As delícias e os delírios do ativismo digital – PARTE 2

Post anterior aqui.

Talvez o grande exemplo dos delírios & perigos do ativismo digital este ano foi o case Kony 2012. Relembrando: Kony 2012 era um curta-metragem ONG Invisible Children produzido para chamar a atenção do mundo para as atividades de Joseph Kony na África Central. Segundo descobre-se pelo vídeo, Kony é o líder de uma milícia que mistura guerrilha com misticismo e que tem como uma das ferramentas o recrutamento de crianças – como soldados e como escravos sexuais. Pra resumir uma longa história, o cara apavorava a região com histórias de crueldade de arrepiar os cabelinhos da nuca. Como muitas causas fora do escopo da grande mídia ocidental, a história de Kony só ganhou atenção a partir do sucesso do mini-documentário da Invisible Children na internet, bem como seu impacto junto aos meios de comunicação tradicionais.

Kony 2012 é considerado o maior viral da história da internet, tendo atingido mais de 100 milhões de views em menos de uma semana. Toda essa visibilidade foi acompanhada de duas grandes reações técnicas: numa, centenas de pessoas ligadas a meios digitais aplaudindo a eficiência do filme. Eu, que trabalho com publicidade, fiquei impressionado na época como tantas pessoas replicaram não apenas o vídeo em si, mas também notícias sobre a viralização de sucesso. De outro lado, mais sério, Kony 2012 enfrentou uma onda de críticas quanto à abordagem do assunto. A Invisible Children foi acusada de manipular fatos e de simplificar a questão real, colocando em dúvida a ética da organização e a validade da viralização de um conteúdo controverso na sua lisura.

(Mais detalhes? O verbete Kony 2012 da Wikipedia parece bem completo no que diz respeito a trazer os dois lados do caso)

Independente de se questionar o vale-tudo na busca pelo apoio de uma causa, o que não é de forma alguma problema exclusivo do ambiente digital, valem as mesmas reflexões que coloquei no meu post anterior: quantas pessoas pararam pra pensar dois minutos antes de replicarem um conteúdo tão sedutor? O quanto estamos condicionados a replicar algo que nos apele esteticamente? O quanto estamos dispostos a investigar, no Google que seja, antes de sair repostando algo para nossos amigos?

As facilidades da cultura digital tem dessas armadilhas: se por um lado bastam alguns cliques pra desmontar uma história furada, também é bem mais fácil produzir um conteúdo que pareça sério e inequívoco. Qualquer um com uma câmera de custo razoável e um bom computador produz algo com cara de inquestionável. É o que eu disse e repito: se fomos incentivados pelos pensadores mais críticos a olhar com desconfiança para a produção dos grandes conglomerados de mídia – e muitos de nós aprendemos – temos que voltar esse aprendizado agora também para a produção independente e pulverizada que recheia a internet.

Outra dica que fica: a cultura digital nasceu e cresceu com um discurso otimista, construtivo e colaborativo. Infelizmente, uma mutação aconteceu nos últimos anos e uma linguagem messiânica e prepotente acabou infiltrada no tecido das manifestações digitais. Virou lugar comum, virou clichê, ficou fácil dizer que se quer mudar o mundo. Ficou chato, repetitivo e metido. Entrou na prateleira da auto-ajuda e das palestras motivacionais baratas. É o efeito filtro solar disfarçado de modernidade. É a maldita auto-ajuda hipster. É ela que seduz tanta gente e desbloqueia um certo senso crítico que poderia fazer pensar por dois minutos antes de se passar algo adiante.

Chega, né?

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3 pensamentos sobre “As delícias e os delírios do ativismo digital – PARTE 2

  1. Excelente texto, Mini!

    Só queria comentar o último parágrafo, disseste que houve uma mutação na Internet. Acho que não foi bem uma mutação de caráter da Rede, porque a Internet é feita de humanos e os humanos têm essas facetas do bem e do mal. Foi um caminho natural.

    Me fez lembrar quando eu dei meus primeiros passos na Rede, usando email no Vortex da UFRGS e tínhamos um extremo cuidado em não desperdiçar recursos. Uma das práticas era editar o texto da mensagem que estávamos respondendo para não enviar bytes inúteis pela banda (recurso caríssimo naqueles dias). Isso nos dava chance para responder não só com calma, mas também refletir sobre o que estava se escrevendo.

    Hoje, com a velocidade que se conquistou, estamos também querendo ser cada vez mais rápidos, “sem tempo” para algumas coisas. Nosso ímpeto nos domina e buscamos outras formas de avaliar que é bom ou ruim.

    Participei da campanha do Avaaz pelo projeto Ficha Limpa, mas as demais campanhas não me foram interessantes ou não me sensibilizaram de maneira a eu querer me engaar mais. Interessante que o Avaaz me parece uma versão digital da Anistia Internacional e eu fui colaborador desta última, bastante tempo.

    Um abração!

  2. Excelente texto, Mini!

    Só queria comentar o último parágrafo, disseste que houve uma mutação na Internet. Acho que não foi bem uma mutação de caráter da Rede, porque a Internet é feita de humanos e os humanos têm essas facetas do bem e do mal. Foi um caminho natural.

    Me fez lembrar quando eu dei meus primeiros passos na Rede, usando email no Vortex da UFRGS e tínhamos um extremo cuidado em não desperdiçar recursos. Uma das práticas era editar o texto da mensagem que estávamos respondendo para não enviar bytes inúteis pela banda (recurso caríssimo naqueles dias). Isso nos dava chance para responder não só com calma, mas também refletir sobre o que estava se escrevendo.

    Hoje, com a velocidade que se conquistou, estamos também querendo ser cada vez mais rápidos, “sem tempo” para algumas coisas. Nosso ímpeto nos domina e buscamos outras formas de avaliar que é bom ou ruim.

    Participei da campanha do Avaaz pelo projeto Ficha Limpa, mas as demais campanhas não me foram interessantes ou não me sensibilizaram de maneira a eu querer me engaar mais. Interessante que o Avaaz me parece uma versão digital da Anistia Internacional e eu fui colaborador desta última, bastante tempo.

    Um abração!

  3. Oi Marco

    Também tenho essa impressão do desperdício. É meio como água encanada em área urbana: a gente usa como se fosse garantido e acaba meio mal acostumado… falta água um dia e ficamos sem saber o que fazer…

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