Nem todo mundo é mídia

A cultura digital – como toda cultura – é fértil em conceitos que viajam pela conversação social sem um exame mais aprofundado de suas implicações ou de sua veracidade. Um dos exemplos mais recentes e bem forjados é a ideia de que o acesso aos meios digitais de produção e distribuição de conteúdo transformou cada indivíduo em uma central de mídia, uma equação que vem sendo utilizada como argumento de sedução e orgulho nos mais diversos segmentos. Você vê fácil fácil esse discurso na boca de estudiosos de mídia, presidentes de multinacionais, publicitários, políticos conservadores, ativistas sociais, professores de ensino médio, jornalistas, enfim: tem um povo aí que está gostando de declarar solenemente que “hoje todo mundo é uma mídia”, que o cidadão comum tem poderes de geração e distribuição de conteúdo comparáveis ao de grandes grupos de comunicação.

Não dá pra negar que o poder das mobilizações digitais em seus diferentes níveis e campos de influência está mudando a cara de todos os processos sociais, econômicos e políticos. Como publicitário, músico e comentarista de cultura digital, tenho visto com meus próprios olhos esse efeito na estrutura de empresas, no modo de pensar de políticos e na formatação dos mercados culturais. Mas confundir (ou considerar) essa ação coletiva e complexa como a soma de uma ação nivelada de todos os indivíduos é forçar um pouco a barra.

Um cidadão é mídia apenas na medida em que ele sabe articular e/ou distribuir conteúdos. Isso não é uma verdade da cultura digital, mas sim um modelo de funcionamento da maior parte das interações sociais. Por mais democrático e horizontal que seja um ambiente, mesmo numa organização em rede, sempre vai existir uma dependência da mobilização e das habilidades de determinados indivíduos. Não porque eles sejam seres especiais, mas porque costumam abraçar interesses, desenvolvem habilidades específicas, reúnem pessoas ao seu redor ou integram grupos relevantes.

Esta divisão – entre pessoas que articulam/distribuem e as que são mais passivas – é um modelo que acontece também na inserção social offline. Por exemplo, quando uma pessoa almeja participar de um processo político formal, ela terá primeiro que dominar a linguagem e conhecer os meandros deste meio. Para isso, ela provavelmente vai precisar se unir a um grupo de ação política como um sindicato, um partido ou uma associação de bairro. E, então, utilizar as ferramentas disponíveis para a ação – as eleições, o parlamento, os mecanismos de orçamento participativo. Claro que ela pode, também, ir pra uma praça com um cartaz contendo frases de protesto, solitariamente. E se essa atitude angariar seguidores, disparar um movimento, isso já demonstra uma capacidade mínima de articulação e distribuição de conteúdo. O que nos leva de volta ao ponto inicial: é necessário adquirir (formal ou intuitivamente) um conhecimento mínimo da linguagem e do funcionamento destes mecanismos pra deixar de ser espectador e tornar-se algo como uma mídia.

No ambiente digital é mesma coisa. A maior parte das pessoas não pode ser considerada mídia porque não articula conteúdos de forma consistente e sua rede de distribuição (ou a influência de seus contatos) é restrita. A sociologia há um bom tempo diz isso e o jornalista Malcom Gladwell tornou pop a noção de que os conteúdos que se espalham pelo tecido social dependem da participação de figuras com características e conexões específicas. Desse ponto de vista, o grande benefício das cultua digital para a democracia não é empoderar a todos, mas empoderar mais do que alguns poucos. A boa novidade para nós se enunciaria melhor assim: entre os grandes grupos de mídia e o cidadão comum hoje existe, felizmente, uma estratificação rica de poderes e de potencialidades.

Um bom exemplo disso é o trabalho de grupos de ativistas digitais com dados governamentais disponibilizados na internet. A grande vantagem desse tipo de transparência não é que todo cidadão possa acessar os gastos do seu deputado ou o orçamento de seu município, mas sim o potencial de atuação de grupos ferramentados e organizados (como o Transparência Hacker), que sabem extrair os dados mais significativos e traduzir em apresentações facilmente compreensíveis ou em aplicativos úteis.

Isso não quer dizer que as pessoas individualmente não estejam mais empoderadas, mas é muito mais relevante afirmar que esse segmento intermediário de representação é que teve sua força multiplicada. Quando se fala que todo mundo é mídia, na verdade está se falando dessas pessoas ou grupos que reúnem as aspirações de seus pares, de seu entorno (físico ou ideológico), e que promovem ação ou reflexão social com um poder de conexão e disseminação nunca antes visto na história. Claro que isso beneficia indiretamente a todos, mas daí a considerar cada cidadão como mídia existe uma distância importante a ser considerada.

Pode parecer besteira implicar com a expressão “todo mundo é mídia”, afinal, dã, é só “modo de dizer”. Mas esses “modos de dizer” geralmente calcificam ideias no imaginário popular e o estrago a longo prazo costuma ser grande. Porque mitificar esse conceito pode gerar uma certa negligência com a necessidade de treinar e educar as pessoas para um uso produtivo dos meios digitais de produção e distribuição.

Se as revistas semanais, os políticos fisiológicos, os palestrantes de ocasião e as marcas sem personalidade querem fazer isso, tudo bem. Mas no meu megafone, na minha central de mídia, a conversa vai ser outra.

***

Todas as imagens daqui.

Post inspirado no papo que participei dentro da programação do Observatório Fora do Eixo.

Anúncios

5 pensamentos sobre “Nem todo mundo é mídia

  1. “Um cidadão é mídia apenas na medida em que ele sabe articular e/ou distribuir conteúdos.”

    Realmente. Crer num conceito absoluto de “posto, logo existo” e’ bem equivocado. Vide tanta besteira compulsiva e simplesmente retuitada/compartlhada, sem adicionar nada, sem reflexao alguma, e tantas vidas
    idilicas e perfeitas no instagram, enquanto neguinho ta na real comendo pao com ovo ou tomando rivotril num quarto escuro…

    Outro ponto, muito pouco citado, e, na verdade, amplamente ignorado ou curisamente encarado, alem do nao saber articular e/ou distribuir conteúdos, e’ o nao QUERER fazer isso. O fato do Twitter, FB e afins existirem (FourSquare, vade retro, Satana! :-)), nao quer dizer que eu TENHA QUE publicar minha vida online. Ou que nao exista ou que seja doente ou um ninguem no mundo por causa disso.

    Nao, nao sou ignorante (embora pouco articulado 😉 ou analfabeto digital; vivo disso, na verdade, mas tenho perfis com nomes ficticios e/ou com 0 (zero) amigos, apenas para adminstrar as fanpages de clientes, postar DM para os mesmos, ou testar formatos de conteudo antes da publicacao oficial. Tambem nao me considero doente por nao querer compartilhar minha vida “particular” (como se costumava falar 😉 … ainda existe esta palavra?) seja com quem for, a nao ser com quem ja faz parte dela… E por que teria que ser em tempo real? (Se tem alguma coisa que interessaria a um ou alguns amigos, envio para eles, eles respondem com suas impressoes. Nao, nao tenho 500, mil, ou 3.000 amigos, ninguem tem, e todos sabem disso) Po que eu deveria querer postar onde estive ontem com minha namorada, o que comi, se gostei do show… E por que eu deveria ter que deixar um celular ligado durante um almoco ou estar conectado o tempo todo? Quantas das ultimas 1000 ligacoes ou emails que voce recebeu eram mais importantes do que o momento que momento que voce estava vivendo, ou mesmo dignos de mencao? voce se lembre de 1, 2 ou tres deles?

    Sim, tenho nessidade de me expressar, como todos, aqui estou comentando. mas onde entra minha identidade nisso? Tanto faria se assinasse aqui Joao, Jose, ou Dwarf. Em peticoes e abaixo assinados que me interessem e se faca necessaria a identificacao, assino embaixo. (Tenho ansia de vomito cada vez que esciuto a historinha d empresas que vasculham a vida digital de candidatos a emprego… Que vida, gente…)

    Chutando, acho que daqui a alguns anos toda essa avalanche de exposicao vai ser lembrada com certo constrangimento por muitos, ou por outros, como vemos hoje a revolucao sexual, o amor livre, dos hippies, tiveram seu momento historico, trouxeram avancos, sim, mas depois todo mundo, a grosso modo, encaretou. Voce nao ve geral falando, na saida do trabalho: “Ai, mano, vai rolar uma suruba hoje la casa, pinta la, po, do RH vai todo mundo”. Nao, seus netos estao hoje 40, 45 anos depois, na maioria, casandinho e imersos na monogamia (farsesca ou nao), decorando os quartinhos dos filhos (Ah, e postando desde ate’ o parto no twitter, em real time, claro!)

  2. Pingback: Nem todo mundo é mídia - SimViral - Ideias que contagiam

  3. Pingback: Blog BigHouseWeb | Mídia Ninja no Roda Viva: Jovens X Dinossauros! |

  4. Muito bom o texto. Entrou com sola no peito do pessoal que ainda acredita naquela história da carochinha de “todo mundo é mídia”, “jornalismo cidadão” e “web 2.0”.

    E está mais do que certo em implicar com essas frases que são apenas “modo de dizer”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s