Black Mirror – a série do agora

Esses tempos, li uma entrevista do psicanalista Contardo Calligaris comentando que os filmes vem substituindo os romances como espelho da psiquê coletiva nas últimas décadas  – alguma coisa assim. Espelho não no sentido de colocar na tela o que somos, mas sim de servir como um instrumento de auto-reflexão mesmo: olhar para a expressão cultural da nossa época e encontrar coisas sobre nós que não víamos conscientemente. Bom, acho que todo mundo vai concordar que o próprio cinema está sendo ultrapassado pelos seriados nesse papel e é a partir desse nível que eu queria falar de Black Mirror.

A série de três episódios foi ao ar no final do ano passado na Inglaterra e é fruto da mente criativa do roteirista, jornalista, produtor e apresentador de TV Charlie Brooker (também responsável pela série de horror Dead Set, que não vi). Fortemente temperados com a peculiar acidez inglesa (que também é uma marca da trajetória de mídia de Brooker), o conjunto de Black Mirror cobre boa parte dos assuntos que antes eram do mundo da tecnologia e que hoje se tornaram vetores da cultura geral: telas onipresentes, gente que vive conectada, superexposição particular, ansiedade crônica, rolos amorosos causados por novas tecnologias, itens virtuais como combustível para a ambição e por aí vai. A lista é bem grandinha, mas cada episódio tem um vetor como o mais proeminente.

Por exemplo, em “The National Anthem”, o tema é a hiperexposição de um fato público e todos seus desdobramentos nas redes sociais, tanto do ponto de vista pessoal quanto na visão da imprensa e do poder público. Através da interação de cidadãos, políticos, jornalistas e policiais com a mídia digital, vamos acompanhando o sequestro da princesa da Inglaterra por um terrorista. As camadas interessantes de Black Mirror começam a se mostrar quando descobrimos que o resgate não é em dinheiro: pra liberar a princesa numa boa, o sequestrador exige como pagamento a humilhação pública do Primeiro Ministro em rede nacional.

Humilhação pública é um eufemismo, mas não vou entregar o jogo demais pra não estragar a surpresa, que é grande. Se você resolver assistir, também não deixe de prestar atenção também na ferramenta que o governo inglês escolhe pra resolver a questão da exposição do Ministro no fim da história: é, talvez, o melhor comentário crítico do episódio e ele tende a ficar enterrado quando comparado com o eixo central da história, a tal da humilhação pública.

Já “15 Million Merits” é uma sátira ambientada em um futuro próximo onde aparentemente todo mundo vive preso em um complexo claustrofóbico. São quartos individuais  minúsculos com paredes revestidas de telas (imagem acima), corredores estreitos e cinzas que levam a refeitórios padronizados e salas onde acontece a única atividade física permitida, que é andar em bicicletas ergométricas pra gerar energia elétrica em troca de créditos. O problema é que esses créditos só podem ser usados de duas formas: dentro do próprio complexo, na compra de comida e entretenimento digital ou então, caso você pedale bastante e gaste pouco, comprando seu golden ticket pra sair dali através de uma espécie de American Idol (onde o Rupert Everett faz uma impagável versão do americano inglês Simon Cowell).

Em relação ao primeiro episódio (que já é bom), aqui temos um salto. Onde “The National Anthem” pressiona e faz pensar abusando de um certo sensacionalismo explícito, “15 Million Merits” quase deprime o espectador ao deixar bem claro que nenhuma metáfora, visão de futuro ou traquitana digital esconde o quanto esta é uma narrativa sobre o presente.  Geralmente, na ficção científica tradicional, isso é um pouco mais bem disfarçado. Nesse caso, a fantasia é propositalmente translúcida.

Mas o melhor, Charlie Brooker deixou pro final. O último segmento, “The Entire History of You”, acompanha, como tantos outros dramas televisivos, a história de degradação de um jovem casal. Só que no epicentro do processo está um dispositivo digital implantado na base do crânio, atrás do ouvido. Esse popular aparelhinho chamado “Grão” registra todas as imagens e sons percebidos pelo usuário 24 horas por dia ao longo de toda sua vida. Mais interessante, as “cenas” da vida podem ser facilmente reprisadas de duas maneiras: no modo “particular”, somente nos olhos do usuário, ou então enviadas para uma tela próxima, um computador ou televisão.

A partir dessa premissa, o episódio (e o protagonista) descem em espiral. Ao questionar a fidelidade da esposa pega em um deslize, o marido empilha replays de cenas casuais do passado procurando o famoso cabelo em ovo que alimenta tantas discussões de relacionamento. A diferença é que hoje em dia as DRs contam com a memória de cada um – sempre cheia de lacunas e fértil em distorções, ou no máximo uma miríade de registros digitais externos. No futuro visualizado por Black Mirror, as cenas gravadas com detalhes no Grão ficam “dentro da cabeça” e servem de apoio para a potencialização de cada mínima picuinha. Aí não tem quem não enlouqueça.

Diz-se (não me lembro quem) que toda análise do amor é autópsia. O último segmento de Black Mirror mostra o perigo da biópsia baseada em todos os registros que a tecnologia nos provê. Mais uma vez, a ficção aqui é científica não por conta de colocar um elemento tecnológico avançadíssimo no coração da narrativa, mas sim por usar códigos da cultura digital para enunciar com clareza uma equação universal dos relacionamentos.

Em resumo: o grande perigo ao assistir Black Mirror é achar que está se falando da acepção popular de ficção científica, que seria “histórias sobre o futuro”. Como eu sublinhei no título e em diversas passagens do post, esta na verdade é muito mais uma série que fala sobre como as coisas são – ou inclusive sobre como elas sempre foram.

***

Black Mirror não saiu em DVD aqui e nem nos EUA, pelo que me consta. Mas tem pra vender na Amazon UK. Também pra encontrar nos torrents da vida, mas aí você é que se entende com o FBI depois.

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17 pensamentos sobre “Black Mirror – a série do agora

  1. Excelente mini série, de deixar sem fôlego do inicio ao fim de cada episódio. Conta a história de muitas pessoas no presente, não num futuro próximo, apesar de tais tecnologias ainda não existir.
    Sua análise está muito boa e seu texto muito bem escrito, parabéns.

  2. Realmente, Black Mirror é tudo isso e muito mais.
    Tive a oportunidade de assistir e achei fantástico e atual. A série fala de todos nós e de um dia muito próximo. O episodio 2 é espetacular e singelo. Muito bem construído e envolvente. Vale a pena conferir todos eles.

  3. Realmente, Black Mirror é tudo isso e muito mais.
    Tive a oportunidade de assistir e achei fantástico e atual. A série fala de todos nós e de um dia muito próximo. O episodio 2 é espetacular e singelo. Muito bem construído e envolvente. Vale a pena conferir todos eles.

  4. > Black Mirror não saiu em DVD aqui e nem nos EUA,
    > pelo que me consta. Mas tem pra vender na Amazon UK.

    Muito bom o review… Idem a serie. Agora, DVD ??!?!…

    Pelamordedeus, a serie vai ao ar em alta definicao, tem versoes MKV em resolucao 720p para baixar na internet, das duas temporadas… Nada a ver assistir em DVD, com baixa resolucao…

    • Rubens, em março de 2013 sim, “tem versoes MKV em resolucao 720p para baixar na internet, das duas temporadas”, mas na época em que o texto foi publicado (4 de abril de 2012 às 11h14) não existia essa opção…

      Pelamordedeus, né?

  5. > Black Mirror não saiu em DVD aqui e nem nos EUA,
    > pelo que me consta. Mas tem pra vender na Amazon UK.

    Muito bom o review… Idem a serie. Agora, DVD ??!?!…

    Pelamordedeus, a serie vai ao ar em alta definicao, tem versoes MKV em resolucao 720p para baixar na internet, das duas temporadas… Nada a ver assistir em DVD, com baixa resolucao…

    • Rubens, em março de 2013 sim, “tem versoes MKV em resolucao 720p para baixar na internet, das duas temporadas”, mas na época em que o texto foi publicado (4 de abril de 2012 às 11h14) não existia essa opção…

      Pelamordedeus, né?

  6. Qual é a ferramenta que o governo inglês escolhe pra resolver a questão da exposição do Ministro no fim da história?

    Seria dizer que o incidente falhou em destruir o ministro?

    Ou seria a farsa de mostrar ao público que ele não se abalou e está tudo bem, mas que na verdade não está, como mostra a última cena em que a mulher vai subindo a escada furiosa.

    Não consegui me atentar ao detalhe que comentou.

    • A ferramenta é a mídia. Se algo do tipo acontecesse aqui no Brasil, por exemplo, eles levariam o cara no programa do Faustão, o fariam chorar, mostrariam como ele foi herói e em menos de cinco anos ninguém lembraria mais.

      É exatamente isso, a farsa, a mídia, o perigo…

  7. Excelente texto. Assisti aos dois primeiros episódios da primeira temporada após ler atentamente sobre eles aqui, agora rumo ao terceiro e ultimo episódio. Parabéns e grata pela dica ainda válida dois anos depois!!!!

  8. Excelente texto. Assisti aos dois primeiros episódios da primeira temporada após ler atentamente sobre eles aqui, agora rumo ao terceiro e ultimo episódio. Parabéns e grata pela dica ainda válida dois anos depois!!!!

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