As delícias e os delírios do ativismo digital

A Avaaz, como muitos de vocês sabem, é uma organização global, não-governamental, voltada para o ativismo digital. Criada pelo canadense Ricken Patel, um sujeito com um largo currículo prático e acadêmico na área de política públicas e ativismo social, a Avaaz vem se destacando tanto pelo impacto que vem conseguindo quanto com o formato das suas práticas. Repetidas vezes, são citados em artigos e estudos como exemplo de ativismo digital, como uma instituição de traços contemporâneos e de uso inteligente e produtivo da conexão mundial em rede para resolver assuntos sociais.


http://gu-embedded-video.appspot.com/?a=false&u=/media/video/2012/apr/12/ricken-patel-avaaz-syria-social-media-video

Nos últimos anos, eles amealharam nada menos do que 16 milhões de membros no mundo todo que contribuem especialmente com seus emails em abaixo-assinados, mas também espalhando mensagens sucintas sobre temas complexos, ajudando a chamar a atenção de cidadãos, de governos e da mídia para questões que costumam receber 10 ou nenhum segundo nos grandes noticiários: lei anti-homossexuais em Uganda, crise de alimentos em Serra Leoa, ciclone em Mianmar, banimento de bombas de fragmentação, ocupação do Tibet pela China, são alguns dos assuntos que dividem espaço com outros mais conhecidos como a Lei da Ficha Limpa, a exploração indevida da Amazônia, o Aquecimento Global e a permanente rusga entre israelenses e palestinos.

A maior parte dos elogios à Avaaz se direcionam ao seu sistema de engajamento: ele é prático, rápido, simples e conta certamente com um importante background de atividades físicas de sua diretoria executiva, pessoas com trânsito no universo das ONGs globais, dos empresários engajados e dos políticos com quem tem afinidade. Mas meu ver, o grande ensinamento da Avaaz não está nessa capilaridade e facilidade de conexão. A grande inteligência por trás desse trabalho está na capacidade de traduzir questões complexas para alguns parágrafos de destaque nos seus disparos de email.

Toda campanha da Avaaz parte de um texto raiz que ocupa entre uma e duas laudas de uma página do site da instituição. Esse texto é replicado nos emails que são distribuídos aos membros da rede. Ambos os textos tem uma pecularidade: trazem um pequeno quadro à direita com um rápido resumo sobre a questão. É um recurso clássico do jornalismo (o famoso olho) que se soma a outro subterfúgio interessante: o texto maior é coalhado de negritos que destacam pontos importantes da informação. Falando assim, parece óbvio, mas a maior parte da comunicação digital hoje ignora essa forma clássica e eficiente de organizar a informação, que nada mais é do que fornecer um resumo consistente como caminho para a pessoa que porventura se interessar pela história completa.

Não destaco essa questão da Avaaz apenas como um método de venda de uma causa ou de uma história, mas da necessidade de organização de informação que vivemos no mundo hoje. A maior parte das empresas e das pessoas se comunica ignorando o oceano de outros textos e imagens que inundam as telas de nossos companheiros de planeta. Não tenho dúvida de que um dos pilares do sucesso da Avaaz se baseia na compreensão dessa dinâmica – de novo, tão óbvia mas esquecida pela maior parte das instituições (sociais ou não) quando querem passar uma mensagem.

***

Não gosto de escrever nada sem dar uma investigada antes. Apesar de assinar a lista da Avaaz há alguns anos, só esta semana me dediquei a pesquisar mais a fundo sobre eles e aprendi mais uma ou duas lições a respeito de ativismo digital. Não sendo dinheiro para agradar todo mundo, a Avaaz tem obviamente sua parcela de críticas e na minha slackinvestigation (investigação com a bunda na cadeira) percebi que elas se dividem basicamente em três grupos: um vai na linha de crítica ao slacktivism, ao ativismo de bunda na cadeira, de dizer que o que a Avaaz faz não é tão eficiente assim, que eles tem pouco conhecimento de campo das questões exploradas em suas campanhas digitais. Outro grupo (me parece que mais recente) vem criticando o que seria um discurso arrogante e messiânico da instituição. Um terceiro grupo são de acusações de ligação da Avaaz com este ou aquele movimento político.

* Perfil do Ricken Patel em um site americano confessadamente de direita.

* Perfil do Ricken Patel no The Times of London

* Crítica do Guardian a uma petição da Avaaz para a Líbia

* Resposta do Ben Wilker da Avaaz à crítica do Guardian

* Post crítico à Avaaz da Jilian C. York da Electronic Frontier Foundation

* Post do Information Activism sobre diversos casos de ativismo desastrado (com uma lista de leituras interessantes ao final do post)

* Carta-aberta e crítica do poeta e jornalista argentino Gabriel Impaglione

O que aprendi nessa bateria de leituras? Que mesmo eu, que me considero um cara esclarecido, cometi um erro básico nessa história toda: já assinei dezenas de petições da Avaaz e inclusive faço uma pequena doação mensal sem ter feito uma investigação mais profunda da sua história. Claro que eu já havia googleado sobre os caras e achei sempre boas recomendações. Mas não fiz o mergulho que fiz dessa vez, para escrever o post. Mergulho esse que me colocou alguns pontos de interrogação na cabeça. Não vou deixar de assinar e acompanhar o trabalho da Avaaz, mas vou ser mais cuidadoso.

***

A primeira lição que aprendi nesse processo, ingenuidade minha ou não, é a seguinte.

Durante décadas, quem lida com comunicação criticamente foi educado (ou educou-se) a pensar criticamente a respeito dos GRANDES VEÍCULOS, das GRANDES CORPORAÇÕES, dos GOVERNOS PODEROSOS. A proclamada inversão de poderes que a internet teria provocado, colocando indivíduos, cidadãos no controle de seus próprios imperiozinhos de mídia particular (algo que questionei, inclusive, no post Nem Todo Mundo é Mídia), exige também que passemos a ser críticos com os indivíduos e cidadãos que estão agora transmitindo por conta própria. Se eu desconfio da Rede Globo, por que não vou desconfiar do blog daquele fulano que está indicando este serviço ou aquela banda? De novo: parece óbvio, mas não é. Tende-se a acreditar que veículos independentes são mais isentos que grandes empresas, mas a verdade é que precisamos desenvolver também um filtro para este tipo de transmissão.

Segunda lição.

Pouquíssimas pessoas tem tempo, disposição, intenção ou vontade de fazer uma investigação profunda para checar as mídias cidadãs que estão consumindo. Porque esse é o tipo de coisa que não basta parar na primeira página do Google. Precisa ser (algo que não sou) meio jornalista: cruzar informações, descobrir a origem e a intenção de determinadas publicações, as ligações que não são tão claras e assim por diante. Mais uma vez, a maior parte do público fica na dependência dos cri-cris, dos chatos, dos furungadores que escavam e reviram a terra dos assuntos de determinados nichos.

(continua semana que vem)

Anúncios

10 pensamentos sobre “As delícias e os delírios do ativismo digital

  1. Muito bom seu texto, parabéns. Eu também assino muitas petições do Avaaz, porém (já me ocorreu isso há tempos) indaguei sobre a eficácia e notabilidade deste meio de ativismo. Continuo com essa dúvida, acabei de assinar um abaixo-assinado sobre o imposto devido aos 14º e 15º salários dos senadores. Uma pessoa que diz ser presidente da OAB-RJ garantiu encaminhar essas assinaturas “aos senadores diante de toda mídia nacional.” entretanto a pessoa não citou seu nome, e considerei isso muita pretensão da parte dela, como assim, qual a solidez desse argumento? Falta um pouco de esclarecimento, o que gerou minha dúvida. Não sei se você sente o mesmo, mas isso me fez pensar se realmente estamos tomando uma atitude válida para alterar um quadro ou se estamos a retirar um peso de nossas consciências, por não sermos realmente ativistas, fisicamente falando, de sair às ruas e lutar pelos direitos.

    • Tive essa msm dúvida em relação a esse abaixo assinado especificamente. Pesquisei um pouco na internet e nada relacionou o presidente da OAB-RJ com esse abaixo assinado.

  2. Já assinei petições da AVAAZ também mesmo com dúvida da sua eficacia, mas o que me incomoda mais é o que eles fazem com as doações, li várias reportagens de crítica e nenhuma esclarece isso, é muito dinheiro arrecadado, e pelo o que li o destino do dinheiro das doações não é esclarecido no Imposto de Renda da ong nos Estados Unidos. Vou continuar procurando este esclarecimento…

  3. Também já assinei várias petições do Avaaz Inclusive acabei de assinar esta última, para tirar Renan Calheiros do Senado. Mas confesso que tenho minhas dúvidas, afinal de contas ele não pedem nenhuma carta de identificação como CPF ou RG. Assino mesmo para causar um certo alarde!!! Pq do contrário não vejo muita valia nisso tudo

  4. Admito, faço parte do primeiro e também do segundo grupo de críticos. O que já foi conseguido com os abaixo-assinados da Avaaz? Aliás, o que já foi conseguido com abaixo-assinados de Internet em geral?

    E o pior é que a organização se acha. Ela acha mesmo que foi ela que derrubou a PEC37, que foi ela que criou a Ficha Limpa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s