Interfaces

Eu já escrevi mais de uma vez aqui (e costumava falar no meu programete na Oi FM): esse tempo que a gente vive às vezes parece querer posar de sofisticado, com seus gadgets e aplicativos, mas na verdade é uma época bastante tosca. A maior prova está bem na frente dos nossos olhos todos os dias. São exemplos criados e mantidos por empresas gigantescas, milionárias e poderosas, mas que não tem como esconder a inevitabilidade de sua grosseria.

Preste bem atenção na sua tela quando você recebe os resultados de uma busca do Google. O que é aquilo? É uma LISTA de links em azul subscritos por uma URL em verde e acompanhados por descritivos em preto com datas em cinza. Esse descritivo, por sua vez, é composto por seções ou trechos do texto do site em questão – dependendo do que os robôs do Google conseguiram entender da organização do código daquela página. Sim, eu sei, é absolutamente prático, funcional, atinge seus objetivos e é incrível que o Google consiga produzir essa lista. Mas, ainda assim, é uma lista cheia de elementos pouco amigáveis visualmente – urls, dados numéricos e textos contraídos.


Com o Facebook não é diferente. A interface da rede social mais popular do mundo se transformou no computador da batcaverna (versão do seriado antigo), com todas aquelas luzinhas piscando, aquelas três colunas repletas de feeds de natureza diferente, uma espécie de central de encanamento de informação vertendo água multicolor sem parar. Eventos, amigos, notícias, mensagens, imagens, textos, números, vídeos, aplicativos, propaganda, está tudo lá, sem mais nem menos, jogado na sua cara de uma vez só. Tipo: você quer socializar? Então TOMA, agora se resolve aí pra onde você vai olhar e o que vocês vai fazer com isso tudo. BOA SORTE.

É claro que existem sites com um trabalho de interface e usabilidade mais avançado (dê uma olhada na tentativa do Qwiki), mas eu queria justamente pegar dois sites populares pra gente ver como as pessoas no geral estão se relacionando com conteúdo digital através de interfaces cansativas, pouco amigáveis e até mesmo agressivas. Isso que eu nem entrei no assunto “celular”. Não é segredo pra ninguém, como bem comentaram o Matias e o Tiago Dória, que os grandes players digitais do mercado mundial também ainda não entenderam pra valer o ambiente móvel.

Na verdade, parece que quanto mais se tenta tornar a internet amigável, mais distante ela fica. É como se um amigo seu começasse a comprar roupas e mais roupas, a trocar de estilo todo ano, fazendo pesquisas sobre como você o vê e tentando agradar seus olhos. Curiosamente, seu amigo acaba se distanciando ou estressando você com essa função toda. Numa situação assim, tem horas que você começa a desejar que a pessoa simplesmente volte a ser aquele amigo da época do colégio, quando as coisas eram mais simples.

Mas a questão aqui não é nostalgia e sim funcionalidade. No artigo Graphic Designers Are Ruining The Web, o articulista do Guardian, John Naghton, traz o site do Diretor de Pesquisas do Google Peter Norvig como exemplo de um minimalismo funcional que parece ter sido esquecido até mesmo pelo Google. Sob muitos aspectos, o site de Norvig é feio e inspirado nos antigos repositórios de links da web. Mas ele também é uma aula sobre como ir direto ao assunto e retirar tudo aquilo que só atrapalha. Para o grande público – eu incluso – o Norvig.com poderia ser um pouco menos duro e poluído. Mas vamos convir que o seu conteúdo é, em grande parte, direcionado para o povo mais hard da tecnologia, acostumado com esse visual. De qualquer forma, é um site menos estressante do que o Facebook, por exemplo. E, embora seja mais lotado, tem menos elementos visuais inúteis que os resultados de busca do Google.


Outro ponto importante nessa conversa é o fato do público da internet estar aos poucos envelhecendo. Hoje, no Brasil, apenas 7% das pessoas que acessam a internet tem mais de 60 anos, mas claro que esse número vai crescer organicamente nos próximos anos (veja resultado da pesquisa da Comscore aqui). A terceira idade apresenta desafios particulares para os designers de interface, algo totalmente ignorado pelos sites atuais. Nunca vou me esquecer do Eduf contando sua experiência ao desenhar a interface do site de um centro budista e o alerta que recebeu da diretora do centro: “temos muitos frequentadores idosos, você precisa aumentar as fontes”. Na web, hoje, tudo é muito minúsculo. O design de serviços como redes sociais, home banking e instant messengers definitivamente não foram feitos para pessoas que tem vista cansada ou qualquer outro tipo de dificuldade de leitura.

Talvez os exemplos que eu tenha trazido sejam muito específicos e nichados, mas eles são muito simbólicos. O fato é que as conexões digitais evoluem numa velocidade maior do que a qualidade da experiência das interfaces em geral. E me parece justamente que as interfaces dos sites mais populares do Brasil e do mundo respondem mais às necessidades dos seus proprietários e acionistas do que às necessidades dos usuários. Falando assim, parece óbvio e ingênuo concluir isso. Mas também é bom lembrar que todo o marketing dessas grandes corporações é calcado na customização, numa suposta entrega “do que você quer e precisa”.

Como diziam os antigos sábios: arran, sei.

Anúncios

6 pensamentos sobre “Interfaces

  1. isso aí mini, toscoweb for ever!

    engraçada qd vc aciona os mecânismos de feedback de algum portal e a resposta é sempre, vc q não conseguiu achar…

  2. isso aí mini, toscoweb for ever!

    engraçada qd vc aciona os mecânismos de feedback de algum portal e a resposta é sempre, vc q não conseguiu achar…

  3. Muito bem colocado, Mini. Há tempos venho observando esse aspecto bizarro das interfaces da web, que atendem não sei bem a quem. Isso que nem falamos do povo todo que trabalha com software aberto, que é muito bem intencionado, mas acha que estamos na matrix e que o máximo do máximo das interfaces seriam as telas pretas com pixels verdes. Abraços!

  4. Muito bem colocado, Mini. Há tempos venho observando esse aspecto bizarro das interfaces da web, que atendem não sei bem a quem. Isso que nem falamos do povo todo que trabalha com software aberto, que é muito bem intencionado, mas acha que estamos na matrix e que o máximo do máximo das interfaces seriam as telas pretas com pixels verdes. Abraços!

  5. A crítica ao Facebook eu entendo e corroboro. Até comentei sobre isso hoje mesmo com uns colegas. Mas o Google??? De todos sites que conheço, é o mais funcional. As informações são todas úteis. E são, do meu ponto de vista, bem organizadas. Além de carregar rapidamente.

  6. A crítica ao Facebook eu entendo e corroboro. Até comentei sobre isso hoje mesmo com uns colegas. Mas o Google??? De todos sites que conheço, é o mais funcional. As informações são todas úteis. E são, do meu ponto de vista, bem organizadas. Além de carregar rapidamente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s