Habitante Irreal de Paulo Scott

Não escrevo sobre esse livro pra resenhá-lo, localizá-lo no cenário cultural, comentá-lo. Escrevo expliciamente pra promovê-lo – especificamente aos que não foram impactados pelas resenhas e comentários elogiosos do ano passado. Ao que me consta, Habitante Irreal foi considerado um dos lançamentos mais importantes e consistentes de 2011 e é um romance que teve sobre mim esse efeito de engajamento. Não me bastou ler e curtir – quero passar adiante, aspiro que outras pessoas vivam uma experiência tão interessante quanto a que vivi lendo suas 264 páginas.

E que experiência é essa? É acompanhar, pelo lado de dentro, uma trajetória que começa com o desencanto de um jovem estagiário de advocacia e militante do PT, passa por uma temporada na Londres do início dos anos 90 e termina com um coquetel de arte performática e legado indígena. E, o mais impressionante tecnicamente, Scott faz a ligação entre esses cenários através das lentes de dois indivíduos que são testemunhas e eventuais protagonistas de ondas históricas – essa é a revisão, a cobertura, o “passar a limpo” da virada dos anos 80 para os 90 e a entrada nos anos 00 do ponto de vista da política e da cultura tão comentados em resenhas literárias. Pode ser, claro, que eu estivesse sensível na semana que me lancei nessa leitura, pode ser que eu esteja exagerando. Mas suspeito fortemente que Paulo Scott conseguiu gerar um daqueles livros interativos – você vai lendo e a história vai apertando botões em locais ermos do inconsciente coletivo.

 

Como naqueles desenhos animados em que cavando no Ocidente você chega, por um túnel, ao Oriente, o Paulo do romance cava tão fundo (às vezes intencionalmente, às vezes por necessidade visceral) que alcança uma outra superfície, que não é sua, mas de todos que compartilharam os anos de sua juventude. A conexão entre os terremotos particulares e as mudanças tectônicas de momentos culturais é matéria prima comum e aceita da literatura, do cinema, da música e das artes em geral. O que destaca certas obras nesse tipo de empreendimento (me veio à cabeça Hanif Kureishi e Stephen Frears) é justamente a capacidade de ligar pontos entre camadas veladas dos personagens e do processo histórico sem precisar desvelá-las. Em Habitante Irreal eu sei que isso acontece, o processo é visível, mas não consigo mapear tais pontos (sem escrever uma monografia) tamanho é o mergulho interno que Scott promoveu.

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E, claro, também tem a matemática, os cálculos.

Os habitantes de uma época costumam achar que são definidos coletivamente pela soma de feitos de sua geração. Porém, mais provavelmente, o que destaca um turma da outra é a última demão de verniz, uma revisão tardia (na literatura, na história, no jornalismo) que condena compulsoriamente certas formas de ação à aposentadoria por invalidez.

Olhando para trás esses habitantes se enxergam como irreais. Mas eles talvez estejam apenas pegando pesado demais com eles mesmos.

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Desenho: Eduardo Nasi

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