Jules Feiffer e criatividade

Se tem uma coisa que eu já ouvi umas 286 vezes sobre pessoas que lidam com criatividade é o quanto elas são inseguras e, em certa medida, imaturas emocionalmente. Como se fossem crianças crescidas, brincando com a vida em vez de trabalhar. Não é exatamente uma novidade falar sobre isso, volta e meia aparece um psicólogo ou um cientista ou uma ex-mulher ou ex-marido de alguma persona criativa com histórias pitorescas. Mas talvez quem melhor tenha escrito sobre o tema, e com muitomais propriedade, foi o cartunista americano Jules Feiffer, num livro voltado para o público infanto-juvenil mas que aborda a psiquê de quem mexe com atividades criativas sem uma única teoria psicológica, sem nenhum gráfico ou pesquisa. Isso é O Homem no Teto.

O livro conta, alternando texto e ilustração, as experiências de Jimmy Jibbet, um garoto que não é bom em esportes, não é popular no colégio, não presta atenção na aula, mas desenha e escreve quadrinhos com uma dedicação e um talento vibrantes. O primeiro ponto valioso que brota das entrelinhas de O Homem no Teto é que o envolvimento de Jimmy com os quadrinhos não pode ser definido como mera recreação. Parte de uma família americana de classe média baixa, Jimmy usa as aventuras de seus personagens como forma de elaborar o ambiente no qual está inserido. Histórias sobre um pai idealizado ou sobre um herói chamado Mini-Man vão dando conta de acomodar e processar os conflitos com a irmã maior briguenta, com a menor demandante de atenção, com o pai distante e com a mãe um pouco mais próxima. As encrencas clássicas de escola, como a alienação perante o cotidiano burocrático e a força magnética de um colega que parece perfeito em tudo, também são todas debulhadas no processo criativo solitário de Jimmy. O mecanismo é totalmente alheio para o menino, mas sem dúvida é eficientíssimo.

Essa dinâmica toda ganha mais impulso, tanto para Jimmy quanto para nós, que estamos acompanhando a narrativa, quando entra em cena o tio do garoto, um fracassado compositor de musicais que em certo ponto tem sua carreira estimulada por um pequeno sucesso. O Tio Lester é a luz no fim do túnel para Jimmy, é sua alma gêmea, é a única pessoa em uma pequena multidão que serve de espelho confiável, de verdadeiro conterrâneo no lodoso e complicado terreno das atividades criativas. A interação entre Tio Lester e Jimmy fornece a via de escape pro garoto, resgatando uma jovem mente imaginativa à beira do precipício da auto-anulação. E, o mais importante: sem proselitismo, sem licões de moral, sem recadinho de auto-ajuda hipster. Tudo contado dentro da história pessoal de Jimmy. É presença de um igual – e não explicações racionais – que salvam nosso herói que fazem nossa leitura valer a pena.

Como escreveu outro cartunista premiado, o Art Spiegelmen, Feiffer usa sua “percepção penetrante como um laser com que ele desvenda o mecanismo de motivações das pessoas.” Ou seja, é um livro sobre a criança criativa que existe dentro de cada um de nós e um mapeamento dos obstáculos particulares e sociais que costumam enterrar essa índole. Mais do que isso, O Homem no Teto prova, na prática, que o desenvolvimento ou o resgate da nossa criatividade inata não se dá através de receitas de bolo ou de teorias rasteiras, mas sim por meio de um exemplo no qual possamos nos espelhar e com o qual possamos dialogar – ainda que esse diálogo seja nosso, interno.

Nesse sentido, o Jules Feiffer fez algo realmente genoroso ao nos deixar essa pequena superfície espelhada e profunda em forma de livro infanto-juvenil, com a qual podemos nos enxergar, dialogar e refletir.

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PS: aquele abraço ao André Takeda, que me mostrou esse livro há uns 15 anos. Comprei na época e só recentemente fui ler…

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