Lugar do Caralho – a estética do brio

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Eu tenho a seguinte tese: é possível explicar a cultura urbana de Porto Alegre dos últimos 25 anos a partir de três álbuns – o A Sétima Efervescência do Júpiter (na época) Maçã, o Baladas Sangrentas do Wander Wildner e o Carteira Nacional de Apaixonado do Frank Jorge. São discos que saíram mais ou menos na mesma época (entre 96 e 2000) e que cumprem duas funções: fecham a tampa dos anos 85 a 95 e inauguram esteticamente a década seguinte. Não por acaso, também, são registros solo de frontmen de bandas altamente relevantes da época imediatamente anterior (o Cascavelettes e o Replicantes), ou seja, um apanhado de artistas ligadíssimos que simultaneamente captaram e definiram conceitos, comportamentos, estéticas e tetos pretíssimos de todo um povo e toda uma era.

Mas…….. como eu não ando com tempo de escrever um livro inteiro sobre isso, brindo vocês com um single: a análise de Um Lugar do Caralho, música do Júpiter, também gravada pelo Wander, uma canção que diz muito sobre as nossas façanhas que deveriam servir de modelo a toda terra. Com jeitão de hino, parente próximo de Amigo Punk da Graforréia Xilarmônica, Um Lugar do Caralho foi registrada no mesmo ano em dois álbuns distintos: o A Sétima Efervescência e o Baladas Sangrentas, cada um com sua versão mas todos baseados na estética do brio – essa crueza, esse direto-ao-assunto, essa ausência de frescura que caracteriza a composição, as produções e os arranjos. Na temática, Lugar do Caralho é o retrato fiel da abordagem portoalegrense do entretenimento especificamente nesse período entre a metade dos anos 80 e o final dos anos 90.

Para explorar um pouco mais esse ângulo, acompanhem-me nesta jornada profunda e misteriosa pelos meandros da letra de Lugar do Caralho.

“Eu preciso encontrar
Um lugar legal pra mim dançar
E me escabelar”

O primeiro verso já revela a alma boêmia portoalegrense: não é que o sujeito queira, deseje, esteja a fim, marque com os amigos, busque por diversão. Revelando a neurose urbana da capital gaúcha, o sujeito PRECISA. Portoalegrense é assim: ele PRECISA das coisas, MUITO, de forma extrema, senão vai MORRER. Um exagero, mas, enfim, uma realidade.

E o que é que essa cepa de sujeitos precisam de forma tão ardente? Um lugar legal. Não é um lugar ESPETACULAR, um lugar SHOW DE BOLA, um lugar UHUU!, um lugar SENSACIONAL, nada disso. É um lugar LEGAL, alguns degraus acima de PALHA, um ou dois estratos acima de BAGACEIRO. Para iniciados, um lugar LEGAL é facilmente identificável, mas o Júpiter é generoso com as massas e passa, então a definir o que seria um lugar LEGAL.

O ponto primordial de um lugar LEGAL, como definido na canção, é que este é um lugar PRA MIM DANÇAR. Não é, de forma alguma, um lugar PRA EU DANÇAR, porque quando EU DANÇA, você percebe um certo nariz empinado envolvido no processo. Um lugar onde MIM DANÇA, por definição, é mais primitivo, mais solto, mais divertido. Para não deixar dúvidas, Júpiter sublinha: E ME ESCABELAR. Aí está a química do LUGAR LEGAL: um lugar onde MIM DANÇA, um lugar pra ME ESCABELAR. Na época, eram poucos os lugares em Porto Alegre que ofereciam essa combinação, sendo provavelmente o Garagem Hermética o mais célebre, mas não o único. Para fazer o contraste, o Dado Bier seria fundamentalmente um lugar PRA EU DANÇAR SEM ME ESCABELAR, enquanto que o Garagem Hermética (ou o Circus ou o Megazine) seria um lugar PRA MIM DANÇAR E ME ESCABELAR.

Seguindo a linha didática da música, Júpiter continua enumerando os predicados de um LUGAR LEGAL.

“Tem que ter um som legal
Tem que ter gente legal
E ter cerveja barata”

Mais claro impossível! Júpiter, aqui, praticamente redige um Manual do SEBRAE para empreendedores da indústria criativa. Se os primeiros versos trabalhavam na subjetividade lúdica, nesse ponto encontramos elementos concretos que tornam um simples lugar num lugar LEGAL. Afinado com todas as grandes religiões do mundo, Júpiter reduz os elementos a três, uma santíssima trindade de fácil memorização. Não se fala em DECORAÇÃO, não se fala em ILUMINAÇÃO, não se fala em CHAPELARIA, SEGURANÇA ou VALET. A cultura do GALPÃO, tão cara ao tradicionalismo gaúcho, reveladora de uma arquitetura básica e nua, sem FIRULAS, surge aqui em sua versão urbana-boêmia. Aos não-gaúchos, esclarecemos que o GALPÃO é a edificação da FAZENDA ou da ESTÂNCIA onde os PEÕES se reúnem após um dia de trabalho duro lavourando ou tocando o gado. O GALPÃO se caracteriza, como já falado, pela simplicidade absoluta. O fogo para aquecer a comida e a água do chimarrão é no chão, geralmente de terra, as paredes tem frestas enormes por onde sopra o vento que vem das coxilhas, enfim, são instalações muito simples – o que lembra a maior parte dos bares estilo LUGAR DO CARALHO na época em Porto Alegre.

Ainda assim, restam algumas dúvidas. Não é difícil chegar a um consenso sobre o que seja cerveja barata. Já gente legal e som legal ainda frequentam o lodoso terreno da subjetividade. O que é legal para você pode não ser legal pra mim. Mas Júpiter, sagaz, continua, esclarecendo.

“Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê
Um lugar onde as pessoas sejam loucas
E superchapadas
Um lugar do caralho”

Aí está, para os mais confusos: gente legal é o alegre encontro de pessoas afudê, pessoas loucas e pessoas superchapadas – muitas vezes no mesmo indivíduo, diga-se de passagem. Nota-se aqui um certo bairrismo quando Júpiter exclui da equação pessoas maneiras, pessoas firmeza e assim por diante. Também não são aceitas pessoas piradas ou lesas. Estamos em território gaudério, falamos de uma área ao sul do Mampituba, não há dúvidas. Qualquer um que frequentou o underground portoalegrense no período comentado acima sabe que ser AFUDÊ, LOUCO e SUPERCHAPADO era praticamente um dress code psíquico para entrar em determinados bares. Não é que pessoas PALHA, CORRETAS e CARETAS não fossem aceitas, mas é que elas simplesmente não achavam a porta.

Mas, bem. Vamos adiante. O compositor passa a régua indo além do mero LUGAR LEGAL. Quando preenchidos todos os requisitos, estamos falando de um lugar cujo todo é maior do que a soma das partes – o segredo matemático do LUGAR DO CARALHO.

Sendo esta estrofe bastante clara, passemos à seguinte.

“Sozinho pelas ruas de São Paulo
Eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim”

No momento mais triste da canção, Júpiter evoca a imagem do desespero que é estar numa grande metrópole da América do Sul, uma das maiores do mundo (lembrando, tema também abordado de forma pungente por Wander Wildner em Bebendo Vinho, mas com foco no Rio de Janeiro). Ao declarar a busca por alguém PRA MIM, “um alguém tipo assim”, definido pelo desejo e não por externalidades, nosso compositor antecipa em cerca de 15 anos o hit de Criolo, ‘Não Existe Amor em SP’. Não é que não existe amor em SP: é que não existe um LUGAR DO CARALHO onde se possa encontrá-lo. Em Porto Alegre, na época, existia. Daí o disco do Frank, Carteira Nacional de Apaixonado.

Primando pelo didatismo, não querendo perpetuar mal entendidos, Júpiter, com paciência monástica, segue enumerando e explicando os elementos básicos da sua tabela periódica. Afinal, o que é um alguém tipo assim?

É, nas palavras dele alguém:

“Que goste de beber e falar
LSD queira tomar
E curta Syd Barrett e os Beatles”

Em primeiro lugar, o DNA de ‘um alguém tipo assim’ é revelado. O TIPO ASSIM (excluindo o TIPO ASSADO) gosta de beber, mas não ficar num canto sem dar papo para os outros frequentadores do LUGAR DO CARALHO. Bebendo, ele FALA, e COMO FALA, fala pelos cotovelos, desfia teorias, resolve os problemas do mundo, tudo isso ENQUANTO BEBE, o que gerava imensas onda de migração de perdigotos. Além de beber e falar, simultaneamente, este sujeito LSD QUER TOMAR. Novamente a inversão na frase revela a identidade: num LUGAR DO CARALHO você dificilmente vai encontrar alguém que queira tomar LSD, mas sim muitos que LSD QUEREM TOMAR.

Na mesma estrofe, Júpiter ainda resolve uma perna da equação que havia ficado (propositalmente) para trás: o que é um SOM LEGAL? Aí está: Syd Barret e os Beatles! Esse verso sozinho mereceria uma monografia ou um estudo antropológico-visual a respeito de toda a onda dos famosos TERNINHOS, os MODS PORTOALEGRENSES que se proliferaram feito alga no Guaíba em época de desequilíbrio ambiental. O poder do verbo de Júpiter Maçã também se provou magnânimo na capacidade de injetar mais de R$ 34 milhões na forma de COMPRAS EM BRECHÓS, um setor que cresceu 237% entre 1996 (quando o Sétima Efervescência foi lançado) e 1999, quando a onda MOD PORTOALEGRENSE atingiu seu auge (* dados da Câmara Setorial de Comércio da Minha Cabeça). Também digna de nota é a produção sessentista e acertada de Egisto Dal Santo (do Colarinhos Caóticos) que também contribuiu para a cara do som portoalegrense nos anos seguintes e a prosperidade econômica dos brechós na época.

Retornando ao som.

A essa altura, a mente do ouvinte já deu mil voltas e experimentou revelações místicas. Mas Júpiter não se perde em digressões inúteis e continua, sistematicamente, a ensinar a engenharia da montagem de um LUGAR DO CARALHO:

“Um lugar e um alguém
Que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas
Sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Lugar do caralho”

Os primeiros dois versos dessa estrofe delineiam a missão e o objetivo de um LUGAR DO CARALHO: um lugar onde se encontra um alguém que tornarão o vivente mais feliz. All you need is love, diria Mick Jagger. No fim, a dança, a música, a chapação, a loucura, é tudo cortina de fumaça para uma busca mais prosaica, a busca por amor (de novo, algo que Frank iria consolidar no Carteira Nacional de Apaixonado em 2000 e que o Wander abraçou em sua carreira solo como um todo). Os versos seguintes, complementares, retomam temas de estrofes idas, com o intuito de reforçar a importância da pessoa humana na construção de um LUGAR DO CARALHO, o que nos traz ao âmago da questão proposta por Júpiter: o LUGAR DO CARALHO não é um LUGAR, mas o ESPÍRITO DE UM CERTO TEMPO.

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17 pensamentos sobre “Lugar do Caralho – a estética do brio

  1. parabéns!
    alguém alguém alguém!
    alguém que está olhando para a produção de música popular massiva urbana do rio grande do sul dos últimos 20 e poucos anos e o mais importante, pensando, refletindo, teorizando sobre isto sem ranços ou competiçõeszinhas de vaidades, relevâncias ou crocâncias perdidas.
    alguém alguém alguém!
    parabéns!
    (obrigado por me incluir no texto, nas tuas reflexões!)

  2. Demaaaaais, demais o texto! Apesar de eu ter conhecido essa “parte/vibe/espírito” de POA depois de 2000, o retrato é muito fiel engraçado! Me diverti lendo! 😉
    Bjo

  3. eu ri ALTO lendo esse texto.
    adorei demais! adorei especialmente também pq to morando em SP e apesar de sempre criticar esse FOLCLORE todo, confesso que adoro. ehhe

  4. la puta que me parió, se existe essa porra de paraíso, ele deve ter o espírito do centro histórico e lá deve tocar direto júpiter maçã, wander wildner e, claro, frank jorge!!!

  5. Pois então, acho que temos q esperar um tempo pra poder olhar pra trás… eu não me arriscaria agora, mas talvez o período posterior a 2000 seja algo relacionado às festas Pulp, Balonê, Disc-o-nexo, Lust, a cena do Beco, algo por aí…

  6. Grande Mini.
    De fato pilares do rock gaúcho e nacional.
    Uma pena que o Júpiter parou no Uma tarde na fruteira (não menos genial). Deveria seguir como o Wander fez com o espetacular La Cancion Inesperada e o digno Caminando y Cantando.

  7. pois então, digo mais, esse momento da cena musical gaúcha foi o equivalente da geração beat no rock Brasileiro na década de 90….

  8. pois então, a usina do gasometro seria O lugar do caralho remetendo a primeira foto do post, já que é um símbolo fálico em Porto, hehe….

  9. concordo duplamente: 1) que temos que esperar um pouco mais pra olhar pra história; e que 2) sim, talvez a cena das festas seja o espírito do tempo dos 2000 – hoje – uma década depois – as “baladas” já suplantaram totalmente a cena roqueira que foi tão forte nos 90.
    boa semana!

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