Hapiness is a warm cam

Não sei se chamou a atenção de vocês, mas no domingo passado, as imagens mais interessantes do Fantástico sobre o desabamento do edifício Liberdade no Rio foram feitas pelo telefone de um morador de rua. Caso você não tenha visto nada de curioso aí, eu vou repetir: as imagens mais interessantes de uma reportagem da maior emissora de televisão do país, dona de um poder sem precedentes na história, foram produzidas por um mo-ra-dor-de-ru-a. Ok, eu sei que esse comentário pode parecer estranho vindo de alguém que diz acompanhar o cenário da cultura digital, mas mesmo que a tecnologia esteja cada vez mais popularizada por conta da “ascenção da classe C baseada na estabilidade econômica”, é preciso ser muito blasé pra não achar esse tipo de situação digna de negrito.

Na verdade, acho fundamental sublinhar casos assim pra que a gente não perca de perspectiva o tamanho da mudança que estamos vivendo. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso já percebeu o quanto os vídeo amadores são fundamentais na composição dos notíciários. E, mais do que isso, como eles têm sido peças-chave na construção do imaginário visual de momentos históricos – de um jeito que não aconteceria se dependêssemos apenas da mídia estabelecida. Não é nem uma questão ideológica, é uma questão prática e logística: um grande veículo, por mais poderoso que seja, não pode estar em tantos lugares quanto o povo, não tem nem mesmo legitimidade pra tanto em alguns casos. Exemplo recente: as imagens sobre a ação policial no Pinheirinho que correram a rede não vieram das câmeras da imprensa pois os repórteres tiveram acesso restrito. Já quem estava tomando porrada podia gravar “à vontade”.

Dentro disso, me chamou a atenção uma reportagem da The Economist contando sobre a preocupação de algumas instituições de ativismo social em ensinar às pessoas noções básicas de gravação e tecnologia para que os vídeos amadores sejam mais eficientes e mais seguros. Por exemplo, no vídeo, um ativista da Witness conta que capturar um acontecimento inteiro com closes, mostrando uma sequência de eventos, pode ser bem mais eficaz do que panorâmicas tremidas e desconexas. Por outro lado, planos fechados podem induzir a produção de provas contra participantes de protestos, problema abordado por um desenvolvedor do The Guardian Project que criou um aplicativo para borrar o rosto de quem aparece inadvertidamente em imagens de mobilizações.

Ou seja: usar ferramentas digitais pra deixar o mundo melhor exige também que a gente aprenda a usar melhor as ferramentas digitais.

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Falando em câmera…

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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