteligente”. Esse conceito é chamado de “complexidade irredutível”. Um dos exemplos clássicos pra defender a complexidade irredutível é a ratoeira – aquela que o rato pega o queijo e fica preso num araminho. Para os partidários do design inteligente, a ratoeira não tem função se privada de alguma de suas partes.

A contraexplicação da acusação no Jugdement Day caminha simultaneamente por um lado biológico e outro simbólico. Na biologia, vem à tona uma versão anterior da bactéria citada na qual a organela/motor de propulsão, sem algumas partes, não está totalmente evoluída. Mas, apesar de não servir como propulsor, funciona muito bem como… injetora de veneno.

Pra ilustrar melhor o argumento, o cientista dá seu depoimento usando uma ratoeira como prendedor de gravata. Sem três de suas cinco partes, a ratoeira não serve pra pegar rato. Mas isso não a inutiliza como acessório de vestuário.  Em outras palavras, do ponto de vista da evolução, é possível, sim, que existam etapas intermediárias nas quais os mecanismos biológicos tem funções totalmente diferentes de suas versões evoluídas.

Não sei se ficou claro. Tem que ver o filme mesmo.

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O Charles Watson usa isso como paralelo para o processo criativo: é muito comum que, quando estamos criando, se tenha centenas de idéias aparentemente inúteis ou bestas mas que geralmente servem de escada – ou de etapas intermediárias – para a construção do que se consideraria a solução final. Ou seja: aqueles papéis rascunhados no lixo não são lixo, são só a idéia final ainda na pré-escola.

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