Lagostas, cultura digital e 50.000 de tons de cinza

A edição de setembro da revista Piauí publicou um ensaio do escritor americano David Foster Wallace chamado Pense na Lagosta. O texto parte da cobertura jornalística do Festival da Lagosta do Maine (conta onde acontece, desenha o panorama sócio-econômico da região e faz uma rápida antropologia dos excessos do festival) mas acaba enveredando brilhantemente por tópicos como o turismo descerebrado e a ética no consumo de animais em geral. É um texto um tanto quanto difícil, não porque inacessível ou prolixo, muito antes pelo contrário. O difícil ali é ter tocado em assuntos como “direitos dos animais” e manter o leitor interessado sem fechar completamente a questão, mantendo-se, pra usar uma expressão pejorativa, um pouco “em cima do muro”.

Embora Wallace se mostre desde o início bastante inclinado a ter compaixão pelas lagostas (e pelos animais em geral), ao longo do ensaio ele também revela uma série de ambiguidades, como seu gosto por determinados tipos de carne e a tendência de não querer tocar demais nesse assunto para não mexer nesse gosto – quem nunca? O espaço entre uma força interna e outra é recheado com seu reconhecido talento, com uma escrita da melhor qualidade, baseada numa mistura equilibrada de investigação científico-jornalística com reflexão intelectual que acaba nos levando, felizmente, a lugar nenhum. A ideia de que lagostas e pontos turísticos sofrem com a estupidez humana é, sim, uma tese, mas com os flancos bastante abertos ainda. É preciso muito conteúdo, muitas páginas, muito tempo e muito talento pra escrever, escrever, escrever e nos largar no meio do nada.

Claro que, cumprindo o trajeto proposto por Wallace, chegamos a lugar nenhum com outra bagagem, tendo colocado conceitos e opiniões pra se mexer, se exercitar, se alongar. Não é surpreendente que um material desse calibre provoque esse tipo de experiência e não é por isso que falo disso tudo aqui, pois David Foster Wallace não anda precisando de aplausos (tanto por já estar morto quanto por estar recebendo seu devido quinhão de atenção post-mortem). O ponto que me parece ser necessário estressar diz respeito ao valor desse tipo de trabalho intelectual na época em que vivemos: nunca foi tão importante manter-se em cima do muro, chegar a lugar nenhum e navegar nos tons de cinza dos conceitos de um mundo que parece muito apegado ao preto no branco.

Isso pode ser relacionado ao fato de vivermos numa época regida pelas ciências exatas – ou pela ideia popular do que é  isso. Por mais social que tentemos nos convencer que somos, a cultura digital é baseada em informática, matemática pura. O teórico de mídia Douglas Rushkoff costuma dizer que estamos imersos em atitudes snap-to-grid, aquele recurso de programas gráficos que alinha objetos automaticamente. E mais: toda nossa interação digital é baseada em formulários, dados, números, códigos e questões binárias. Outro escritor, Jonathan Franzen, escreveu recentemente em um artigo bastante comentado que Curtir é Covardia. Eu já iria além: não curtir também é. Porque entre curtir e não curtir existe todo um especto de possibilidades de expressão que nos é negada na experiência cotidiana da cultura digital. Curtir-não curtir, favoritar-não favoritar, retuitar-não retuitar, repassar-não repassar, 🙂 ou :-(. Muito pouco é exigido de nós, muito pouco acabamos retirando dessas interações.

Mas não vamos botar a culpa na tecnologia, claro. Parece existir também uma espécie de curtir-não curtir em termos gerais de opinião e posicionamento, independente das redes em geral e dos aparelhos que as acessam. Hoje em dia é difícil manter alguém interessado se você não se posiciona com intensidade, imediatamente, naquele segundo. Daria pra dizer que existe uma certa tendência ao vício em posicionar-se e em consumir posicionamento. Filme americano que detona o islã, Tatu da Copa, Avenida Brasil, reality shows, Michel Teló, Apple, Dilma, Serra, cotas universitárias, código florestal, bicicleta nas grandes cidades, importância da Copa e das Olimpíadas, Mensalão: se você não escolhe um lado logo, parece que não existe. Se escolhe, é reduzido ao universo do curtir ou não curtir. Isso não tem cara de democracia, tem a maior cara é de bipartidarismo.

O que nos leva à questão ulterior: examinar mais opções exige tempo. Tempo para estudar, tempo para ler, tempo para escrever, tempo para debater e, acima de tudo, tempo para deixar um assunto descansar, cozinhar, fermentar. Sem tempo, submersos na água do excesso de informação, não nos parecemos com seres racionais que páram, pensam e decidem e sim com as pobres lagostas se debatendo (e não debatendo) desesperadas enquanto a fervura sobe.

***

Ambos os desenhos: Guilherme Dable.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Lagostas, cultura digital e 50.000 de tons de cinza

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s