Valioso legado

Tava pensando esses dias: uma das contribuições mais valiosas que a contracultura nos deixou foi uma linguagem amigável, jovem e atraente para falar de assuntos que em geral são tratados com desdém por quem não está ligado formalmente a uma religião ou a estudos filosóficos e morais. Navegação interior, busca por transcendência, amor universal, paz na terra, compaixão, interdependência, tudo isso raramente interessa ao público em geral a menos que venha embalado em cultura popular – e a contracultura permitiu isso.

Por contracultura entenda-se um caldeirão vago e gigantesco onde estou colocando os beats, suas influências (as filosofias orientais adaptadas ao ocidente, os poetas americanos ligados à natureza, o bebop) e seus sucessores (em especial a música pop das décadas de 50 e 60). Esse povo digeriu e embalou o que até então era considerado maluquice e/ou chatice, colocando papos do coração e da mente na mesa de uma cultura ocidental eminentemente materialista. Muitas vezes profunda e inteligente, claro, mas em geral materialista.

Nos anos 90, acho que vimos a decadência dessa linguagem e aí veio a cultura digital pra substituir o papo riponga no papel de manter de pé os assuntos do coração. Vida virtual, conexão mundial, colaboração, co-criação, revoluções articuladas pela rede, questionamento de regras vigentes: tudo isso começou com os escritores de cyberpunk, ganhou o mainstream com o Matrix e se tornou cotidiano com o fenômeno das redes sociais. De novo são assuntos universais e profundos envernizados com questões novas. Não fosse esse verniz, muito assunto não seria tratado.

Fica a questão: quando o papo maluco beleza da vida digital esfriar, qual será a próxima onda que vai nos permitir conversar, cantar e vestir a ideia de paz & amor?

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2 pensamentos sobre “Valioso legado

  1. Acredito que o minimalismo venha com força, depois de tanto tempo de informação incessante, “veja isso, leia aquilo, pesquise e saiba, reconheça referências, fique por dentro e faça parte!”, a onda vai ser simplificar, cortar e focar, desligar a internet e curtir uma fogueira no fim de tarde.

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