A falta de mão de obra qualificada para escrever

Eu sempre tive uma desconfiança (ou uma crença ou uma esperança) que uma hora a questão dos textos mais longos e mais consistentes na internet ganharia um novo gás. Ano passado, escrevi pro Minimalismo (o programinha diário que eu fazia na Oi FM) que: “Se você ainda consegue manter a sua atenção fixa num assunto, num vídeo de mais de 10 minutos, num livro de mais de 100 páginas, saiba que essa talvez seja uma habilidade muito valorizada no futuro. Umas das regras clássicas da economia é que a escassez de um produto tende a aumentar o seu valor. Seria plausível pensar que, daqui uns anos, as pessoas que tem a capacidade de reter a atenção por mais tempo serão pagas pra assistir determinados conteúdos mais longos e depois contar pros outros que vão estar distraídos com mensagens de 140 caracteres.”

Pois esses dias, uma matéria que chegou a mim via Padma Dorje cobre um outro lado desse assunto: num momento em que textos maiores e mais consistentes parecem começar a despertar interesse (de sites que vivem de snack culture, como Tumblr e BuzzFeed), o problema não é encontrar quem vai ler os queridos, mas sim quem vai escrever. Essa é a tese rapidamente defendida pela editora do PandoDaily, Sarah Lacy, no artigo “E de repente todo mundo quer conteúdo tipo New Yorker. Mas quem vai escrever?” Traduzindo muito livre e rapidamente:

“Ao que parece, trabalho longo de boa qualidade é tendência novamente. Existe um punhado de oportunistas cuja razão de ser é escrever e publicar textos longos – nós somos parte disso, assim como a NSFWCORP e mesmo o The Verge, que está produzindo coisas escritas espetaculares. Enquanto isso, você tem as empresas que você menos esperava investindo nesse segmento. Há o Buzzfeed, que desfruta de uma vida esquizofrênica como fornecedor de fotos de gatos e furos políticos, anunciando que vai se focar em textos jornalísticos de maior fôlego e agora o Tumblr, que nem mesmo é uma empresa de conteúdo, entrando em cena.”

Segue Lacy:

“Infelizmente, os últimos seis anos de conteúdo commodity gratuito na internet e as redações da velha mídia encolhendo conspiraram para destruir a oferta de bons jornalistas investigativos e os contadores de longas histórias. Essas não são disciplinas inatas e não tem havido uma demanda para treinar pessoas nessa especialidade.”

Então o problema da falta de braços e cabeças pra escrever texto mais consistente encobre um outro problema: a falta de pessoas e ambientes par treinar esses braços e essas cabeças. Lacy conta que a sua trajetória de jornalista clássica, sendo forjada pela passagem de anos e anos em redações de diários menores de pequenos cidades até chegar um grande veículo, não existe mais. A maior parte dos novos jornalistas chega direto em uma grande redação pra ser blogueiro ou já vem blogueiro ou já nasce com um pequeno império de mídia particular, sabendo como conquistar e ativar audiência numérica, mas raramente como entreter e informar uma audiência mais exigente e de aspirações mais profundas – pois isso, em geral, exige um processo de mentorização, de ensino, de convivência com contadores de histórias seniors.

A saída, então, passaria justamente pela construção desses ambientes onde se convivam duas habilidades tão valiosas e tão poderosas: a habilidade de brincar com as novas mídias e suas possibilidades combinada com a arte de investigar, produzir e contar boas histórias consistentes.

Como diz Lacy:

Em dez anos, o grande desafio da indústria foi totalmente invertido. Antes, tínhamos todo esse talento e ninguém pra pagar por ele. Agora é justamente o contrário.

Finalmente, quem sabe, a oportunidade chegou pra quem não abraçou a snack culture como religião.

***

Update: o Padma Dorje também lembrou do texto dele “Desconfie da Leitura Fácil”, relacionado a, tipo assim, essa coisa toda aí.

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12 pensamentos sobre “A falta de mão de obra qualificada para escrever

  1. nossa, que alívio ler isso.
    meu maior sofrimento hoje, como pesquisadora e planejadora, é ter que transformar páginas e páginas de informação e conteúdo mais ‘profundo’ em redação reta e direta ao estilo de texto publicitário.
    todos acham mais atraente, menos eu.

  2. nossa, que alívio ler isso.
    meu maior sofrimento hoje, como pesquisadora e planejadora, é ter que transformar páginas e páginas de informação e conteúdo mais ‘profundo’ em redação reta e direta ao estilo de texto publicitário.
    todos acham mais atraente, menos eu.

  3. Acho que o principal problema é que artigos longos / ensaios demandam tempo pra ser elaborados.

    Ou seja: você só escreve quando tem tempo sobrando ou quando é bem pago.

    Fora que, quando você tem internet disponível o dia todo, tende a ficar pulando de clique pra clique. Entra nesse framework mental dos constantes pequenos shots de dopamina.

    O que estimula a produção de textos estilo linkblog (Daring Fireball, por exemplo). Ou comentários curtos em timelines. Ou apenas dar “like”, por pura preguiça de comentar.

    Às vezes, você até é o tipo de cara que gosta de escrever textos longos, mas fica meio que preso a esse fluxo das redes sociais.

    Por isso, cada vez mais gosto de publicações extremamente simples e focadas, como a The Magazine e McSweeney’s (iPad).

    Você vai achar estranho, mas dois fatores hoje em dia me dão tesão de escrever:
    1. Boa tipografia.
    2. Retina display.

    Eu quero escrever / ler textos bem diagramados, numa fonte bacana. Pode uma coisa dessas?

    • “Eu quero escrever / ler textos bem diagramados, numa fonte bacana. Pode uma coisa dessas?”

      Também entro nessa variável. Nada pior do que tentar ler um bom texto, porém mal apresentado. Acho que um bom texto merece ter uma bela aparência, merece ser agradável aos olhos.

  4. Acho que o principal problema é que artigos longos / ensaios demandam tempo pra ser elaborados.

    Ou seja: você só escreve quando tem tempo sobrando ou quando é bem pago.

    Fora que, quando você tem internet disponível o dia todo, tende a ficar pulando de clique pra clique. Entra nesse framework mental dos constantes pequenos shots de dopamina.

    O que estimula a produção de textos estilo linkblog (Daring Fireball, por exemplo). Ou comentários curtos em timelines. Ou apenas dar “like”, por pura preguiça de comentar.

    Às vezes, você até é o tipo de cara que gosta de escrever textos longos, mas fica meio que preso a esse fluxo das redes sociais.

    Por isso, cada vez mais gosto de publicações extremamente simples e focadas, como a The Magazine e McSweeney’s (iPad).

    Você vai achar estranho, mas dois fatores hoje em dia me dão tesão de escrever:
    1. Boa tipografia.
    2. Retina display.

    Eu quero escrever / ler textos bem diagramados, numa fonte bacana. Pode uma coisa dessas?

    • “Eu quero escrever / ler textos bem diagramados, numa fonte bacana. Pode uma coisa dessas?”

      Também entro nessa variável. Nada pior do que tentar ler um bom texto, porém mal apresentado. Acho que um bom texto merece ter uma bela aparência, merece ser agradável aos olhos.

  5. Pingback: Em um mundo de texto-drops, quem irá escrever os artigos longos e de alta qualidade? « Zapt Zupt

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