The Zen Dude 2

http://www.cultureunplugged.com/swf/embedplayer.swf

Olha que bacana: está online, inteirinho pra assistir de graça, o documentário Instructions To The Cook, sobre o professor americano de zen budismo Bernie Glassman. “Tá e daí?”, diria você que não é budista. E daí que Glassman é uma figura (ou figuraça) que transcende o âmbito religioso, como escrevi aqui há algum tempo ao comentar a relação dele com o Jeff Bridges (e com a cultura Lebowski) e o trabalho  como consultor no filme Tron: Legay. É justamente isso que esse documentário cobre: o fator engajamento social, de intersecção entre a espiritualidade mais roots e as necessidades prementes do mundo contemporâneo, uma mistura que Bernie Glassman parece dominar.

O título “Instructions to The Cook” (Instruções ao Cozinheiro) é derivado de uma derivação. Originalmente, remete a uma obra do monge fundador da linhagem Soto do zen japonês, Dogen, que viveu no século 13 e que tem entre seus escritos o volume Tenzo-Kyōkun (Instruções ao Cozinheiro). No texto, Dogen desenvolveu um manual de conduta para o cozinheiro dos mosteiros, considerado uma figura central não só no andamento logístico mas também no desenvolvimento espiritual dos monges. Claro: não são apenas instruções diretas, relacionadas à comida, à cozinha e afins. Aqui, o ato de cozinhar é naturalmente associado à vida e o cozinheiro a nós mesmos.

 

 

É aí que entra o Instructions to The Cook contemporâneo, escrito por Bernie Glassman e lançado em 1996. Sem dúvida ou entusiasmo precoce (já faz um tempinho que li), posso dizer é um dos livros mais profundos, motivadores e interessantes em que já botei os olhos. Inspirado  nos pensamentos de Dogen, Glassman Roshi apresenta os cinco pratos principais que ele considera necessários para construir “uma vida que importa” hoje: o prato da espiritualidade, o do aprendizado, o do sustento, o da mudança social e o da comunidade. Mas antes que você queira me dar uns tapas por tentar lhe empurrar um livreto barato de auto-ajuda, já aviso que não estamos falando de algo como uma “receita-da-felicidade-cozinhe-estes-ingredientes-e-seja-feliz”. Me dê um crédito e vá um pouco mais adiante no post.

Vamos lá: o mais bacana em Instructions to The Cook é que tudo é contado a partir  da experiência do Bernie Glassman com projetos de reinserção de sem-tetos na sociedade.  Quando desistiu de ser engenheiro aeroespacial e iniciou o treinamento tradicional no zen budismo com o mestre japonês Maezumi Roshi, Glassman já tinha em mente que em algum ponto de sua trajetória iria unir a sabedoria zen com sua necessidade interna de atuar socialmente. Foi assim, encurtando a história, que nasceu o Zen Peacemakers, uma entidade social que acolhe sem-teto e fornece ferramentas práticas pra que essas pessoas possam reconstruir suas vidas integralmente – e não apenas recebendo teto ou comida.

 

Dentre várias ações do Zenpeacemakers, a mais célebre foi a fundação da Gresystone Bakery, uma padaria/confeitaria que iniciou suas atividades como um local de aprendizagem dos sem teto mas que sempre teve como norte tornar-se um negócio de verdade (com produtos de qualidade, faturamento e clientes de grande porte) mas sem perder o viés social e espiritual (lucros voltados para a qualificação do projeto, o crescimento das pessoas envolvidas como foco principal, etc). A Grestone Bakery de fato cumpre até hoje com esses dois objetivos ao atender empresas como a gigante do sorvete americano Ben & Jerry e continuar formando profissionais que estavam perdidos pela rua. Como diz no site da Greystone, “nós não contratamos pessoas pra fazer brownies. Nós fazemos brownies pra construir pessoas.”

 

 Glassman tirando uma soneca num retiro de rua.

Outra criação interessantíssima do Zen Peacemakers que aparece no livro são os retiros de rua. Resgatando uma antiga tradição espiritual indiana e atualizando-a, Glassman instituiu períodos de treinamento de meditação e compaixão onde seus alunos passam um determinado período vivendo na rua junto com os sem teto, reunindo-se periodicamente ao longo do dia para meditar e trocar experiências. A idéia não é constituir um mero safári. Aos participantes é pedido que não tomem banho e não façam a barba cerca de quatro dias antes do projeto; que participem apenas com a roupa do corpo, a carteira de identidade e uma sacolinha de plástico; que durmam na rua para não ocupar o leito de um abrigo noturno; e que mendiguem o que precisam comer. Esse projeto marca um ponto fundamental da linhagem do Zen Peacemakers: a prática espiritual inserida na vida urbana, a vida urbana como matéria prima para a prática espiritual. Ano passado, em outubro, aconteceu pela primeira vez no Brasil um retiro de rua nesses moldes. Foi em São Paulo e logo mais eu publico o relato de um participante por aqui.

 

 Glassman em Auschwitz.

Os retiros de rua e a Greystone Bakery são apenas uma parte da história. O Zen Peacemakers tem muito mais: tem os retiros de meditação em Auschwitz, tem os cafés Let All Eat… deixo abaixo uma lista de vídeos e leituras interessantes pra quem quiser se profundar. Não conheço muito do trabalho do Bernie Glassman na prática, mas meu contato com ele por meio desse documentário, do livro e de uma série de reportagens em revistas budistas me inspirou fortemente a enxergar a prática espiritual de uma forma mais pragmática e ligada ao dia-a-dia. O que é justamente a parte mais difícil da história, já que a cultura e o imaginário visual tradicionais do budismo (seja tibetano, japonês, indiano, tailandês) frequentemente se tornam um prato cheio pra criação de cenários escapistas. Gente como Glassman Roshi, me parece, tem a grande qualidade de gerar outros cenários, também atraentes e vibrantes, mas aparentemente com raízes bem mais fincadas no chão.

***

Ok, vamos lá.

* Não há livros de Bernie Glassman publicados no Brasil. O jeito é dar um pulo na Amazon. Há edições para o Kindle.

* Talvez o ponto de partida pra quem quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Glassman Roshi seja o site do Zen Peacemakers, não? Para os mais ligados em cultura pop, vale uma especial atenção à seção Lebowskiniana DUDE KOANS.

*  Caso você não tenha conseguido chegar ao documentário inteiro pelo vídeo lá em cima, entre por aqui.

* Vasculhando o Google, se acha muita matéria bacana. Duas bem pra começar: Is That Me Bleeding? na EnlightenNext Magazine e uma sobre os 70 anos do Roshi (em PDF, dá pra fazer o download clicando no botão direito aqui no link).

* Os Zen Peacakers são representados no Brasil pelo médico psiquiatra José Ovidio Waldemar. Mais informações no site do Via Zen.

 

* Em um número recente da revista brasileira Bodisatva, tem uma entrevista com Paco Genkoji do Zen Peacemakers.

* O professor de Bernie Glassman, Maezumi Roshi, também foi professor da Monja Coen, que mantém centros e atividades no Brasil.

 

 

 

Anúncios

Um pensamento sobre “The Zen Dude 2

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s