Conversando enquanto cai o mundo

“Treze Dias que Abalaram o Mundo” (2000) é um thriller político ao estilo Supercine que cobre a Crise dos Mísseis em Cuba com a agilidade e inteligência cinematográfica clássicas do melhor cinemão mainstream hollywoodiano. A ação, conduzida pela mão firme e correta de Roger Donaldson, se passa em outubro de 1962, quando missões americanas de reconhecimento aéreo trouxeram para a mesa do presidente Kennedy fotos da instalação de mísseis russos em Cuba a uma distância que permitiria um ataque nuclear devastador aos Estados Unidos. A partir dessas fotos, seguiram-se os tais treze dias da mais pura tensão política e com um detalhe adicional assustador: diz-se que foi um dos momentos em que se chegou mais perto de uma guerra nuclear entre os EUA e a União Soviética.

Embora o contexto e os movimentos políticos retratados no filme sejam fascinantes, porque definem as linhas de força de uma era próxima e reconhecível, um outro aspecto chama a atenção – e também pela ligação com os dias de hoje. Esse aspecto é bastante bem representado pelo segmento abaixo.

Desde o início do filme, a cúpula militar americana é retratada como uma turma de cowboys nervosos que apostam no mandamento sagrado do ataque como melhor defesa. No entanto, o Secretário de Defesa Robert McNamara e o Chefe da Casa Civil Kenny O’Donnel pressentiam que o excesso de testosterona nas reuniões da Casa Branca poderia acarretar uma destruição nuclear mútua caso o Presidente se deixasse levar por bravatas belicistas. Durante a maior parte do filme, tudo que McNamara e O’Donnel fazem é criar uma área de desaceleração de opiniões precipitadas, evitando que os Estados Unidos dessem o primeiro passo em direção à catástrofe.

Um dos recursos de negociação interna entre a casa civil e os militares foi substituir a ideia de um ataque total (a primeira escolha dos cowboys) por um bloqueio à frota russa que trazia mais mísseis a Cuba. A cena acima se desenrola justamente no ponto mais crítico do bloqueio, quando os navios de ambas as nações se encontram. Os militares americanos não tem autorização para atirar e, contrariando a ordem presidencial a partir de uma interpretação tendenciosa, lançam mísseis sinalizadores de advertência. Nem todos, entre ianques e russos, sabem que aquilo são sinalizadores e não tiros de verdade. É quando McNamara interpela o general tentando fazê-lo enxergar, como ele mesmo diz, que “Isso não é um bloqueio. É uma linguagem. Um novo vocabulário, do tipo que o mundo nunca viu antes. Isso é o Presidente Kennedy e o Secretário Khrushchev conversando!”

Os oficiais ficam surpresos, tanto com a audácia de McNamara de levantar a voz em plena central de comando da Marinha quanto com o conteúdo da gritaria. Considerar movimentos militares beirando a guerra como a sintaxe de um diálogo político em escala global era, de fato, um conceito novo, típico das ações diplomáticas ambíguas da Guerra Fria e alimentado pela ascensão da mídia de massa, das transmissões em rede mundial. Desde sempre, informação sempre foi decisiva na política e nas guerras, mas até então, quando se falava em informação, se queria dizer dados táticos de campo, secretos ou não. Nesse caso, informação ganhava o significado mais amplo que usamos hoje: Kennedy e Krushchev conversavam utilizando uma multiplicidade de canais, o que incluía pesadas operações militares, e, também, um certo tempero incontrolável via editoriais, colunas e reportagens da imprensa mundial, o que adicionava novas camadas de significados e pesos ao diálogo dos dois líderes.

Por que estou escrevendo isso tudo? Porque quando revi esse filme, lembrei na hora da nossa comunicação individual e coletiva usando a internet. Mais do que nunca, estamos aptos a mandar recados uns pros outros, individual e coletivamente, da mesma forma altamente simbólica como aconteceu na cena do filme postada logo acima (não deixe de ver!). No âmbito coletivo, o compartilhamento de notícias, artigos, postcards e piadinhas sobre esse ou aquele assunto costumam se agregar em duas ou três posições polarizadas, gerando, a longo prazo e de forma muito sutil, um diálogo social. Eventos políticos de grande alcance, como o do Mensalão, são um exemplo execelente. Nesse caso, a maior parte das pessoas deu sua contribuição à conversa nacional na forma de ações indiretas – curtindo, compartilhando, passando emails adiante, numa intensidade e quantidade muito maior do que, provavelmente, o diálogo direto. No âmbito mais particular, da mesma forma, colegas de aula amigos, casais, enfim, grupos diversos também dialogam desse jeito um pouco esquivo. As curtidas, os compartilhamentos, os forwards de email, as mensagens de what’sapp, as fotos do Instagram, tudo isso somado forma blocos enormes, pesados e relevantes de opiniões e vetores culturais disfarçados de uma colcha de retalhos caótica.

O chilique do Secretário McNamara, então, nunca foi tão atual. Não se trata de uma batalha, de uma disputa campal. Se trata de “uma linguagem, um novo vocabulário do tipo que o mundo nunca viu antes”. A única e mais importante diferença de 1962 pra 2012 é que não são mais dois estadistas conversando. Somos eu e você.

***

Esse texto estava guardado há algumas semanas esperando um tempinho pra eu dar uma revisada. Entre eu terminar de escrevê-lo e essa postagem, estouraram em SP e em SC as ações dos respectivos PCCs. E, no Oriente Médio, o rolo entre Israel e Palestina. Também são casos, me parece, de conflitos que mais parecem enormes, profundos e complexos diálogos travados entre grupos liderados por dirigentes que, no caso, desaprenderam a conversar e que estão totalmente imersos em sistemas políticos ineficientes para a mediação de paz. Não que a situação fosse muito melhor em 62. Diante do meu desconhecimento de política internacional, tudo que posso pensar é que na época a humanidade simplesmente teve mais sorte. Tomara que essa sorte não tenha acabado.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Conversando enquanto cai o mundo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s