Picaretagem ou novo formato?

A história é a seguinte: estava eu procurando esse livro de fotos do Chris McCandless (o carionha do Na Natureza Selvagem) na Amazon, quando me deparei com o livro acima. Interessado no tema, fui dar uma vasculhada no conteúdo, na autora e na editora e encontrei o seguinte:

As passagens grifadas dizem o seguinte.

“Por favor atente para o fato de que o conteúdo deste livro consiste primordialmente de artigos disponíveis na Wikipedia e em outras fontes online. (…) (A editora) Project Webster representa um novo paradigma de edição, permitindo que fontes de conteúdo espalhadas sejam consolidadas em livros coerentes, relevantes e informativos.”

É isso mesmo! O livro acima não é nada mais do que uma compilação de artigos pescados na internet que estavam com os direitos liberados em algum nível. E o Chris McCandless não é o único assunto coberto pela autora Dakota Stevens e o Project Websters. Na própria Amazon você encontra DEZENAS de livros no mesmíssimo formato, com o mesmo layout de capa, sobre todo tipo de assunto, desde Ayrton Senna, passando pela cozinha de Porto Rico, tribos nativas dos Estados Unidos, a história do hip hop e Cameron Diaz. E não é só na Amazon, se encontra material similar no Google Books e na Barnes & Nobles. Deve ter em mais lugares, mas eu parei por aí.

Bom, fique curioso com essa história e comecei a procurar algum site ou alguma referência a Dakota Stevens e ao Project Websters, mas não encontrei NADA, nem site da autora, nem da editora, nem mesmo matérias criticando a idéia. O nome de Dakota Stevens, na verdade, aparece mais frequentemente como o personagem dos livros de mistério do escritor Chris Orcutt. Esse Dakota Stevens, apesar de fictício, tem até site do seu escritório de investigação.

Enfim, se alguém encontrar mais alguma coisa sobre Dakota Stevens/Project Websters, por favor avise. Mas o fato é que estamos diante de uma ideia muito interessante. Nos reviews de leitores da Amazon, algumas pessoas avisam o leitor incauto que aquele livro é, de certa forma, uma picaretagem, uma reunião de artigos que qualquer um pode sentar, procurar e reunir pra ler na internet. Mas o que retira um pouco do ar de picaretagem dessa história (descontando qualquer questão de direitos autorais) é que hoje o trabalho de garimpar, fazer curadoria e reunir material de forma que faça sentido é absolutamente valioso.

 

Esses dias, eu pensava justamente sobre isso: é possível aprender sobre tudo na internet, mas um dos grandes problemas é sentar, garimpar e juntar num formato que tenha portabilidade, que seja simples de colocar em algum dispositivo ou imprimir. Esse trabalho – apesar de alguns conhecidos meus gritarem o contrário – é um saco de fazer e são poucas as pessoas que 1) estão dispostas 2) tem as habilidades de garimpagem,  de consolidação e de edição gráfica necessárias pra tanto.

Veja bem: não estou falando de edição online, de portais de conteúdo, de RSS feeders, de blogueiros que curam conteúdo. Estou falando de um conteúdo que em um certo ponto precisa se tornar estático pra ser consumido. Que chega um ponto em que ele pára de ser alimentado, que você corta o fluxo, e ele se torna um objeto (digital ou físico) com início, meio e fim. Um livro ou uma revistas feitos por você com o que você acha na internet. A princípio, é um conceito que soa anacrônico, mas eu diria que ele é mais fundamental hoje do que em qualquer outra época da história da humanidade – porque é um saco você precisando absorver informação sobre um determinado tema e não parar de entrar coisa nova.

Pra dar um exemplo mais prático: eu uso o Flipboard como interface do meu Google Reader (ainda não testei o Currents e nem o Zite). Ou seja, quando eu quero me informar, eu abro o Flipboard no iPad e seleciono a aba que me interessa. O problema é que a informação não só não pára de entrar um segundo como tem um rabicho em direção ao passado. Essa é a grande vantagem de livros e revistas impressos: chega uma hora que a leitura acaba. Esse lado estático e limitado também tem valor de leitura. Eu gostaria de poder “cortar” a alimentação do meu Flipboard de vez em quando. Como o aplicativo não faz isso, eu preciso fazer isso com a minha mente.

Aí está uma ideia pra quem quiser produzir: um aplicativo de uso popular, fácil e intuitivo, que busque conteúdo na internet sobre um determinado assunto e consolide em um documento em formato e layout também popular. Tá picando essa história. Se existe isso, me avisem por favor.

***

Update 1: o Rodrigo Azevedo avisa que dentro da própria Wikipedia existe o Criador de Livros, que cria arquivos em PDF e ODF com artigos dali mesmo. Vou testar e em seguida dou meu veredicto.

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21 pensamentos sobre “Picaretagem ou novo formato?

  1. Acho o formato válido. Antes mesmo de existirem as mídias digitais, já havia muitos livros baseados em notícias de jornais, trabalhos científicos, ou mesmo boatos. Todos esses matérias são passíveis de encontrar com maior ou menor esforço. O editor do livro simplesmente faz esse esforço e oferece o resultado a quem tem preguiça. Se não está infringindo o direito autoral de ninguém, não consigo enxergar problema algum.

  2. Acho o formato válido. Antes mesmo de existirem as mídias digitais, já havia muitos livros baseados em notícias de jornais, trabalhos científicos, ou mesmo boatos. Todos esses matérias são passíveis de encontrar com maior ou menor esforço. O editor do livro simplesmente faz esse esforço e oferece o resultado a quem tem preguiça. Se não está infringindo o direito autoral de ninguém, não consigo enxergar problema algum.

  3. Só é meio verminoso publicar o livro resultante sob copyright, em vez de Creative Commons. A licença da Wikipédia permite isso, sem problemas, mas eu me sentiria verme sequestrando o trabalho dos outros dessa forma.

  4. Só é meio verminoso publicar o livro resultante sob copyright, em vez de Creative Commons. A licença da Wikipédia permite isso, sem problemas, mas eu me sentiria verme sequestrando o trabalho dos outros dessa forma.

  5. Picaretagem? Quando um repórter usa informações de um site como o Transparência Brasil ou um site oficial do governo para fazer uma matéria é picaretagem? Quando um estudante usa uma bibliografia para escrever um ensaio ele está roubando as ideias dos autores? A informação está aí para todos, ajuntá-las e analisá-las é o diferencial.

  6. Picaretagem? Quando um repórter usa informações de um site como o Transparência Brasil ou um site oficial do governo para fazer uma matéria é picaretagem? Quando um estudante usa uma bibliografia para escrever um ensaio ele está roubando as ideias dos autores? A informação está aí para todos, ajuntá-las e analisá-las é o diferencial.

  7. É um pouco como os livros de arte urbana, apenas com fotos tiradas na rua, ao trabalho de artistas, com quem não partilham os lucros.

  8. É um pouco como os livros de arte urbana, apenas com fotos tiradas na rua, ao trabalho de artistas, com quem não partilham os lucros.

  9. Pingback: robô-jornalista - CD

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